Onde estão os candidatos?

28 de setembro de 2026

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Margarida Silva* vai para sua segunda eleição consecutiva — embora seja apenas a primeira vez como candidata. Na última, em 2022, ela já era filiada a um partido (de esquerda), atual governista no âmbito federal, oposicionista no contexto em que ela atua politicamente, a Cidade de São Paulo. Chegou a organizar a campanha para uma cadeira da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp), mas desistiu em cima da hora. Além da dificuldade para conseguir recursos e do pouco tempo para elaborar propostas, ainda se viu em meio ao conflito interno da legenda. “Resolvi esperar a eleição seguinte”, conta. Agora deu certo e ela vai concorrer ao cargo de deputada estadual.

Tudo aconteceu, na leitura dela, por dois motivos. “Um é que passei esses quatro últimos anos militando na base”, justifica. “Fui a todos os eventos importantes do partido, conversei com muita gente, construí uma rede. A candidatura é resultado de todo esse esforço político que fiz de lá para cá”, atesta.

O outro foi o acirramento das disputas internas entre “candidatos a candidatos”, ou seja, a quantidade de atores políticos que manifestou desejo de concorrer pela legenda no pleito de 2026. “Foi uma briga feia — em alguns casos, eu diria, literalmente”, revela. No fim, o partido terá 19 nomes na disputa pela Alesp.

Esse segundo aspecto ajuda a explicar por que o total de candidatos nas eleições de 2026 registrou a maior queda já verificada desde 1994: 30%. Cerca de 20 mil candidatos estão na disputa deste ano, quase 9 mil a menos do que em 2022, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Novas regras, menos jogadores

Desde a última eleição, uma série de leis mudou a lógica para os partidos políticos escolherem os candidatos aos cargos proporcionais. Uma delas, por exemplo, deu mais rigor à cláusula de desempenho, que é o número mínimo de votos que as legendas precisam para ter acesso aos recursos do fundo partidário. Em 2022, era de 2% de votos válidos na eleição anterior e um mínimo de 11 deputados federais eleitos. Agora, é de 2,5% de votos e 13 deputados de, ao menos, um terço das unidades federativas.

“Essa regra limitou o poder financeiro de partidos menores, O resultado é que, já nesta eleição, eles tiveram mais dificuldades para recrutar os candidatos”, aponta Hilton Cesário Fernandes, cientista político e professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Mas esse é apenas um dos motivos pelos quais o total das candidaturas despencou nas eleições deste ano. E o número é ainda mais relevante considerando-se que, até o último ciclo eleitoral, a quantidade de candidaturas só cresceu. Na verdade, aumentou duas vezes entre 1994 e 2018, passando de 11,9 mil registros para 29 mil há oito anos.

“É que o sistema funciona com lista aberta, em uma combinação de votos nominais e votos na legenda. Então, compensa para os partidos lançar o maior número possível de candidatos para somar tudo no fim”, prossegue Fernandes. “Vinham daí, inclusive, as estratégias dos ‘puxadores de votos’, como celebridades ou políticos conhecidos, o que pesou muito nas mudanças eleitorais dos últimos anos”, observa.

Na opinião de Jairo Pimentel, cientista político da consultoria Quanti.lab, é importante ver esse fenômeno no caso dos deputados, em específico. Em 2026, serão 7.795 candidatos à Câmara dos Deputados e 11.283 aos legislativos estaduais, de acordo com o TSE. Em 2022, eram 10.622 e 16.724, ou seja, retrações de 26,6% e 32,5%, respectivamente. “Com a lei mais restrita, muitos deputados mudaram de partido antes de a janela eleitoral fechar, não por afinidade ideológica, mas por cálculo. São movimentos em direção às legendas com mais recursos e espaço”, explica. Antes da campanha, mais de cem parlamentares trocaram de sigla. Essas relações, vale dizer, não se repetem em todas as eleições: em 2018, o volume de candidatos aos parlamentos dos Estados explodiu (17.941), enquanto o de nomes à Câmara foi menor (8.587).

A cientista política Lara Mesquita, professora na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), esperava que a queda de candidaturas acontecesse no pleito passado, de 2022, e acredita que o número certamente cairá ainda mais nas próximas eleições. “Por um lado, porque o tamanho das listas para candidatos a deputados federais e estaduais diminuiu”, observa, referindo-se à lei que obriga partidos a apresentarem um volume de concorrentes de não mais que 100% do que o número de vagas disponíveis. No caso da Alesp, são 94 cadeiras sem divisão por municípios. No âmbito federal, variam de Estado para Estado.

Em março, o Supremo Tribunal Federal (STF) ratificou a validade da lei depois que o Cidadania acionou a corte alegando inconstitucionalidade. “Se, no passado, as legendas ou coligações podiam apresentar mais de cem nomes [no caso da Câmara dos Deputados], agora, não podem passar de 70”, complementa a professora da FGV.. 

Lara também aponta a queda do próprio número de partidos — ou daqueles que disputavam as eleições sozinhos, o que, na verdade, tem sido cada vez mais raro. Isso porque as legendas preferem concorrer dentro de federações, que funcionam como um único partido por pelo menos quatro anos. Dos 32 partidos existentes no ciclo de 2022, sete estavam unidos em três federações. Agora, serão 30 partidos — 11 dos quais estão em cinco federações diferentes.

“Na verdade, embora ainda existam muitos partidos no Brasil, eles não lançam candidatos em todos os Estados. É caro e, por lei, precisam atender a uma série de condições (candidaturas femininas, representantes eleitos etc.). Então, era esperada essa diminuição. Teremos uma estabilidade, provavelmente, na eleição de 2034”, projeta Lara. “Isso é importante”, prossegue Fernandes, da FESPSP, “porque parece que a variação da quantidade de candidatos entre eleições é um reflexo do interesse das pessoas pela política. À primeira vista, dá a entender que esse interesse caiu. Não é verdade. Quando muda a lei eleitoral, mudam as estratégias partidárias”, avalia.

Nesse sentido, Margarida é exceção, e ela sabe disso. “Eu sou candidata porque o partido resolveu apostar em mim. De um lado, tenho meu capital político e minha rede; de outro, o partido garante que eu amplie o alcance de representação. Não foi fácil, mas acho que os dois ganham. Se eu for eleita, essa conta fecha”, finaliza.

*O nome de Margarida é fictício, alterado a pedido da entrevistada.

Vinícius Mendes
Maria Fernanda Gama
Vinícius Mendes
Maria Fernanda Gama