Futebol em tempos hostis

08 de junho de 2026

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Passam das seis da tarde, horário de Brasília, e o Brasil segura um placar aberto de um a zero contra a Espanha. O clima é de apreensão no estádio Metlife, em Nova Jersey, próximo a Nova York, nos Estados Unidos, tomado por torcedores latinos. O juiz olha para o relógio, apita, ergue os braços e encerra a partida — acabou, o Brasil é hexacampeão mundial! Da plateia, o presidente estadunidense, Donald Trump, prepara-se para descer para o gramado e entregar a taça nas mãos do capitão da seleção brasileira. 

A cena, hipotética, poderia ser quase tão apoteótica quanto a do rapper porto-riquenho Benito Martinez, o Bad Bunny, citando, nome a nome, todos os mais de 30 países das Américas. Só para lembrar aos estadunidenses que a América é muito mais do que os Estados Unidos — isso no intervalo do maior evento esportivo de lá, o Super Bowl. “Seguimos aqui”, disse Benito ao cravar a bola no chão do estádio e começar o hit Debí tirar más fotos

Uma vitória latino-americana, seja de qual seleção for, poderia ter o desfecho narrado acima. Tradicionalmente, presidentes dos países-sede participam da cerimônia de premiação. Neste ano, três países compartilham a responsabilidade de receber a Copa, entre os dias 11 de junho e 19 de julho: México, Canadá e Estados Unidos. Seria simbólico a maior taça do futebol, na maior edição da história, com 48 seleções, ser entregue a uma equipe latina pelas mãos de um dos líderes mais avesso aos imigrantes.

“Se, de fato, um desses países, ou algum jogador de origem latina, despontar, de repente, pode aglutinar isso ao efeito Bad Bunny, com uma outra camada de latinidade sendo trabalhada”, avalia Mariana Aldrigui, professora no curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e ex-gerente de Inteligência de Dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).

Invasão latina

Fora dos estádios, a realidade é menos festiva — por isso o simbolismo de uma conquista latina. Segundo o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, o país tem mais de 2 milhões de imigrantes supostamente ilegais. A maioria deles (1,6 milhões) abandonou os Estados Unidos de forma voluntária. 

A política anti-imigração adotada por Donald Trump fez com que metade dos latinos que vivem por lá sinta medo das ações migratórias, segundo dados da Pew Research Center. Até 2023, 82% deles viviam legalmente no país — o que mostra como o receio ultrapassa a população de imigrantes ilegais. 

É nesse cenário de confusões e deportações que acontecerá a maioria dos jogos da Copa do Mundo de futebol masculino deste ano. Embora divididas entre os três países, 75% das disputas acontecerão em solo estadunidense — os outros dois países receberão apenas 13 partidas cada um. E os maiores consumidores de futebol encontram-se justamente na América Latina. A mesma política que tenta conter a entrada de imigrantes terá de lidar, por um mês, com a chegada em massa desses torcedores.

Os números dos campeonatos anteriores mostram esse cenário. Na Copa de 2022, no Catar, mexicanos, argentinos e brasileiros estiveram entre os maiores compradores de ingressos. Agora, com o destino mais perto, a latinidade deve tomar mais ainda as ruas desses países. “Quase todos os ingressos já estão vendidos e uma grande parte de quem os comprou é da América do Sul, com a Colômbia liderando, e o Brasil em uma posição bem alta”, revela Mariana. Nem os desafios logísticos, nem os altos preços, nem a escalada das tensões internacionais parecem suficientes para afastar os torcedores mais entusiastas.

Excursão de fanáticos

O consultor João Paulo, paulistano de 45 anos, com três Copas no currículo de torcedor, foi um dos que não se deixou abalar. Mas não foi fácil organizar o roteiro de uma Copa do Mundo dividida entre três países — ainda mais diante das dimensões continentais de Estados Unidos, México e Canadá.

A viagem virou um quebra-cabeça — e seguirá assim até o fim da primeira fase. Como sempre, apenas os jogos da fase de grupos têm sede definida. A partir daí, o percurso depende diretamente do desempenho da seleção: se avançar em primeiro lugar, segue por um caminho; se ficar em segundo (ou se classificar entre os melhores terceiros), o roteiro muda completamente.

João Paulo vai começar o trajeto em Nova York, na estreia do Brasil, e seguirá para Filadélfia e Miami, na fase de grupos. Depois disso, tudo está em aberto. No melhor cenário, a seleção percorre o restante da competição dentro dos Estados Unidos. Caso seja superado por outra seleção fora da liderança do grupo, o próximo destino pode ser a cidade de Monterrey, no México, com direito a uma travessia de carro para o país vizinho. As passagens e hospedagens para esses outros trechos incertos ainda não foram compradas.

Para lidar com essa imprevisibilidade, João Paulo e a família adotaram uma estratégia: alugar uma casa em Orlando por um mês e, a partir daí, desenhar todos os deslocamentos possíveis. “No Catar a gente ficou em Doha e qualquer lugar ficava a apenas a 30 quilômetros de distância. Então, foi uma Copa muito mais fácil e prática. Sem dúvidas, essa é a Copa mais complexa, por causa das distâncias e dos preços”, relata.

Os custos acompanham a complexidade da programação. Uma hospedagem em Manhattan, ilha mais nobre de Nova York, pode ter diárias acima dos US$ 1,5 mil. E o valor dos ingressos triplicou em relação à Copa do Catar, porque a FIFA decidiu vendê-los em um esquema de preço dinâmico — quanto maior a procura pelos jogos, maior o valor. Os ingressos para a primeira fase custam cerca de US$ 1 mil e, para a final, variam entre US$ 2 mil e US$ 6 mil. 

João Paulo conseguiu escapar parcialmente dessa escalada, porque faz parte de um seleto grupo de viciados em jogos da Seleção Brasileira, batizado de Os infaltáveis. Por serem frequentadores assíduos dos jogos, esse grupo recebeu da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ingressos repassados pela FIFA a um custo bem menor: R$ 60.

Mesmo com a empolgação para ver os jogos, ingressos comprados e visto garantido — ele já tinha tirado o seu antes do endurecimento das regras de Trump —, a apreensão permanece. “A gente sabe que pode ter mais dificuldade na imigração. Mas vamos mesmo assim”, garante.

Latinos na mira

O receio de João Paulo coincide com o de outros torcedores — a dúvida sobre como será a abordagem na imigração. Ou de truculência nas ruas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), o braço policial responsável por prender e deportar imigrantes em situação irregular. “Não acho que haverá uma truculência maior do ICE, com ações institucionais. Sem dúvida, teremos embates em bares, por exemplo. Tenho a sensação de que a aliança FIFA e Trump para fazer um evento bem-sucedido vai gerar uma contenção interna”, aposta Mariana.

Nos últimos anos, principalmente com o retorno de Trump ao poder, a ação desses policiais ficou mais violenta e a precariedade dos presídios ainda pior. Somente em 2025, o país registrou 32 mortes de pessoas nos centros de detenção do ICE — a taxa mais alta em duas décadas. Algumas dessas mortes foram associadas a negligência médica, outras a episódios de violência durante a contenção.

As prisões e deportações, principalmente de crianças, causaram indignação mesmo entre correligionários de Trump. Uma das mais icônicas foi a de Liam Conejo, de cinco anos, e de seu pai, em Minneapolis, Estado do Minnesota. Os dois foram presos quando o garoto voltava da escola e passaram uma semana detidos.

Os recorrentes abusos despertaram manifestações contra o ICE por várias cidades. E cresceram a ponto de serem organizadas paralisações, greves e um apagão econômico local, com fechamento de comércios em protesto contra a política migratória. 

As ações refletiram no turismo e no interesse estrangeiro no país. Enquanto outros grandes destinos turísticos do mundo registraram alta na chegada de estrangeiros, os Estados Unidos caminharam na direção oposta, com queda estimada em cerca de 6% no número de visitantes internacionais, segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

Guerras e ameaças

Não é somente a política interna que deteriora a imagem dos Estados Unidos. Trump envolveu-se com uma série de conflitos mundo afora. Ameaçou tomar a Groenlândia, que pertence à Dinamarca, causando desconforto entre os europeus. Invadiu a Venezuela, retirou o presidente Nicolás Maduro do poder, e chamou os venezuelanos de “povo mais feio do mundo”. Cortou o petróleo de Cuba, deixando o país às escuras, e disse que poderia pegar o país para si.

No fim de fevereiro, juntou-se a Israel para atacar o Irã, sob a justificativa de “destruir o programa nuclear do país e proteger o povo americano”. Os ataques resultaram em mais de 200 mortos no primeiro dia de ataques — entre eles a do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Como retaliação, o Irã atacou bases de interesse dos Estados Unidos em países vizinhos. 

Em meio às tensões, a segurança da Copa do Mundo também está em xeque. A Federação Iraniana de Futebol anunciou que seus jogadores não participarão dos jogos, por falta de garantias de segurança dos jogadores. Além disso, o governo do país ameaçou, no dia 20 de março, atacar pontos turísticos nos Estados Unidos e Israel. “Não se esperava que o Irã fosse conseguir responder da forma como fez. E, dentro dos Estados Unidos, uma parte majoritária não quer a guerra, mesmo entre os apoiadores de Trump. Eles o elegeram pelo discurso de que trabalharia no desenvolvimento do país”, explica Eduardo Serra, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (Irid) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “E a guerra pode se somar à questão migratória, o ICE é tipo uma milícia. Pode ser que haja manifestações de imigrantes latinos, iranianos e muçulmanos”, observa.

Apesar dos riscos geopolíticos, nenhum dos especialistas consultados acredita no cancelamento de jogos ou na exclusão dos Estados Unidos como coanfitrião. Muito menos boicote à Copa, com exceção do Irã. “Quando Trump ameaçou tomar a Groenlândia, os europeus consideraram não participar da Copa. Eventos esportivos são muitas vezes utilizados como veículos de mensagem de disputas políticas. O Irã é a bola da vez. Mas, sozinho, não vai chamar muita atenção”, avalia o cientista político Leonardo Paz, analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (NPII) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e professor no Departamento de Relações Internacionais da Faculdade Ibmec.

Copa de oportunidades 

A Copa do Mundo vem como uma chance de reverter parte desse desgaste de Trump, mas há uma ameaça de boicote mundial. “Os profissionais de turismo dos Estados Unidos, sem exceção, compreendem a Copa como uma grande janela de oportunidades, de comunicar coisas positivas. Uma coisa é o posicionamento do governo federal dos Estados Unidos e seus apoiadores, outra é o das pessoas envolvidas com turismo”, ressalta Mariana.

As oportunidades de negócio chegam, inclusive, às cidades que não vão receber jogos do torneio, como Orlando, onde João Paulo ficará com a família. Mas os principais beneficiados pelo turismo da Copa, no longo prazo, podem ser o México e o Canadá. “Turistas da Ásia, por exemplo, que não estavam acostumados a ir para o México, podem ficar tentados a voltar e permanecer por mais tempo. O público da Copa é bem seleto, tem bastante dinheiro”, pontua o economista Guilherme Dietze, presidente do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

No Rio de Janeiro, apesar das tensões sociais causadas pela realização dos Jogos Olímpicos em 2016 — seguidos pelos escândalos de superfaturamento e corrupção nas obras —, houve uma melhora significativa da imagem da cidade. “Não consigo deixar de ver toda essa recuperação do turismo do Rio como sendo parte do resultado que começou com a Copa e as Olimpíadas”, enfatiza a professora da EACH-USP.

Os erros dos eventos esportivos no Brasil foram repetidos em diversas edições da Copa, marcadas por altos déficits e obras subutilizadas. Desta vez, a FIFA selecionou apenas cidades com infraestrutura preparada para receber eventos desse porte, o que reduz custos e muda a lógica do investimento. Ainda que as grandes distâncias aumentem as emissões de carbono, a aposta é num modelo mais eficiente. “Do ponto de vista da sustentabilidade, faz mais sentido otimizar estruturas já existentes”, finaliza Mariana.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​2 (​M​AI/​JUN) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Carol Castro
Débora Faria
Carol Castro
Débora Faria