O medo como cabo eleitoral

05 de maio de 2026
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Há dois ciclos eleitorais, a rejeição ao outro é o principal combustível do debate político. É o que explica Felipe Nunes, professor na Fundação Getulio Vargas (FGV), CEO da Quaest e autor do livro Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros (Globo Livros, 2025). Na sua avaliação, o medo tomou o lugar de aspirações que antes geravam unidade, como o combate à inflação e a redução da pobreza.

A polarização, que começa em 2014 e se acentua em 2018, atinge o pior nível em 2022. “É a polarização afetiva, quando passo a achar que só eu estou certo”, define. Mesmo diante do cansaço generalizado captado nas pesquisas que deram origem ao livro, Nunes mantém seu perfil otimista por natureza e diz: “Quando eu olho no espelho, eu vejo um futuro melhor”. 

Qual é a mensagem principal do seu livro? 

No livro eu tento mostrar que mesmo com a polarização, que é óbvia, o Brasil é um país que tem cultura, hábitos, comportamentos e atitudes que são próprios, que fundamentam o País. O Brasil é tão grande, tão diverso, tão múltiplo, que enxergar essa unidade demanda o exercício de 10 mil entrevistas e é difícil ver essa unidade. A unidade da fé, da família, da meritocracia, do individualismo, da desconfiança, a unidade do medo. Essas unidades, às vezes, passam despercebidas. Eu queria muito, primeiro, que os brasileiros, quando olhassem para o espelho, percebessem que não há só divisão, briga e conflito. Tem, claro, conflito eleitoral, político, mas é mais do que isso o que constitui a nossa sociedade. Temos que valorizar isso e entender que as características do Brasil podem ser potencializadas para a construção de um país realmente gigantesco. 

Num recorte de 1997 a 2023, você nos dá a percepção de que voltamos no tempo. Mas o quanto, efetivamente, é real essa sensação? 

Quando o estudo que deu origem ao livro foi feito, em 2023, a primeira dúvida que eu passei a ter foi: será que estou olhando para um país diferente daquele em que nasci? As evidências reunidas mostram que na década de 1990 conseguimos resolver a sensação de insegurança econômica e a hiperinflação. Isso construiu uma paz social fundamental para entender a história brasileira. Como achamos que a economia estava resolvida, que o modelo ficava de pé, usamos a década seguinte para resolver problemas sociais — a miséria, a pobreza, a desigualdade. E diria que também fomos muito bem-sucedidos ao fazer isso. Não à toa, nas eleições de 1994 e de 2002, esses dois projetos, o econômico e o social — aliás, de oposição —, venceram quase que no Brasil inteiro. É o período pré-polarização, em que o Brasil está construindo unidade, inclusive territorial. Com essas questões resolvidas, foi permitido aos brasileiros pensarem diferente, tornarem-se mais autoexpressivos. E esse movimento é interrompido, obviamente, por uma crise internacional, que chega ao Brasil, mas também por uma crise política interna. Voltamos a nos preocupar com temas da década de 1990. Então, embora pareça um movimento pequeno, ele é suficiente para representar uma mudança significativa na postura e nas preocupações que os brasileiros tinham nessas quase três décadas. Por essa razão, esse retrocesso de 25 anos parece bastante real e contundente. Mas ele não aconteceu de maneira uniforme. Quando se olha para o Brasil à luz das novas identidades, há divergências regionais, de gênero, etárias e econômicas, que ficam mais bem marcadas. Aí temos 2014, com um processo de conflito político em que a polarização partidária vira social. É possível ver com mais clareza o voto de homens e mulheres, de ricos e pobres, do norte e do sul do Brasil, até que, em 2018, essa polarização toma um outro caráter, que chega em 2022 no seu pior nível, que é o da polarização afetiva — quando passo a achar que só eu estou certo, que você está errado e que, portanto, não devemos morar no mesmo país. 

Como um candidato ou candidata à presidência da República dialoga com essas identidades?

Ela ou ele descobrem que é mais fácil ativar o medo, a raiva, o temor do outro, do que pautar uma agenda. E esse é o desafio. Faz dois ciclos eleitorais que a rejeição ao outro é o que alimenta a unidade. Porque, num lugar em que se tem identidades tão múltiplas, só tem um negócio que pode juntar essa turma: é o medo de o outro lado tomar o poder e de alguma maneira prejudicar o seu lado. E é isso que os políticos estão fazendo a cada novo ciclo eleitoral, utilizando o receio, o medo e a rejeição ao outro como o estímulo para juntar esse povo todo diferente. Ao invés de juntar, por exemplo, como foi no passado, com o debate sobre a inflação. Os debates eram proativos. Hoje, dada essa alta fragmentação, o que descobrimos é que só tem um jeito, o medo. E aí temos um país refém das rejeições e não das propostas.

Homens brancos estão ficando sozinhos em algumas crenças mais tradicionais. Só que esses homens brancos mais envelhecidos são a maioria absoluta na política. Isso explica a ausência de legitimidade na política, das pessoas não se verem no espelho?

Diria que estamos numa transição e a instabilidade da transição é difícil. Há pouquíssimo tempo, só os homens votavam. Quais homens? Os que tinham renda. Quais tinham renda? Os brancos. Então, é natural imaginar que eles formaram a elite pensante, econômica e decisória do País. Depois abriu-se espaço político para as mulheres votarem, mas, ainda assim, o componente renda sempre foi importante, porque a escolaridade no Brasil sempre foi assimetricamente distribuída. Então, havia uma elite, em sua maioria branca, homens e mulheres, que tomavam decisões. Só que, no passar do tempo, esses homens brancos, com renda, que eram os únicos que votavam, portanto, únicos que eram votados, viram a sociedade clamar por transformação, uma renovação política que incorporasse novas ideias e novas características ao sistema. E é daí que vem o aumento das mulheres, da representação de classes, de grupos sociais etc. Transições como essa, obviamente, sofrem a resistência de quem está no poder. O mais impressionante é que, enquanto a sociedade pede mudança e diz que a política não a representa, ela também está ficando mais conservadora, com mais medo e insegura. Esses dois processos estão colidindo entre si de tal modo que o medo, a preocupação com o caos, a busca por uma ordem, de alguma maneira travam e vão de encontro às necessidades de pluralidade, da representatividade que a política precisa. Por isso renovar é tão difícil, porque de um lado há a resistência de quem é status quo, e do outro encontra-se o medo que a mudança provoca. Não à toa, em 2026, um ano importante na política, estamos discutindo justamente se é ou não o momento de uma mudança geracional e de novos políticos assumirem a responsabilidade de tocar as agendas do futuro. Nós vamos viver a grande mudança geracional nos próximos anos. 

O cansaço do brasileiro com o trabalho e a economia pode ser capturado do ponto de vista da polarização que começa em 2014 e chega ao auge em 2022. A eleição de 2026 pode ser diferente? 

Penso que não. Vai ser uma eleição de mais cansaço. O brasileiro diz que está cansado por uma questão econômica, já que a renda do trabalho não é capaz de atender às suas necessidades objetivas e ele precisa ter mais trabalho, aumentar a renda para dar conta do básico. Essa situação gera um cansaço absurdo. No caso das mulheres, tem a dinâmica da casa, viramos um país cansado. Só que tem um elemento que não está dito, mas está expresso no estudo, que é justamente a dinâmica do cansaço com a política — como se a política não fosse capaz de trazer soluções concretas de melhora de vida. Não podemos dizer “tem alguém cuidando desse problema, eu posso descansar”. Não, estamos o tempo todo preocupados, afetados pela instabilidade, pelo caos, pela briga, pela disputa. Essa preocupação, obviamente, traz um cansaço. 

Queria finalizar nosso bate-papo com esperança, uma vez que você afirma que seu livro ajuda a projetar o nosso futuro. 

Obviamente agradeço a muita gente, mas dedico o livro ao Lucas, à Luisa e ao Eduardo, meus dois enteados e meu filho, que são minha esperança de um futuro melhor. Sou um cidadão otimista por natureza, muito influenciado pela visão de que essa história de sermos vira-latas tem que ficar para trás. Esse é um país realmente com grandes potencialidades e elas, se bem encaminhadas, podem fazer com que sejamos um país extraordinário. Está nas nossas mãos. E os anos eleitorais deveriam servir para isso, para termos esperança de que aconteça o fim da violência, num ambiente institucional mais seguro, com mais confiança. Temos que encontrar esse caminho e podemos fazer isso, porque o povo brasileiro é extraordinário. Quando eu olho no espelho, eu vejo um futuro melhor. 

ESTA ENTREVISTA FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​2 (​M​AI/​JUN) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Entrevista Humberto Dantas | Edição de texto Dimalice Nunes Canal Um Brasil
Entrevista Humberto Dantas | Edição de texto Dimalice Nunes Canal Um Brasil
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