Ser mulher em 2026

06 de março de 2026

Seja qual for o ângulo de análise, as mulheres brasileiras saem perdendo em relação aos homens. Nas últimas décadas, houve avanços inegáveis, como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, a Lei da Equiparação Salarial e até a expansão da licença-paternidade. Fora do papel, no entanto, seja na vida pessoal, seja na vida profissional, as mulheres são penalizadas apenas por serem mulheres. E 2025 ainda marcou um recorde brutal: 1,47 mil feminicídios, ou quatro mortes por dia.

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O que é ser mulher no Brasil de 2026? Elas estudam mais anos, mas, quando chegam ao mercado de trabalho, recebem salários menores. Na esfera privada, são as responsáveis pelo trabalho doméstico e pelo cuidado de crianças e idosos, numa tripla jornada extenuante que não cessa. E, embora vivam mais anos, acumulam mais doenças crônicas e dores persistentes, além de estarem vulneráveis à violência que podem sofrer em contexto íntimo, sendo vítimas de parceiros, ex-parceiros e familiares. Em 2025, 1,47 mil mulheres foram assassinadas somente pelo fato de serem mulheres. São quatro mortes e dez tentativas por dia, segundo os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, um recorde desde que a Lei do Feminicídio foi criada, em 2015. E o número deve subir, pois não inclui os dados de dezembro de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo.

A desigualdade extrapola a violência e a igualdade parece miragem. O Fórum Econômico Mundial estima que, no ritmo atual, o Brasil precisa de 134 anos para alcançar a equidade de gênero no quesito renda. Dados do 3º Relatório de Transparência Salarial e Igualdade, produzido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mostram que as mulheres recebem, em média, 21,7% menos que os homens no setor privado, mesmo quando exercem as mesmas funções. A disparidade aumenta em cargos mais altos — mulheres diretoras e gerentes têm salários 26,8% menores do que homens nessas posições. E qualificação está longe de ser uma justificativa, já que 21,3% dessa parcela da população tem nível superior completo, contra 16,8% dos homens. A conta é ainda mais desfavorável para as mulheres negras, que ganham apenas 47,5% do que os homens não negros. O salário médio de uma mulher negra é o valor mais baixo entre todos os grupos analisados.

Barreiras invisíveis

Muitas das barreiras profissionais para elas são subjetivas e difíceis de medir. Contudo, sem enxergar o problema, tampouco este pode ser resolvido. Recentemente, algumas pesquisas vêm tentando quantificar os vieses de gênero no mercado de trabalho. Um estudo da Harvard Business School, realizado com corporações dos Estados Unidos — mas que pode explicar muito do que acontece também no Brasil —, revelou, por exemplo, que há um viés de gênero na “demonstração de entusiasmo no trabalho”. Essa é uma característica que aumenta as chances de promoção para homens em 38%, mas nem tanto para as mulheres. Para elas, o aumento é de 30%. Segundo os autores da pesquisa, enquanto nos homens o entusiasmo é lido como comprometimento, nas mulheres pode ser interpretado como excesso de emotividade.

Mesmo que de forma inconsciente, esses estereótipos pairam sobre a cabeça de cada trabalhadora, que precisa constantemente vigiar o próprio comportamento. É o que Joana Coelho, consultora de Neurociência Organizacional da Nemesis, chama de ameaça do estereótipo. “Desde muito cedo, ouvimos que não somos tomadoras de decisão, que não entendemos de números, que somos afáveis demais, que não nos comunicamos bem. Então, tomamos cuidado o tempo todo para evitar os estereótipos negativos. Algumas mulheres em cargos de liderança vão tentar ser mais duronas, mesmo quando seria bom para o ambiente de trabalho exercer uma liderança afetiva, com empatia”, explica.

O ideário de como uma mulher, supostamente, é nem sempre é claramente expresso. O mais comum é que ele se imponha em piadinhas e microagressões cotidianas. “São determinadas perguntas ou falas, as interrupções quando as mulheres estão falando etc. Tudo pode parecer inocente, mas reforça qual é o lugar da mulher dentro da organização. Como as situações são ambíguas, a própria mulher duvida se está mesmo sofrendo alguma agressão”, detalha a consultora.

O fenômeno da ameaça do estereótipo não é exclusividade feminina. Ele também costuma acontecer com outros grupos, como os negros, Pessoas com Deficiência (PcD) ou LGBTQIA+. Com as mulheres, a questão toma dimensões maiores porque são mais numerosas. Em 2025, elas formaram 43% da população economicamente ativa do País. “Se estou sempre em alerta, sempre estressada, medindo cada comportamento, tenho uma performance pior do que poderia ter. A própria empresa sai perdendo”, avalia Joana. Como nem sempre as microagressões e os vieses são praticados conscientemente, as companhias precisam adotar treinamentos e fazer pesquisas para melhorar suas práticas, transformando o ambiente de trabalho num espaço em que todos possam se desenvolver plenamente.

(In)dependência financeira

Trabalhar sob a constante ameaça do estereótipo é ruim, e, em certas situações, as mulheres simplesmente se afastam do trabalho assalariado. E dois fatores contribuem fortemente para que isso aconteça: casamento e filhos. O estudo The Child Penalty Atlas (“Atlas da penalidade parental”, em tradução livre), elaborado por pesquisadores da London School of Economics and Social Science e da Universidade de Princeton, analisou a participação no mercado de trabalho após o casamento e a chegada do primeiro filho em 134 países. Para os homens, os eventos não provocam alterações. Para as mulheres de todo o globo, costuma haver variações, e o Brasil apresenta uma das maiores penalidades combinadas da amostra. Em média, a taxa de emprego das brasileiras cai 36,8% em relação à dos homens após o nascimento do primeiro filho.

Ao isolar apenas o efeito do casamento — excluindo famílias que tiveram o primeiro filho nos primeiros dois anos de união —, a penalidade é de 49,1%. Em termos de comparação, na China a penalidade é de apenas 4,1% para o primeiro filho e de 16,2%, para o casamento. “A perda de autonomia econômica é grave, porque impede a mulher de fazer escolhas. Se ela vive num ciclo de violência, ainda que seja a moral, é difícil que consiga sair sem ter autonomia econômica”, exemplifica Marilane Teixeira, economista, professora e pesquisadora no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp).

Mas será que as mulheres abrem mão do trabalho remunerado e, por isso, têm pior renda? Ou por já terem condições de renda piores, acabam abrindo mão do trabalho? “Nos momentos de crise, as mulheres são as primeiras a perder o emprego e as últimas a recuperar. Vimos isso claramente na pandemia, com tantas que perderam ou largaram os empregos para cuidar das crianças e dos idosos”, lembra Marilane. A queda na taxa de emprego após o casamento e a chegada dos filhos não significa que as mulheres deixam de trabalhar. Na verdade, elas passam a trabalhar nos cuidados da casa e da família, atividade sem remuneração e com pouco reconhecimento social, o que as deixa mais vulneráveis.

Jornada infinita

Em basicamente todos os cenários, a mulher brasileira dedica o dobro de tempo que os homens aos cuidados da casa, dos filhos e dos pais, mostram números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aquelas que não estão inseridas no mercado de trabalho chegam a dedicar 24,5 horas semanais ao lar, enquanto homens na mesma situação dedicam apenas 13,4 horas. Mesmo quando têm trabalho remunerado, elas dedicam 6,8 horas a mais por semana aos afazeres domésticos do que os homens também ocupados. A parcela masculina só realiza as tarefas domésticas em taxas semelhantes às das mulheres quando moram sozinhos. “A diferença de tempo dedicado ao trabalho doméstico no Brasil é estável desde que começou a ser medido. Dentro das casas não tem havido mudanças”, observa Marilane.

A economista defende, contudo, que os dados brasileiros atuais são pouco detalhados, resultado de uma pesquisa cuja proposta é conhecer a quais tipos de trabalho cada gênero se dedica. “As estatísticas que temos hoje são insuficientes, porque a questão vai além do tempo. Será que o homem está levando o filho para passear e contando isso como trabalho, enquanto a mulher limpa e cozinha?”, questiona.

Para piorar, existe a chamada divisão sexual do trabalho e ocupações consideradas femininas — como educação e enfermagem —, que envolvem atividades de cuidado e são também as que oferecem menores salários. O prejuízo do direcionamento das mulheres para alguns setores é ruim a toda a sociedade. “Deveríamos fazer escolhas pela nossa vocação. Uma mulher não pode ser impedida, ou abrir mão de algo que gostaria, por causa de salários ou por ser um lugar com menos barreiras. Quando isso acontece, vemos uma legião de pessoas frustradas”, aponta Marilane.

Segundo a economista, nesse contexto, os estereótipos de gênero funcionam no sentido de naturalizar o fenômeno do cuidado atribuído às mulheres. “É como se fosse algo inato, como se as mulheres já nascessem sabendo fazer isso. E, se é uma caraterística — e não algo aprendido —, não tem valor”, pontua. Mas os trabalhos de cuidado que elas exercem, essenciais para a manutenção do tecido social, acabam invisibilizados nas políticas públicas e decisões econômicas. “Nas sociedades capitalistas, o que prevalece é o que está no mercado, o que tem valor monetário. Tudo o mais não tem reconhecimento, fica ocultado na dinâmica econômica”, enfatiza. Mais uma vez, é fundamental ressaltar que as vivências femininas são diferentes entre si — mulheres brancas de renda mais alta ocupam-se menos com o trabalho doméstico do que as mais pobres e negras.

Nenhuma mulher escapa

A designer Marina Santos, de 45 anos, nasceu em uma família em que ambos os pais eram funcionários públicos. Durante a infância, pôde dedicar o tempo a estudar, sem ter que cuidar da casa ou do irmão mais novo. Fez faculdade e, assim que terminou o curso, foi trabalhar em uma empresa. Poucos anos depois, foi convidada para ser sócia. Casou-se, teve um filho e passou a dividir em tempos iguais com o marido as tarefas de cuidado com a criança. Quando o casamento se deteriorou, tinha independência financeira para se divorciar.

No entanto, mesmo com tantas condições a seu favor, ela não está livre das cobranças sociais por ser mulher. “Meu pai, viúvo, está começando a ter sintomas de Alzheimer. Tem sempre um tio, um primo, um amigo ligando para dizer que preciso ficar com meu pai. Sabem que tenho meu trabalho, meu filho. Meu irmão não tem filhos e está desempregado, mas ninguém cobra o mesmo dele”, conta. Com a população brasileira envelhecendo e precisando de cuidado, mais uma vez é sobre as mulheres que essa responsabilidade recai. Marina, tampouco, está livre da violência. Em dezembro, enquanto caminhava numa rua da zona oeste capital paulista para buscar o filho na escola, levou um soco de um homem desconhecido. “Ele atacou e saiu correndo, sem tentar roubar nada. Talvez estivesse num surto, drogado, mas duvido que ele teria feito o mesmo se eu fosse um homem”, desabafa.

O Altas da Violência 2025, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica que os homens são responsáveis por 79,5% de todas as agressões e violências cometidas contra as mulheres. Em outras palavras, 8 em cada 10 agressões de meninas e mulheres foram praticadas exclusivamente por homens. Cerca de 12,7% das violências tiveram como agressora uma mulher e, em 7,8% dos registros, agressores homens e mulheres constavam conjuntamente como autores da violência. “Na medida em que não podemos sair na rua em certos locais, em determinados horários apenas por sermos mulheres, com medo de sermos agredidas por um homem, estamos todas afetadas pela violência de gênero. Em quantas situações a gente não se limita? Na prática, temos uma restrição no nosso direito de ir e vir”, afirma Alice Bianchini, professora de Direito Penal e especialista em violência de gênero.

Alice acredita que o Brasil tem boas leis, mas falta a aplicação de fato, citando que a Lei Maria da Penha — que completa 20 anos em 2026 — contém uma lista de medidas de prevenção que nunca foi posta em prática. “Faltam orçamento e políticas públicas para que essa parte aconteça”, assegura. E muitas iniciativas não são especialmente caras. Segundo a especialista, uma das medidas mais efetivas é a dos grupos de reflexão para homens agressores. “A reincidência de quem participa é de só 4%. E é uma política pública barata, porque basta uma pessoa mediando uma conversa. Mesmo com tantas vantagens, o País todo não soma nem 500 grupos”, compara. “Com relação às violências sexuais ou psicológicas, pode-se até dizer que as mulheres estão mais conscientes e denunciando mais. Mas o aumento de mulheres morrendo pelas mãos de homens é indiscutível”, completa.

Vivendo mais… e pior

Se há um índice em que as mulheres parecem ter vantagem é na expectativa de vida, que é de 73,3 anos para homens e de 79,9 anos para elas. No entanto, longevidade não é sinônimo de qualidade de vida. “As mulheres acumulam maior carga de doenças crônicas, dores persistentes e sofrimento mental. Isto é, vivem mais tempo, mas frequentemente com limitações físicas, emocionais e sociais que poderiam ser prevenidas”, avalia Lia Cruz da Costa Damásio, ginecologista e diretora de Defesa e Valorização Profissional da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

O sofrimento acumulado é fruto tanto de uma história da evolução científica, que privilegiou modelos masculinos de atendimento à saúde, como da naturalização da dor feminina. “Doenças exclusivas ou predominantemente femininas, como endometriose e ovários policísticos, recebem menos investimento e há menor número de ensaios clínicos, além de atraso na incorporação de tecnologias e tratamentos”, compara Lia, lembrando ainda que as mortes por causas evitáveis ocorrem mais entre mulheres negras, indígenas, com deficiência ou em situação de pobreza. Ainda que insuficientes, há avanços mensuráveis na saúde feminina, como o índice de mortalidade materna, que vem caindo desde a década de 1990. Mas a médica ressalta que não se trata só de melhoras científicas — os avanços acontecem graças ao aumento da educação, do protagonismo feminino e da maior visibilidade das pautas que interessam às mulheres.

Mesmo diante de tantas dificuldades, elas seguem lutando por equidade. “Existe na sociedade uma perspectiva de que o papel da mulher é o de cuidar dos filhos e ser submissa. Mas há um choque de perspectivas, porque não estamos mais aceitando isso”, afirma a advogada Alice. Embora a equidade não esteja num horizonte próximo, há sinais positivos. “É um problema complexo, mas não podemos perpetuar o que está errado. Apesar de tudo, vejo que as pessoas já têm mais letramento sobre desigualdade de gênero, o que é um primeiro passo”, pondera a consultora Joana. Mas uma mudança cultural tão profunda precisa que o máximo possível de pessoas esteja envolvido. “A desigualdade é ruim para toda a sociedade, por isso acredito que nosso esforço para mudar tem de ser coletivo”, opina a economista Marilane.

A designer Marina garante que não vai deixar de circular pelas ruas da cidade durante o dia, mas decidiu fazer algumas aulas de defesa pessoal. E toda vez que um parente lhe procura para dizer que ela precisa cuidar do pai, ela concorda, mas pede para a pessoa ligar e falar o mesmo para o irmão. Os chamados atos de microfeminismo são um passo para a transformação, e um pequeno alívio cotidiano para tantas mulheres como Marina.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​1 (​M​AR/​ABR) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria