Caio César tem 37 anos e trabalha como especialista em redes digitais na organização Médicos Sem Fronteiras. O teste positivo para HIV veio em 2012, em Belém, no Estado do Pará, após um período de adoecimento e exames que não identificavam o que ele tinha. Decidiu fazer o teste de HIV, orientado por sua tia, enfermeira. Soube ser soropositivo e, junto com o diagnóstico, veio o apoio incondicional de sua mãe. “Enfrentei doenças oportunistas e o primeiro antirretroviral foi um ponto de ruptura. Desabei quando o tomei. Eu percebi que aquilo seria para sempre. Porém, o apoio de minha mãe fez tudo parecer um pouco menos pesado”, relembra.
O relato de Caio conecta-se a uma mudança central da saúde pública brasileira. A Lei nº 9.313, de 1996, determinou a distribuição gratuita de antirretrovirais para pessoas vivendo com HIV e aids pelo Sistema Único de Saúde (SUS), consolidando o tratamento como direito e sustentando uma resposta nacional com resultados positivos em mortalidade, internações e controle da transmissão.
O marco ocorre com indicadores recentes de melhora. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2025, as mortes por aids caíram 13% entre 2023 e 2024, sendo registradas 9,1 mil. Os diagnósticos também recuaram 1,5%, de 37,5 mil para 36,9 mil. O Brasil apresentou queda de 7,9% nos casos de gestantes com HIV e redução de 4,2% no número de crianças expostas ao vírus. O início tardio da profilaxia neonatal caiu 54%. Em nota para a Revista Problemas Brasileiros (PB), o Ministério informa que mais de 870 mil pessoas estão em tratamento e que 96% têm carga viral suprimida.
De acordo com o Ministério da Saúde, a incorporação de inovações ocorre de forma responsável, equilibrando evidência científica, sustentabilidade do SUS e equidade de acesso. A nota reforça, como medidas adotadas, a negociação de preços, incentivo à produção local e a superação de barreiras de acesso, que, segundo o documento, historicamente colocaram o Brasil na liderança global pela garantia de acesso aos antirretrovirais.
O avanço mais recente chegou em janeiro de 2026, com a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do lenacapavir, medicação injetável de longa duração indicada para uso como Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) em adolescentes e adultos. Na mesma direção, a Fiocruz anunciou a realização de um estudo em sete cidades brasileiras para analisar a viabilidade da incorporação do medicamento ao SUS.
O infectologista Paulo Roberto Abrão Ferreira, docente na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aponta que a terapia combinada — que utiliza coquetéis de medicamentos, muitas vezes em um único comprimido para suprimir a carga viral, tornando-a indetectável e intransmissível — foi decisiva para controlar a doença e reduzir mortes. E a universalização do tratamento mudou o cuidado em larga escala. “Esse tratamento passou a ser universal, o que significa que todo mundo com diagnóstico deve começá-lo independentemente da sua condição clínica”, ressalta.
Há ainda a prevenção combinada como resposta à ausência de vacina eficaz e às limitações do uso consistente de preservativos, com destaque para a PrEP, já eficiente mesmo antes do lenacapavir. “A PrEP foi uma revolução. Com uma pílula diária, é possível reduzir em 98% o risco de infecções se a pessoa tiver uma boa adesão”, explica. Ferreira também aponta a tendência dos fármacos de longa ação para prevenção e tratamento, com esquemas semestrais e estudos mirando aplicações anuais.
Na nota, o Ministério da Saúde ainda ressalta a participação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e uso de estratégias como negociação de preços e incentivo à produção local. O texto também destaca a expansão da PrEP na rede pública e reforça que é necessário lidar com obstáculos persistentes, como o diagnóstico tardio, as desigualdades regionais e o estigma associado ao HIV.
A jornalista Roseli Tardelli, fundadora e CEO da Agência de Notícias da Aids e uma das idealizadoras do projeto Contato, do Sesc São Paulo, associa a lei de 1996 a um período em que havia barreiras de acesso, ausência de terapias combinadas eficazes e estigma. “Nossa família vivenciou o HIV em um momento que costumo chamar de década da tragédia”, conta. Seu irmão, o tradutor Sérgio Tardelli, contraiu o vírus no início da década de 1990.
“Os convênios médicos e seguros saúde não atendiam as pessoas que se infectavam com o HIV, não existiam remédios com a combinação adequada para coibir os efeitos do vírus e sobrava preconceito. E preconceito tem a mesma força, ou um pouco mais, que o próprio HIV”, afirma Roseli. A jornalista viveu de perto o drama da aids e, depois da morte do irmão, tornou-se ativista do movimento de luta contra a doença.
Na avaliação de Roseli, a lei redefiniu o cuidado em escala pública. “A promulgação dessa lei instituiu a distribuição gratuita de medicamentos para pessoas vivendo com HIV ou que já desenvolveram aids. A lei garantiu o acesso aos antirretrovirais e mudou completamente a história da doença no Brasil. Virou exemplo para o mundo”, reforça.
Ainda no início da consolidação do coquetel, em 1999, o governo federal divulgou que o uso da terapia combinada reduziu em 50% as mortes por HIV e em 80% as infecções oportunistas, sinalizando o efeito direto da oferta de tratamento em larga escala.
A infectologista Laura Andrade Lagôa Nóbrega, professora na Faculdade São Leopoldo Mandic, aponta que a mudança mais visível na prática clínica foi a melhora do perfil dos fármacos. “Os medicamentos atuais são muito mais eficazes, o que proporcionou qualidade de vida bem superior, pois, além de os pacientes não precisarem tomar tantos comprimidos como acontecia anteriormente, eles não sofrem com os efeitos colaterais inerentes a eles. As novas medicações são seguras e conseguem um ótimo controle do vírus no organismo”, enfatiza.
Laura salienta, ainda, que o diagnóstico também foi simplificado e acelerado com testes rápidos. “Houve uma época em que demorava quase um mês para termos o resultado da sorologia. Agora, com os testes rápidos, o resultado é dado em menos de 30 minutos, permitindo maior acesso e agilidade no diagnóstico”, pontua. Porém, mesmo com tratamento e diagnóstico mais acessíveis, ainda há barreiras sociais e econômicas que mantêm pessoas fora do cuidado, refletindo em diagnóstico tardio e mortes evitáveis.
No plano das políticas públicas, o tratamento passou a ser oferecido para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente de carga viral ou estágio imunológico, o que ampliou o benefício individual e o efeito preventivo, ao reduzir a transmissão, que não ocorre quando há carga viral suprimida.
Em 2013, o Brasil passou a oferecer antirretrovirais para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente da carga viral ou do estágio da infecção. E, em 2018, incorporou o dolutegravir ao SUS, para uso na Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP), reforçando a estratégia de esquemas mais eficazes e simplificados.
O infectologista Sidnei Rana Pimentel, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo, avalia que a incorporação de novas tecnologias diagnósticas alterou de forma decisiva a lógica de acesso ao cuidado. “Hoje, o diagnóstico do HIV deixou de ser um processo longo e centralizado e passou a acontecer de maneira mais ágil, em diferentes pontos da rede, o que permite iniciar o acompanhamento e o tratamento muito mais cedo”, observa.
Ao comentar a trajetória terapêutica, Pimentel destaca a mudança gradual dos esquemas antirretrovirais e o efeito direto sobre a vida dos pacientes. “Evoluímos de um período em que não havia remédios disponíveis, passando por terapias com grande número de comprimidos e efeitos adversos importantes, até chegarmos aos esquemas atuais, mais simples, eficazes e com perspectiva de longa duração”, detalha.
Essa evolução, representada pela mandala da prevenção combinada, redefiniu o significado do diagnóstico, segundo o infectologista. “Se, antes, receber o resultado positivo significava uma expectativa de vida muito curta, hoje a infecção pelo HIV pode ser manejada como uma condição crônica, com controle sustentado do vírus e preservação da saúde”, constata, ao mencionar o conceito de indetectável igual a intransmissível.
Apesar dos avanços, Pimentel ressalta que fatores sociais continuam interferindo no acesso ao cuidado. “A desinformação e o estigma ainda afastam muitas pessoas da testagem e do acompanhamento, o que contribui para diagnósticos tardios e desfechos que poderiam ser evitados”, conclui.
Na história de Caio, o controle do vírus marcou uma reorganização do cuidado. “Em 2014, eu me descobri indetectável e, para mim, foi uma vitória, porque saí de uma condição de aids. Meu CD4 [contagem de glóbulos brancos que coordenam a resposta imune contra infecções] era 34, sendo que o de uma pessoa saudável é acima de 600. Estava muito debilitado”, relata.
Hoje, ele afirma que o HIV faz parte da sua vida sem definir sua identidade. “Viver com HIV é uma pequena parte de mim, que não me define e muito menos limita”, diz. Caio também compartilha a percepção de banalização do HIV diante da PrEP, da PEP e do tratamento eficaz. “As pessoas banalizaram o HIV e isso causa uma certa preocupação”, declara.
Ao final, Caio chama a atenção para públicos que ainda não se reconhecem em campanhas. “É preciso que saíamos da bolha que, de certa forma, reforça o estigma de grupos de risco. Precisamos trazer o debate para pessoas héteros e para a terceira idade”, defende.
Para Roseli, a comunicação tem papel direto na redução do estigma e na disseminação de informações que transformam o cuidado, como o conceito de indetectável igual a intransmissível e o acesso à PrEP e à PEP.
Ao lembrar a origem da Agência de Notícias da Aids, a jornalista cita a pergunta que ouviu do irmão. “Quando ele recebeu a notícia de que havia vencido a pendência jurídica com a Golden Cross, já muito debilitado, sem enxergar e sem movimentos, virou para mim e perguntou, deitado na cama: ‘Legal, e os outros?’”, relembra. Segundo ela, a circulação contínua de informação é parte central da resposta pública e precisa alcançar jovens e populações mais vulneráveis.