No dia 4 de julho de 1776, a Declaração de Independência, assinada na cidade da Filadélfia, atual Estado da Pensilvânia, marcou a separação das 13 colônias norte-americanas do Império Britânico. Redigido pelo historiador e filósofo Thomas Jefferson e fundamentado nas ideias iluministas do filósofo inglês John Locke, o documento de fundação dos Estados Unidos da América proclamou a vida, a liberdade e a busca da felicidade como direitos naturais inalienáveis.
O reconhecimento da Independência pela Inglaterra ocorreu apenas em 1783, após vitoriosa guerra revolucionária conduzida por George Washington, primeiro presidente do país, cuja Constituição foi aprovada em 1787 — a mais antiga do mundo, em vigor até hoje, com emendas.
Com 2,5 milhões de habitantes (dentre os quais 500 mil eram escravizados), a primeira república das Américas surgiu proclamando seu Destino Manifesto de “povo escolhido por Deus para liderar o mundo”. Em consequência, durante o século seguinte, seu tamanho aumentou sete vezes, até chegar ao Oceano Pacífico, dizimando os povos originários (de 12 milhões de pessoas em 1600, para 250 mil em 1900) na “Marcha para o Oeste” e apropriando-se pela guerra, em 1848, de metade do território do México.
Após a sangrenta Guerra Civil (1861–1865), que causou a morte de 700 mil soldados, cerca de 2% da população da época, o consequente fim da escravidão unificou o mercado, promoveu o trabalho assalariado e aumentou a imigração, impulsionando a produção industrial em massa, apoiada também nas inovações e na abundância de matérias-primas e recursos energéticos.
Ao fim do século 19, os Estados Unidos já tinham uma Marinha em pé de igualdade com as da Grã-Bretanha e da Alemanha, mas eram recém-chegados ao banquete das potências imperiais, as quais anexaram em territórios, entre 1872 e 1914, o equivalente a duas vezes e meia a superfície da Europa.
Após uma guerra de apenas três meses contra a Espanha, em 1898, apossaram-se de Porto Rico e das Filipinas e, no mesmo ano, subjugaram o arquipélago do Havaí, em detrimento dos nativos, além de estabelecerem bases navais nas ilhas de Cuba e de Guam, conquistas que se somaram à compra do Alaska da Rússia, que aconteceu em 1867.
Se, por um lado, as grandes empresas estadunidenses estimulavam o que ficou conhecido como “diplomacia da canhoneira”, para forçar o acesso a novos mercados, por outro, intelectuais e vastos setores sociais criaram, em 1898, a Liga Anti-Imperialista, que afirmava que “A subjugação de qualquer povo é ‘agressão criminosa’ e deslealdade aberta aos princípios distintivos de nosso governo”. O escritor norte-americano Mark Twain acrescentava: “Oponho-me a deixar que a águia [símbolo dos Estados Unidos] ponha suas garras sobre qualquer outra terra”.
O Destino Manifesto, porém, seguiu adiante. A partir de 1901, o presidente Theodore Roosevelt resumiu numa frase a Política do Big Stick — “Fale manso e carregue um porrete”. Essa era sua receita para fazer valer a Doutrina Monroe, de 1823, segundo a qual a América Latina não passaria de um “quintal” dos Estados Unidos, conceito em vigor ainda em 2025, de acordo com o secretário de Guerra do governo de Donald Trump, Pete Hegseth, ao se indignar com a influência da China no Hemisfério Ocidental.
Do desmembramento do Panamá, território arrancado da Colômbia, em 1903, para a construção do interoceânico Canal do Panamá, até a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, os países considerados “Repúblicas das Bananas” sofreram incontáveis invasões militares dos Estados Unidos, alternadas com golpes articulados pela Agência Central de Inteligência (CIA, por sua sigla em inglês) para a remoção de governos indesejáveis.
Com as potências europeias devastadas após a Primeira Guerra Mundial, Nova York tomou o lugar de Londres como centro da economia mundial, até que a quebra da Bolsa de Valores de Wall Street, em 1929, arrastasse o capitalismo sem freios para a Grande Depressão. Apenas dez anos depois, às vésperas da Segunda Guerra, as encomendas bélicas permitiriam que os Estados Unidos restaurassem o vigor de sua produção industrial.
Após encerrar sua participação na Segunda Guerra, em 1945, com o lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão, Washington substituiu, no pós-guerra, os impérios coloniais em frangalhos pelo poder do dólar e de suas bases militares espalhadas por todos os continentes. Durante a Guerra Fria, forçou uma corrida armamentista com a União Soviética que levou ao fim dos regimes socialistas na Europa e à completa hegemonia unipolar estadunidense no mundo que adentrou o século 21.
Ao contrário do “fim da história” que se chegou a proclamar, porém, a globalização econômica levou à ascensão de polos regionais liderados pela China e que resultariam na formação do bloco econômico Brics, formado por países emergentes, reconfigurando a geopolítica planetária.
Com o Brasil, os Estados Unidos mantêm uma relação bicentenária e, na passagem do século 19 para o 20, tornaram-se o principal destino de nossas exportações de café e de borracha. Durante a Era Vargas, entre os anos 1930 e 1950, sucederam a Inglaterra como força dominante, desde a Independência, no cenário financeiro brasileiro.
Dos anos 1920 aos dias de hoje, o estilo de vida estadunidense — baseado no automóvel, nos eletrodomésticos e nas redes de fast food — disseminou-se por meio do cinema, do rádio e da televisão. Às dominações econômica e cultural, seguiu-se a ingerência política. Além de patrocinarem o golpe civil-militar de 1964, moldaram as políticas neoliberais adotadas após a redemocratização com os cânones do chamado Consenso de Washington, pacote de medidas austeras adotado pelo Fundo Monetário Mundial (FMI) e pelo Banco Mundial para conter a crise da dívida externa da América Latina.
No século 21, porém, o advento da China como principal parceiro comercial do Brasil, aliado ao fato de que o gigante asiático já supera os Estados Unidos em diversos campos, desencadeou reações que chegaram ao “tarifaço” aplicado no ano passado por Trump.
A guerra comercial, as ameaças, até contra aliados europeus, e o ataque ao Irã afastam ainda mais os Estados Unidos dos ideais de civilização proclamados há 250 anos, assim resumidos por um de seus mais notáveis presidentes, John F. Kennedy: “Em última análise, nosso vínculo comum mais básico é que todos habitamos este pequeno planeta. Respiramos o mesmo ar. Todos cuidamos do futuro dos nossos filhos. E todos somos mortais”.