Pelo direito de sonhar

27 de janeiro de 2026
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A capacidade de sonhar — dormindo ou acordado — não é central apenas na construção de desejos individuais, mas também para o que queremos como sociedade. É o que defende o neurocientista Sidarta Ribeiro, professor no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICeUFRN) e pesquisador no Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz). “Precisamos reflorestar nossas mentes, que estão desertificadas pela adoração ao dinheiro”, afirma o autor de O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho (Companhia das Letras, 2019). E o que sonhar para o Brasil? Segundo Ribeiro, a escola é a instituição capaz de “equalizar oportunidades” e seu sonho é tão simples quanto difícil de realizar: “Quem tem mais ajuda quem tem menos”.

Depreendi do seu penúltimo livro — Sonho manifesto: dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico (Companhia das Letras, 2022) — que, a despeito do crescimento econômico, somos uma sociedade pobre, que adora o dinheiro e tem dificuldade de valorizar o sagrado. Como resolver essa conjuntura a partir de agora e daqui para a frente?

Não são problemas exclusivos do Brasil. Mas o País, por ter um passado colonial e escravagista, tem certas mazelas extremamente aguçadas. É evidente que o nosso principal problema é o desalinhamento entre a fé professada e a prática das pessoas. Um país onde 90% das pessoas se declaram cristãs deveria aderir aos preceitos do Evangelho — partilha, compaixão, amor e solidariedade. No entanto, não acontece de fato, e a maior parte da população vive em condições muito precárias. Existe um grande desacerto. Por que estamos vivendo tão mal? Por que não conseguimos, num país com tantas riquezas naturais, humanas e culturais, compartilhar desses benefícios? Isso tem a ver com o achatamento, o massacre, do mundo interno, do mundo do imaginário, da construção das nossas florestas internas. Então, precisamos reflorestar nossas mentes, que estão desertificadas pela adoração ao dinheiro. Quando as maiores aspirações das pessoas são coisas, elas começam a ser tratadas como coisas e as coisas, valorizadas como pessoas. Precisamos decifrar esse enigma, porque, afinal de contas, as melhores coisas da vida são grátis ou muito baratas. O que a gente realmente precisa para viver bem é de amor, partilha, conforto e acolhimento. Se conseguirmos “desneurotizar” a sociedade, isso estará ao alcance das mãos. Apesar de todas as mazelas, os brasileiros têm uma imensa alegria, um prazer de viver que, na verdade, é um reservatório para o planeta. Mas precisamos ser capazes de transformar bom humor em bem-viver para todos.

Por esse aspecto, é possível dizer que estamos sonhando errado?

Com certeza. É muito evidente, olhando o noticiário econômico, que temos os objetivos errados. O nosso sonho é desenvolvimento econômico ou viver bem? Porque quando falamos de desenvolvimento, falamos de algo que não está envolvido, que se desenvolve. Precisamos nos envolver — com as crianças, com os mais velhos, com nossos biomas, com a vida. Se a gente olhar para a Escandinávia, um país em que os mais ricos pagam mais de 50% de impostos, a população consegue andar pelas ruas, pegar um ônibus, um metrô, ir ao cinema sem estar o tempo todo com medo. A gente precisa construir uma sociedade sem medo e isso só pode ser alcançado subindo o piso e limitando o teto. Consigo compreender que uma pessoa queira ter um iate, um avião, mas por que ela precisa ter dois iates? Isso é uma doença.

Como país, quais sonhos deveríamos ter?

O que acho que realmente seja o pulo do gato, em que precisamos de uma intenção revolucionária, é na educação. Se conseguirmos, de maneira consistente, oferecer educação de qualidade para todo mundo, poderemos, de fato, dar um grande salto. E se existe uma instituição capaz de equalizar oportunidades é a escola. A escola é estratégica. Professoras e professores precisam ser extremamente valorizadas e valorizados, são carreiras de Estado essenciais. É um absurdo que uma professora do ensino fundamental ganhe tão menos do que um professor universitário. Não é possível que a gente não dê à educação a centralidade que ela merece, e isso passa pela valorização financeira. Além dessa questão, a valorização precisa ser simbólica, o que passa também por um diálogo diferente com as nossas crianças e jovens, que, muitas vezes, não entendem o que estão fazendo na escola. Precisamos de um grande pacto nacional pela educação, uma revolução educacional. É muito importante falarmos da educação para além de qualquer bandeira político-partidária, pois isso é do interesse estratégico da Nação. Qualquer um que esteja alinhado com esse objetivo é um aliado — e a pessoa que está contra é inimiga do povo brasileiro.

Essa alegria “imotivada pela vida” — citando o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Eduardo Giannetti [filósofo e escritor] — é elemento substantivo para a construção desse sonho futuro?

É um elemento maior. A alegria é a prova dos nove, né?! Na educação, sabemos que aquilo que é aprendido é o que se aprende com emoção. Nos séculos 18, 19 e início do século 20, essa emoção era o medo. Esse temor foi desconstruído e entendemos que, na educação, não cabe medo nem dor. Se a gente for capaz de transformar essa alegria — e o Brasil é um repositório de alegria — em política de Estado, em um compromisso de agentes públicos e privados, estaremos contribuindo para que nossas filhas e filhos, netas e netos, herdem um país e um planeta melhores. É importante que todos olhem para o seu íntimo e considerem que podemos viver melhor se formos capazes de espalhar benefícios.

Somos uma sociedade que dorme pouco e mal. Qual é a relação disso com a capacidade de sonhar?

É uma relação muito íntima e direta. Quando dormimos mal, estamos contratando doenças — em curto, médio e longo prazos. Uma pessoa que dorme mal por uma noite, no dia seguinte tem menos capacidade de aprender e de resgatar o que já sabe. Vai ter uma péssima regulação emocional, ficar irritadiça. Há um dano social. Existem estudos mostrando que dormir mal desagrega as pessoas. No médio prazo, há prejuízos como diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade, depressão e ansiedade. No longo prazo, mais predisposição para a doença de Alzheimer, porque o sono é responsável por desintoxicar o cérebro das proteínas malformadas — que vão, eventualmente, quando acumuladas, provocar o Alzheimer. Dormir mal é um péssimo negócio para todo mundo. O problema é que a nossa sociedade está totalmente construída em torno do dormir mal, as pessoas têm a sensação de que precisam ficar acordadas até a exaustão. Precisamos de um grande pacto pelos elementos fundamentais da saúde — sono, alimentação de qualidade e exercício físico. No que diz respeito ao sonho, o sonho da noite acontece principalmente na segunda metade do sono. Quando alguém dorme pouco, perde horas dessa segunda metade, dominada pelo sono do tipo REM. Isso significa, literalmente, menos sonhos. Agora, esse sonho é a base da construção do futuro. O que fazemos ao imaginar o futuro é sonhar. Existe uma relação muito íntima entre sonho e imaginação. Então, se quisermos de fato construir um futuro melhor, precisaremos resguardar o sono e o sonho.

E qual é a diferença entre sonho e imaginação?

É uma diferença de grau, de intensidade. Se olharmos o cérebro de uma pessoa que está sonhando durante o sono e uma pessoa que está imaginando, perceberemos que as mesmas regiões cerebrais são ativadas, mas com uma intensidade muito maior durante sonhos do sono. Na verdade, a imaginação é um tipo de sonho, é o sonho mais tênue, mas, não obstante, extremamente necessário. Até porque utilizamos a ideação o tempo todo: vou fazer tal coisa, vou sair daqui, vou almoçar e, depois, vou trabalhar. São minissonhos, planos de futuro que envolvem as mesmas regiões cerebrais. Nessa pandemia de telas, estamos inibindo, frustrando e até atrofiando a capacidade de imaginação, sobretudo dos jovens. Que mundo perigoso esse em que os robôs podem produzir imagens e as pessoas já não conseguem criá-las?

Com o que você sonha? Seja à noite, dormindo, seja para o futuro do País?

Tenho tentado valorizar mais ainda os meus sonhos, criando rotinas que permitam um sono de qualidade para produzir imagens que me orientem. E o que mais sonho, tanto dormindo quanto acordado, é que meus filhos possam viver num país melhor do que aquele onde eu vivo. Temo por esse futuro em que os robôs ameaçam tomar empregos. Temo por esse futuro em que um monte de gente mora na rua e isso está naturalizado. Precisamos resgatar essa dimensão coletiva e olhar para as outras pessoas com amor, com compaixão profunda, de verdade. Quem tem mais ajuda quem tem menos. É com isso que eu sonho.

ESTA ENTREVISTA FAZ PARTE DA EDIÇÃO #490 (JAN/FEV) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Entrevista Mônica Sodré | Edição de texto Dimalice Nunes Divulgação
Entrevista Mônica Sodré | Edição de texto Dimalice Nunes Divulgação
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