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O papel das empresas na transformação do Brasil

Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.
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Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.

O ano de 2026 começa marcado por desafios e oportunidades decisivas para o Brasil e para o mundo. Após a 30ª Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP30) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em novembro do ano passado, em Belém, no Pará, ficou evidente que a transição para uma economia justa de baixo carbono não é apenas uma pauta ambiental, mas também um imperativo ético e socioeconômico que precisa ser concebido e trabalhado de forma integrada. Ao mesmo tempo, o País prepara-se para eleições que testarão a solidez das instituições democráticas em um cenário global de polarização e desinformação. Essas questões não são isoladas — estão entrelaçadas e pedem transformação e respostas articuladas de toda a sociedade.

O setor empresarial brasileiro está no centro dessa transformação. Empresas não são só motores econômicos. São agentes capazes de guiar políticas, moldar comportamentos e gerar confiança. Em 2026, a forma como as organizações responderão a quatro frentes interdependentes — clima, desigualdades, democracia e integridade — vai beneficiar os resultados, a estabilidade social e a imagem do Brasil no cenário internacional.

Estudo inédito do Ethos, divulgado durante a COP30, a pesquisa Impacta COP30, realizada com os seus associados, em parceria com a GlobeScan, revela um bem-vindo comprometimento com os temas e aponta que ainda é preciso avançar com a efetividade das pautas. Segundo o levantamento, 96% das empresas respondentes afirmaram adotar medidas para mitigar impactos ambientais, mas apenas 41% produzem relatório formal de riscos climáticos, medida fundamental para a adoção de uma governança baseada em dados e metas acessíveis e verificáveis, conforme preconiza o Acordo de Paris, garantindo a transparência e o padrão de responsabilidade corporativa.

A agenda climática exige que compromissos assumidos nas conferências internacionais traduzam-se em resultados concretos. Iniciativas como o Impacta COP30: Além do Clima, documento que lançamos em Belém, buscam justamente transformar promessas em ações imediatas, articulando metas de mitigação e adaptação com estratégias corporativas e promoção de justiça socioambiental. Mais do que fortalecer reputações, essa postura tem a capacidade de influenciar políticas públicas e padrões globais, consolidando o Brasil como protagonista na transição energética e na proteção da Amazônia.

Ao mesmo tempo, cresce a urgência de proteger a democracia contra a desinformação. Em um ano eleitoral, a circulação das chamadas fake news ameaça as instituições e a estabilidade do ambiente de negócios. Nesse ponto, as empresas têm um papel importante na promoção de práticas responsáveis de comunicação e de governança digital que vai além do compliance — um compromisso para garantir um clima corporativo estável e uma sociedade baseada em confiança.

Outro eixo estratégico  deste ano envolve tecnologia e governança digital. A expansão da Inteligência Artificial (IA) traz grandes oportunidades, mas também riscos éticos que exigem enormes responsabilidades de toda a sociedade e de governos. Incorporar princípios de diversidade, direitos humanos e governança responsável na inovação é um passo essencial para evitar desigualdades digitais e garantir que a transformação tecnológica seja inclusiva. As empresas que lideram essa agenda antecipam as necessárias e urgentes regulações, bem como delineiam um diferencial ético e reputacional baseado em transparência e confiança. Por isso, já estamos trabalhando na construção de indicadores, guias práticos, ações coletivas e participação em fóruns globais, posicionando o setor empresarial e o Brasil como referências em tecnologia ética. Em um mundo cada vez mais orientado por dados, a ética e a responsabilidade digitais serão estratégicas e determinarão a eficiência operacional.

Por fim, não nos esqueçamos que nenhuma dessas frentes será sustentável sem enfrentar as desigualdades estruturais do País. Mobilizar esforços para ampliar diversidade, inclusão e remuneração justa, uma pauta sempre em discussão nas conferências do Ethos, é mais do que uma reivindicação social, é uma estratégia para fortalecer a coesão e a estabilidade necessárias ao desenvolvimento econômico. A redução das desigualdades, mais do que um imperativo ético, é condição para um mercado mais dinâmico, inovador e resiliente. Empresas que assumem esse compromisso contribuem para um círculo virtuoso de crescimento e cidadania.

Desejamos que o ano de 2026 seja um marco para redefinir prioridades e consolidar práticas empresariais que unam ética, sustentabilidade e inovação. Mais do que reagir a crises, é hora de liderar mudanças estruturais que garantam um futuro justo e responsável. As empresas que assumem esse protagonismo respondem às demandas do presente, além de desenvolverem as bases de um Brasil mais resiliente e competitivo e uma sociedade mais justa, ética e sustentável. O desafio está posto. As oportunidades também.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #490 (JAN/FEV) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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