Criado em 1946, quando o Brasil acelerava a passagem de uma sociedade rural para uma economia urbana e industrial, o Sesc chega aos 80 anos como uma das instituições mais reconhecidas do País. Ao longo desse período, a sociedade brasileira mudou significativamente e o Sesc também transformou suas prioridades. Se, no início, clínicas médicas respondiam à falta de uma estrutura pública de saúde, atualmente a atuação se concentra, sobretudo, na cultura, no lazer e no esporte. “Estamos sempre com as antenas ligadas”, afirma Luiz Galina, economista, sociólogo e diretor-regional do Sesc São Paulo. Em entrevista à Revista Problemas Brasileiros (PB), ele rememora a origem da instituição e explica o modelo de funcionamento das unidades — que reúnem teatro, piscina, clínica odontológica e exposições sob o mesmo teto —, além de abordar desafios contemporâneos, como a inclusão digital, o combate ao racismo, a valorização das pessoas idosas e a emergência climática.
A certidão de nascimento do Sesc é o Decreto-Lei 9853, de 13 de setembro de 1946, assinado pelo então presidente da República Eurico Gaspar Dutra — democraticamente eleito ao fim da ditadura de Getúlio Vargas. É uma instituição virginiana, signo que, dizem, caracteriza boas organizações e pessoas e instituições organizadas. Na primeira metade da década de 1940, a Segunda Guerra Mundial ainda estava acontecendo e o comércio internacional foi tremendamente afetado. O Brasil importava quase tudo, principalmente da Europa e dos Estados Unidos. A guerra interrompeu esse fluxo, e o Brasil — predominantemente agrícola — foi obrigado a se industrializar para ter os bens que até então eram importados. Com o processo de industrialização, a população rural começou a migrar para as cidades e grande parte era analfabeta, com problemas de saúde, sem acesso à cultura, sem preparo para trabalhar na Indústria, no Comércio ou nos Serviços. As lideranças empresariais da época chegaram à conclusão de que, se não houvesse uma ação efetiva para acolher essa população — para cuidar da saúde, do bem-estar, da educação, da moradia —, se não houvesse um esforço nacional, essas pessoas não estariam preparadas para viver no ambiente urbano. Preocupados com a situação, esses empresários organizaram, em 1945, a Conferência de Teresópolis, no Rio de Janeiro, e concluíram que precisavam assumir uma responsabilidade pelo desenvolvimento social de quem estava indo viver nas cidades. Então, foi elaborada a Carta da Paz Social, a base filosófica para a criação do Serviço Social do Comércio (Sesc), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Nesta carta, os empresários assumem que, além do objetivo do seu negócio — a busca pelo lucro —, tinham que olhar também para o social. A ideia foi levada ao governo, com o compromisso de que o empresariado assumiria a responsabilidade por essa nova população urbana, pagaria a conta, mas seria necessária uma estrutura legal que apoiasse a iniciativa. O Senai já havia sido instituído em 1942 [pelo Decreto-Lei 4.048], e cada uma das demais instituições ganhou um decreto próprio para a sua criação.
Sem dúvida alguma, o Sesc e os outros Ss, tiveram (e têm) uma participação importante no desenvolvimento do Brasil, em todos os aspectos — econômico, social, cultural, de educação e de saúde. É o reconhecimento dos direitos humanos do trabalhador, de que ele precisa ter apoio e mecanismos que permitam seus desenvolvimentos educacional, social e da saúde. É reconhecer a importância do trabalhador na economia. Lembrando que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) havia sido criada recentemente e os trabalhadores não tinham ainda mecanismos de proteção adequados. A missão do Sesc é focar na importância do trabalhador, da sua família e da comunidade, que é a base do desenvolvimento de um país.
O Sesc, ao longo da sua história, vem fazendo um diagnóstico da situação e analisando onde os seus recursos seriam mais bem aplicados para o cumprimento da sua missão, que é promover o bem-estar social dos trabalhadores. No início, investiu muito em saúde. As primeiras unidades eram clínicas médicas, porque não havia o Sistema Único de Saúde (SUS). À medida que o Estado foi assumindo essa função, a escolha foi a de investir em cultura e lazer. Uma das primeiras unidades do Sesc é o Centro de Férias em Bertioga, no litoral de São Paulo, fundado em 1948, dando condições para que o trabalhador pudesse usufruir do seu período de férias, reconhecendo que o tempo de descanso é fundamental. Construir uma colônia de férias foi pioneiro, não se falava em lazer até a década de 1970 e, hoje, o lazer é uma reivindicação de todo o movimento de trabalhadores.
A maioria segue um mesmo modelo, de centros culturais e desportivos, onde no mesmo espaço desenvolvem-se atividades esportivas, culturais e de saúde. Nesses espaços temos teatro, sala de exposição, clínica odontológica, piscina, quadras de esporte, um conjunto de atividades para promover o bem-estar do trabalhador. Um modelo único, muito particular do Sesc-SP. Há unidades especializadas, mas são poucas, como o CineSesc, reconhecido como um dos melhores cinemas de rua da capital paulista. Há ainda o Centro de Férias em Bertioga e o Centro de Pesquisa e Formação — nossa universidade corporativa, onde compartilhamos conhecimento em gestão cultural, esportiva e de saúde. Por fim, temos a editora, com mais de 400 títulos em catálogo, o Centro de Desenvolvimento Infantil e o Sesc São Bento, focado em odontologia.
O bem-estar do trabalhador precisa de tudo que o Sesc desenvolve: a música, o teatro, o cinema, o circo e as atividades esportivas. Somos, na verdade, centros de convivência: promovemos o encontro das pessoas para que convivam harmoniosamente, cada uma aceitando a outra do jeito que é. Então, trabalhamos muito, por exemplo, no tema do combate ao racismo, um estigma que precisa ser vencido.
Primeiro, a própria gestão do pessoal. Somos 9,7 mil funcionários, 53% do quadro é de mulheres e 44%, de pessoas afrodescendentes. Temos descendentes de indígenas. São poucos, mas temos. Porque, se estamos preocupados em combater o racismo, temos de ter a presença de profissionais negros, que entendam o quanto o racismo é nocivo. E há toda uma programação voltada para a valorização da cultura. Quais são os elementos da formação cultural do Brasil? Os povos originários, os negros e o europeu. Desse caldo de cultura resulta um Brasil único. Mas, infelizmente, ainda temos racismo.
Como organização, o Sesc precisa fazer o que todas as instituições e empresas fazem, evoluindo nos seus processos de trabalho e de gestão e utilizando todos os recursos da tecnologia da informação que existem. Também, na nossa programação, trabalhamos para que os recursos da tecnologia da informação estejam à disposição das pessoas que nos procuram. Na maior parte das unidades, há o Espaço de Tecnologia e Arte, para o letramento tecnológico do público, porque dominar o uso da tecnologia é tão importante quanto ser alfabetizado. Então, o Sesc, na sua programação, procura oferecer recursos para que as pessoas tenham contato com as soluções que a tecnologia da informação traz à vida cotidiana, à arte, à música, a tudo.
O Sesc-SP foi pioneiro no trabalho social com a pessoa idosa, iniciado em 1963. No restaurante da unidade do Sesc Carmo, no centro de São Paulo, um técnico da equipe de educadores observou que os aposentados ficavam lá reunidos, batendo papo, jogando dominó, depois do almoço. E esse funcionário se perguntou o que o Sesc poderia fazer por essas pessoas, além de propiciar o ambiente de encontro. A partir dessa observação, começou o trabalho de reuni-los e promover ações para que o idoso se reconheça (e seja reconhecido) como um cidadão de plenos direitos. Que o idoso possa continuar a sua vida, depois de aposentado, com normalidade, continuar estudando, frequentando círculos sociais, desenvolvendo amizades e que não tenha que ficar em casa de pijama. Quando o Sesc começou esse trabalho, alguém com 50 anos era considerado idoso. Atualmente, as pessoas estão chegando aos cem anos. O Sesc, então, desenvolveu toda uma metodologia de trabalho social de como educar as pessoas para terem uma vida ativa na terceira idade. E, hoje, grande parte da nossa clientela — de 600 mil pessoas que frequentam as 44 unidades do Sesc-SP semanalmente — é de pessoas idosas, que vêm fazer ginástica, participar dos corais, assistir aos nossos shows musicais e ao teatro, vêm dançar. Organizamos bailes, excursões e encontros. Somos centros de desenvolvimento de educação permanente, onde as pessoas aprendem a se respeitar e aprendem que precisam ser respeitadas também. E o mesmo vale para os mais jovens. Nos espaços de brincar, trabalhamos com crianças de zero a seis anos, onde os educadores ensinam a importância do brincar para o desenvolvimento. Temos o Sesc Curumim, no contraturno escolar, em que as crianças de sete a 12 anos participam de atividades culturais e desportivas, complementando a formação escolar. E trabalhamos com grupos de jovens, que se reúnem para discutir os problemas relacionados à juventude e à adolescência, esse momento tão difícil da vida que é a preparação para a vida adulta, e também como o jovem pode se situar na dinâmica da sociedade atual.
Estamos sempre com as antenas ligadas. No momento presente, o mundo está enfrentando a crise climática, decorrente da poluição, da destruição das florestas, desse total descaso que a humanidade teve com seus recursos naturais. E a crise climática afeta quem? A pessoa com menos recursos, a pessoa que tem menor renda, a pessoa que não tem uma habitação adequada. Estamos muito focados na educação para a preservação e a valorização do meio ambiente, com ações voltadas para como cada um de nós pode colaborar no seu campo de atuação pessoal, profissional, familiar e comunitária. É um aprendizado, em que ações colaboram para que essa crise não se agrave. Estamos atentos também à evolução tecnológica. Gostemos ou não, a Inteligência Artificial (IA) está aí. Como é a relação das sociedades, das pessoas, com a IA? Então, promovemos ações nas quais as pessoas podem conhecer, discutir e refletir sobre como usar melhor esses recursos. Outro ponto é a violência contra a mulher. Infelizmente, o Brasil é campeão na questão da violência contra as mulheres. O que o Sesc deve fazer para que esse problema seja eliminado? O Sesc está antenado com os grandes problemas sociais de cada momento. E continuará sempre antenado.