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O papel das empresas na defesa da democracia brasileira

Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.
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Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.

O Brasil atravessa um momento em que os desafios climáticos, as desigualdades estruturais e a solidez das instituições democráticas não podem mais ser tratados de forma isolada, exigindo respostas articuladas de toda a sociedade. Nesse cenário, o setor privado não é apenas um motor econômico, mas um agente político capaz de influenciar políticas, moldar comportamentos e gerar a confiança necessária para a estabilidade social. É fundamental que as lideranças empresariais compreendam que, diante da erosão democrática, a neutralidade não é uma opção viável, pois tem um custo maior do que o engajamento ético. As empresas não são somente beneficiárias da estabilidade social, mas também corresponsáveis diretas pela promoção e pela preservação dessa condição, mediando a interconexão entre sociedade e Poder Público.

O Instituto Ethos considera que o fortalecimento da democracia brasileira está intrinsecamente ligado ao combate às desigualdades em todas as suas instâncias e dimensões. A relação entre desigualdade e democracia é de causalidade negativa, uma vez que disparidades socioeconômicas acentuadas corroem as instituições ao gerar assimetrias de poder, por meio de financiamento, lobby, acesso a instâncias decisórias etc. Práticas de corrupção e fraudes, muitas vezes facilitadas pela falta de transparência, desviam recursos que deveriam garantir direitos básicos — como saúde, educação e segurança pública —, ampliando o abismo social. As desigualdades racial e social, por sua vez, geram descrença no processo democrático e diminuem a participação política.

No mundo corporativo, essa exclusão é visível, principalmente, no topo das pirâmides hierárquicas. A pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas 2023–2024, conduzida pelo Instituto Ethos, mostra que, nas maiores corporações do Brasil, a porcentagem de mulheres brancas em cargos de alta liderança é de 20%, enquanto a de homens negros é de 7% e a de mulheres negras, de apenas 2,6%. Esses dados evidenciam a interseccionalidade da exclusão e a necessidade urgente de políticas afirmativas consistentes, pois a redução dessas disparidades é condição essencial para um mercado dinâmico e para a solidez da nossa democracia. Promover uma diversidade no ambiente corporativo que abranja também os postos de gestão não é só justiça social e ação afirmativa. É, antes de tudo, uma forma salutar de ampliar vozes nos processos decisórios, reduzir vieses institucionais e fortalecer a legitimidade organizacional.

No setor privado, a defesa da democracia manifesta-se prioritariamente na garantia da integridade e da liberdade das pessoas trabalhadoras, especialmente em períodos eleitorais. O assédio eleitoral — caracterizado por qualquer coação, ameaça ou promessa de benefício baseada em convicções políticas — representa uma violência psicológica grave que interfere na soberania do processo democrático. O crescente processo de precarização do trabalho resulta em mais suscetibilidade a práticas autoritárias por parte de empregadores ou contratantes, gerando medo de represálias, o que leva ao silêncio político. Em 2022, o Brasil registrou milhares de denúncias dessa natureza, tornando evidente que as companhias devem adotar mecanismos robustos de prevenção. A integridade deve ir além do simples compliance, consolidando-se como um compromisso com a dignidade humana para garantir que as estruturas corporativas não sirvam de apoio a iniciativas que atentam contra as instituições ou contra a liberdade de exercício da cidadania. Para tanto, é necessária a implantação de protocolos claros e auditáveis contra assédio eleitoral.

A fim de que essa defesa seja efetiva, o setor empresarial deve converter intenções em ações concretas e contínuas que fortaleçam o Estado democrático de direito, o que inclui a revisão de políticas de lobby e de relações governamentais, com critérios éticos e garantia de representatividade de diversos segmentos da sociedade. As empresas devem também assumir compromissos públicos contra o financiamento de iniciativas antidemocráticas, ou que deliberadamente propaguem desinformação. Além disso, devem envolver colaboradores em programas de incentivo ao exercício da cidadania, estimulando o voto consciente, o debate e a reflexão sobre pautas cívicas relevantes. No campo tecnológico, as expansões da Inteligência Artificial (IA) e da comunicação digital exigem uma governança de dados responsável para combater a desinformação, garantindo um clima corporativo estável e uma sociedade baseada na confiança.

O Instituto Ethos reafirma o seu papel como articulador técnico dessa agenda, oferecendo balizas como o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e o Guia de Responsabilidade Social Empresarial no Processo Eleitoral. Compreendemos que a democracia é o solo fértil onde os negócios prosperam com previsibilidade e transparência, transformando o imperativo ético em uma poderosa alavanca de geração de valor em longo prazo. Ao adotar a integridade como um compromisso inegociável com o País e com as pessoas, as lideranças empresariais podem destravar as mudanças estruturais necessárias para a construção de um Brasil mais justo, ético e sustentável. O desafio de fortalecer nossas instituições é coletivo, e a participação ativa do setor privado contribuirá para que a dignidade humana seja uma realidade para todos e todas.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​1 (​M​AR/​ABR) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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