Desenho que cura

24 de julho de 2026

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Ter um posto de saúde perto de casa, conseguir uma consulta médica e obter gratuitamente medicamentos necessários são direitos básicos. Mas, às vezes, não é o bastante para garantir acesso integral à Saúde. Se o paciente não souber ler e, portanto, não for capaz de compreender as recomendações de um receituário médico, o tratamento não avança e todo o esforço pode se perder. Mesmo que entendam todas as instruções durante a consulta, pesquisas indicam que os pacientes esquecem cerca de metade do que o médico disse apenas cinco minutos depois.

Durante a pandemia de covid-19, o médico de saúde da família e comunidade Lucas Cardim chegava em casa com as mãos doendo de tanto desenhar ao longo do expediente, na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Pedra Linda, na zona rural de Petrolina, cidade do semiárido pernambucano. 

Isso mesmo, desenhar. A região é uma das que têm os maiores índices de analfabetismo do Brasil e muitos dos pacientes que atendia não sabiam ler. Para garantir que as instruções dadas no consultório fossem seguidas em casa, a solução foi desenhar nas receitas ícones que indicavam quantas vezes um medicamento deveria ser tomado, de que maneira — se antes ou depois das refeições, por exemplo — e em que período do dia.

Foi então que pediu ajuda a um amigo, o engenheiro de software Davi Rios. Juntos, criaram a ferramenta Cuidado para Todos, que emite receituários com os desenhos necessários para a compreensão dos principais tratamentos. Em vez de desenhar à mão, agora, ele clica em ícones, impressos em cada receituário emitido.

Atualmente, a plataforma está disponível de forma gratuita para qualquer médico do País e cerca de 250 profissionais fazem uso regular dela. Segundo Cardim, a intenção é ampliar o alcance real à Saúde. “Não fui eu que inventei desenhar nas receitas. Aprendi com colegas, enfermeiros e farmacêuticos que já faziam isso. Mas, no dia a dia, não há tempo de desenhar para todos. O sistema ajuda ao fazer isso de forma automática”, pontua.

Além de dados básicos, como quantidade e horário da medicação, os símbolos indicam se a administração deve ser com água ou alimento e até se é preciso parar de ingerir álcool durante o tratamento. Cardim defende, no entanto, que a tecnologia aplicada às receitas deve ir além. “Se houver um QR Code, o paciente pode acessar um vídeo com instruções sobre como aplicar insulina, por exemplo. QR Code é uma coisa que todo mundo sabe usar”, argumenta.

Palavras que não dizem nada

Ainda que o analfabetismo absoluto venha caindo consistentemente no Brasil, o problema ainda tem consequências enormes. Segundo dados do módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, a taxa de analfabetismo chegou ao mínimo histórico de 4,9% da população com mais de 15 anos — a primeira vez abaixo de 5% desde 2016, o início da série histórica. Em números absolutos, são 8,4 milhões de pessoas analfabetas.

Num país desigual, essas pessoas não estão distribuídas de maneira uniforme pelo território e mais da metade delas está no Nordeste (4,8 milhões). “Antes de trabalhar na UBS, eu até imaginava que encontraria pessoas com dificuldade de leitura, mas não que seria tão recorrente”, conta o médico.

E os efeitos colaterais do analfabetismo acabam multiplicados pelas configurações familiares. “Esses adultos com baixo letramento, muitas vezes, são responsáveis por crianças, são eles que vão dar os remédios dos filhos ou netos. O médico tem a responsabilidade de entregar um bom receituário para que possam cuidar de si e dos outros”, ressalta Cardim.

A dificuldade de compreensão de instruções básicas, como as de uma receita médica, extrapolam a contagem oficial daqueles que não podem ler. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 29% da população brasileira não tem habilidades para compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano.

“O analfabeto funcional é aquela pessoa que pode até ler a placa do ônibus, escrever algo muito simples, mas continua excluída de várias atividades cotidianas numa sociedade letrada”, explica Ana Lúcia Lima, diretora da consultoria especializada Conhecimento Social e coordenadora do Inaf.

O indicador separa as habilidades leitoras em cinco níveis. O mais baixo diz respeito ao que todo mundo reconhece como analfabetismo, quando alguém não sabe sequer juntar as letras e os sons. “O nível absoluto é residual. Em geral, são pessoas já idosas, do mundo rural. A proporção está caindo, não porque estamos conseguindo alfabetizá-las, mas porque essas pessoas estão falecendo, saem da vida sem ter tido esse acesso”, detalha Ana Lúcia.

No segundo nível, chamado de rudimentar, estão as pessoas que tampouco compreendem uma receita médica escrita. “A maioria também é mais velha, em geral cursou apenas o primário e depois não usou a escrita”, descreve a coordenadora do Inaf. Contudo, não são apenas os idosos: entre 5% e 6% dos jovens de 15 a 29 anos estão nesse nível. O Inaf começou a ser medido em 2001 e, desde então, o número de analfabetos funcionais — soma dos dois níveis mais baixos, absolutos e rudimentares — caiu de 39,3% para 29,4%.

De acordo com Ana Lúcia, porém, não é só o analfabetismo funcional que preocupa. No terceiro nível, chamado de elementar, as pessoas são alfabetizadas, mas têm dificuldades importantes de interpretação de textos e gráficos. “Não sabem discernir opinião de fato e não percebem uma ironia. Mesmo que possam ler a instrução do médico, podem não entender a frequência com que devem tomar o remédio”, exemplifica.

Ela considera grave que, nesse perfil em particular, haja gente com a escolaridade básica completa. “Muitas dessas pessoas frequentaram até o ensino médio, investiram 12 anos da vida na escola, mas foram empurradas adiante sem aprender o que precisavam. Carregam esses déficits para o resto da vida, como trabalhadores, eleitores, pais de família e consumidores”, observa.

Em nota, o Ministério da Educação (MEC) destaca que elaborou, em 2025, novas diretrizes para a EJA, priorizando o ensino presencial e exigindo que os sistemas de ensino ofereçam formatos flexíveis e adequados à diversidade de perfis. Informa, ainda, que apoia tecnicamente as redes de ensino, ao reconhecer que muitos municípios enfrentam desafios para estruturar ofertas de alfabetização adequadas aos diferentes estudantes.

O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), principal fonte de recursos para a alfabetização de adultos, registou em 2024 alta de 25% no fator de ponderação para matrículas na EJA. “Isso significa um incentivo direto às redes de ensino para a oferta de matrículas, uma vez que cada aluno passa a significar um maior volume de recursos repassados para estados e municípios”, diz a nota.

Cidadania pela Saúde

O objetivo de alfabetizar todos plenamente passa pelo reforço da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e, talvez, pela sua remodelação, para que possa um suporte adequado para públicos tão diversos como jovens escolarizados e idosos que nunca frequentaram a escola. De qualquer forma, o acesso à Saúde não pode esperar e deve chegar para todos, com o conhecimento que tiverem no momento.

O Sistema Único de Saúde (SUS) orienta seus profissionais para que a prescrição não seja apenas um documento técnico, mas “parte de um cuidado que se constrói, junto com cada pessoa, uma compreensão do uso racional de medicamentos”, segundo nota do Ministério da Saúde (MS) enviada à Problemas Brasileiros.

O MS informou, ainda, que atualmente já disponibiliza ferramentas com pictogramas para facilitar a missão dos profissionais. “Orientar pacientes sobre o uso correto dos medicamentos, escutar suas necessidades e acompanhar famílias ao longo do tempo é ainda mais importante para pessoas com baixa escolaridade, não alfabetizadas, idosos, pessoas com deficiência e usuários em situação de maior vulnerabilidade social”, afirma a pasta.

Em suas diretrizes, o SUS inclui, de fato, o respeito à diversidade dos territórios e das culturas, destaca Cristiani Vieira Machado, professora e pesquisadora na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp-Fiocruz). “O SUS baseia-se em princípios abrangentes, tem uma visão ampla da doença, reconhecendo que as enfermidades são influenciadas por elementos estruturais como as condições de habitação, alimentação, renda, trabalho”, aponta, citando, ainda, que o papel dos agentes comunitários de saúde — profissionais que vivem nas regiões em que atuam — tornou-se referência internacional.

Embora as diretrizes determinem que todas as populações sejam atendidas nas suas especificidades, isso nem sempre ocorre na prática, sobretudo pela falta de recursos, observa a pesquisadora da Fiocruz. “É um sistema subfinanciado, com poucos recursos para dar conta de objetivos tão abrangentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o gasto público seja de pelo menos 6% do PIB. O Brasil está na faixa dos 4%”, indica.

Com um modelo que também prioriza a interseccionalidade com outras áreas, o SUS muitas vezes acaba promovendo a cidadania de forma mais ampla. Um exemplo é o Programa Saúde na Escola (PSE), uma parceria do MS com o MEC, que avalia as condições de saúde dos estudantes, cumpre cronogramas de vacinação, promove a alimentação saudável e incentiva a atividade física, atuando também no cuidado com a saúde mental e a prevenção da violência.

No dia a dia da UBS, o médico Lucas Cardim sente claramente que sua função vai além de remediar doenças. “Nossa região não tem água tratada, então, são frequentes os casos de gastroenterites bacterianas. Não adianta dar só o antibiótico. Temos um cuidado especial de ensinar a usar filtro e ferver a água”, enfatiza. Seu desafio, contudo, é ir além. “A gente ensina que eles têm direito a água tratada e mostra os caminhos para que eles reivindiquem esse direito”, acrescenta.

Luciana Alvarez
Annima de Mattos
Luciana Alvarez
Annima de Mattos