Os agentes de segurança pública na ativa há 20 ou 30 anos estão tendo de lidar, neste momento, com a rápida evolução do crime, principalmente daquele cometido no mundo digital. Esse é um problema que desafia não só os profissionais individualmente, mas também todos os agentes da segurança pública. É o que explica Renato Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). “O crime evolui muito mais rápido do que a capacidade atual de organização pública e da legislação brasileira”, avalia. Lima também chama a atenção para a forte presença do crime na economia, inclusive em atividades lícitas. Uma rede complexa que exige modernização, investigação e cooperação.
Não temos uma métrica brasileira sobre o tamanho do problema; temos vários estudos e aproximações. O Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que mais ou menos 3% da economia latino-americana está diretamente associada ao crime. Outros estudos, que tratam da economia subterrânea, como sonegação e pirataria, mostram que, em todo o mundo, ela representa em torno de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Fato é que temos de 5% a 10% da economia brasileira capturada pela lógica do crime. O varejo tem que embutir no custo da operação uma série de serviços, como seguro e vigilância privada, o que faz com que boa parte do custo seja influenciado pela criminalidade.
No mundo todo, a segurança privada é um setor econômico como outro qualquer. No Brasil, temos um paradoxo. O setor regulado, aquele que segue a legislação, tem perdido competitividade para um setor que é ainda pior em termos de impacto, que é o serviço paraprivado, o paraestatal. Uma pesquisa do FBSP, realizada em parceria com o Datafolha, mostra que 18% da população brasileira adulta contrata serviços de segurança privada prestados por policiais durante as folgas, o que formalmente é ilegal. Fragiliza-se o setor econômico regulado, das empresas devidamente formalizadas e fiscalizadas frente aos setores informais, muitas vezes abrindo espaços para as milícias. É uma área pouquíssimo fiscalizada, que depende de arranjos locais, gerando um ambiente que aumenta o que talvez sejam os principais problemas da agenda de segurança agora em 2026: o medo e a insegurança. Todos os índices criminais relacionados à rua, ao espaço público, estão caindo nos últimos anos. Boa notícia. Mas os crimes da esfera privada — como a violência doméstica e contra a mulher, a violência sexual — aumentam muito. E tem uma outra dimensão que também explode, que é a dos crimes virtuais, dos estelionatos. Muitas vezes, inclusive, os criminosos usam cadastros do Comércio para acesso a informações pessoais. De um lado, o medo de sair na rua; de outro, também a incerteza de que, por exemplo, se o celular for furtado, a pessoa poderá ser vítima de um golpe. Esses dois lados compõem um cenário bastante preocupante da segurança pública, porque são questões tangíveis.
A preocupação com o tema da violência corresponde ao tamanho do problema no Brasil. Agora, a questão não é só o crime de rua. O Estado, em todos os níveis, acostumou-se a medir a violência pelos indicadores tradicionais de décadas, que são aqueles que acontecem na rua. Só que um conjunto muito grande de violência tem sido cometida fora do espaço da rua, como o estelionato virtual, os golpes, as fraudes, a invasão de privacidade, o roubo de identidades em redes sociais. O golpe sempre existiu, mas deixou de ser uma atividade individual para ser uma atividade empresarial do crime. Se, antes, alguém era furtado no ponto de ônibus, levavam o quê? Um bilhete único, dinheiro, eventualmente algum cartão. Hoje, vai junto o celular e a vida financeira das pessoas, que demoram muito tempo para se reorganizarem, quando não ficam endividadas. Essa situação vai gerando uma bola de neve, e a violência passa a ser vista como um problema estrutural para a sociedade e para economia.
Temos mais ou menos 800 mil profissionais da segurança trabalhando entre policiais civis, militares e federais. Desses, 400 e poucos mil são policiais militares, porque são estes que fazem o policiamento ostensivo na rua. Então, é natural que o maior investimento esteja nas polícias militares. Mas, quando percebemos que a dinâmica do crime mudou, precisamos investir em investigação criminal. Um exemplo: em São Paulo, existe o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), com cerca de mil policiais, mas somente cem estão lotados na divisão de crimes cibernéticos. Lembrando que o Brasil teve 800 mil roubos em 2024 (o número de 2025 ainda não foi computado) e 2,2 milhões de estelionatos, quase todos no mundo virtual. O crime mudou, mas a organização das polícias, não. Por isso que devemos criar mecanismos de cooperação e articulação. Antes, o patrulhamento da rua era suficiente. Agora, a rua não pode ficar sem proteção, mas é preciso também investigar o furto do celular naquela rua que, muitas vezes, será usado num golpe na esquina seguinte ou em outro Estado. Para isso, a ferramenta importante é a investigação, competência das polícias civis nos Estados e da Polícia Federal. Nossa crítica é que é preciso repensar as formas de trabalho para que, eventualmente, haja cooperação entre as polícias. Há, historicamente, dificuldade para as polícias conversarem entre si, até pelo déficit de pessoal nas polícias civis. E as mesmas pessoas que estão há 30 anos na atividade têm de lidar com aquele crime ao qual estavam acostumadas, na esquina, e também com um com alto grau de sofisticação — por exemplo um cibercrime que envolva criptoativos. É quase impossível um mesmo profissional aprender tudo ao mesmo tempo. Claro, uma pessoa pode ter essa competência, mas estou falando das instituições, das corporações. É aí que se percebe que o crime evolui muito mais rápido do que a capacidade atual de organização pública e da legislação brasileira. Não é só uma questão de punir mais — isso precisa ser discutido e, em alguns casos, é verdade. Mas trata-se de fazer com que as pessoas sejam identificadas. A taxa de impunidade é alta porque não esclarecemos os crimes.
O principal desafio é que a economia passa a ser capturada e contaminada pela lógica da economia do crime. A economia formal vai perdendo competitividade e precisa ser blindada. O crime organizado tem se modernizado. Antes, o golpe vinha de presidiários, hoje há centrais digitais, e nem sempre é possível dar conta dessa inovação do mal. É preciso pensar em mecanismos de prevenção e salvaguardas para que a economia formal não seja capturada pela economia do crime. E isso se faz com regulação. Mas falar de regulação é sempre complexo, porque há um equilíbrio entre o exagero e a necessidade. Nesses casos, é fundamental dizer que setores — como bets, fintechs, criptoativos, comércio de combustíveis e vários outros que estão sendo usados pelo crime organizado não podem deixar de ser mais bem regulados e fiscalizados pelos órgãos competentes, como o Banco Central, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Porque, no fim do dia, quem paga a conta é o empresário e o consumidor, que vão querer consumir e nem sempre vão poder comprar um produto que não seja objeto da atividade criminosa. O empresário não tem sossego e sempre precisará, o tempo todo, correr atrás da inovação da tecnologia. Além disso, estar na fronteira da adoção da nova tecnologia custa muito caro. Não por acaso, as economias mais dinâmicas são aquelas que inovam tecnologicamente e se mostram capazes de competir minimamente com a economia ilícita — que sempre vai existir, a questão é ter capacidade de reagir ou não. O risco brasileiro, no momento, principalmente nas grandes cidades, é exatamente perder a capacidade de reação. Quando entregamos os pontos, já fracassamos. A economia brasileira vai perder competitividade, e sem fazer a economia girar, surgirão os problemas de emprego, renda, e assim por diante.