Artigo

O potencial da IA na transição climática

Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.
Oliveira Neto (Maneto)
é consultor associado do Instituto Ethos
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Caio Magri
Caio Magri é diretor-presidente do Instituto Ethos.
Oliveira Neto (Maneto)
é consultor associado do Instituto Ethos

O enfrentamento das mudanças do clima é um dos maiores desafios globais do século 21, o que exige respostas inovadoras, integradas e urgentes — tanto do setor público quanto do privado. As empresas brasileiras estão no centro dessa transformação, tendo a responsabilidade (e a oportunidade) de liderar a transição para uma economia redutora de desigualdades, de baixo carbono, resiliente e inclusiva.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial (IA) surge como um instrumento capaz de acelerar esse movimento, ao mesmo tempo que exige uma reflexão profunda sobre riscos e implicações éticas e sociais. Não se trata apenas de reconhecer o potencial tecnológico da IA, mas de compreender o seu papel estratégico no apoio às metas ambientais do País, em consonância com compromissos internacionais como os que serão firmados na 30ª Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP30) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Este artigo é, acima de tudo, um convite para que lideranças empresariais incorporem a IA como eixo central de suas estratégias climáticas, assumindo compromissos sólidos que tragam benefícios ambientais e sociais duradouros.

A IA possui capacidades extraordinárias para transformar as formas tradicionais de enfrentar os desafios climáticos, especialmente pela sua habilidade de processar grandes volumes de dados em tempo real e identificar padrões complexos invisíveis a análises convencionais. No âmbito corporativo, isso se traduz em várias frentes essenciais. Sistemas inteligentes monitoram e otimizam o uso de energia em instalações, ajustando processos produtivos e sistemas prediais para maximizar a eficiência e reduzir desperdícios. Na cadeia de valor, a IA identifica pontos críticos de emissão, favorece fornecedores de menor impacto ambiental e apoia o design de produtos com ciclo de vida sustentável, fortalecendo a economia circular.

A integração da IA às fontes renováveis também é crucial para a gestão eficiente das redes elétricas, permitindo superar a intermitência das energias solar e eólica, acelerando a transição para uma matriz limpa e confiável. Além disso, a capacidade preditiva da IA possibilita antecipar eventos extremos — como inundações, secas e incêndios — e avaliar seus impactos financeiros e operacionais. Algoritmos apoiam a elaboração de estratégias de adaptação, resiliência e continuidade dos negócios, reduzindo perdas e protegendo colaboradores, fornecedores e comunidades.

Ademais, tecnologias de Processamento de Linguagem Natural (PLN) viabilizam o monitoramento de mudanças regulatórias, as tendências de mercado e a percepção pública, facilitando a conformidade e a gestão dos riscos da transição para uma economia de baixo carbono. Ao quantificar efeitos financeiros e riscos climáticos, a IA apoia decisões estratégicas de investimentos, planejamento de capital e alocação de recursos. Essa análise de cenários complexos fortalece a governança ambiental, social e de sustentabilidade (ASG), além de abrir caminho para a inovação em produtos e serviços sustentáveis. O resultado é a criação de valor compartilhado para empresas e sociedade.

Apesar dos benefícios, o uso da IA traz desafios associados à ética, à transparência e ao impacto social. A implementação do seu uso deve vir unida a princípios claros para o uso responsável da IA, que inclua auditorias, mitigação de vieses e prevenção de decisões discriminatórias. Não menos importante é que seja garantido que os avanços tecnológicos contribuam para reduzir desigualdades, contemplando diversidade e acessibilidade — e que isso seja comunicado de forma clara.

No Brasil, como meio de garantir o uso ético, responsável e inclusivo da IA, há iniciativas que reforçam esse compromisso por meio de políticas progressistas, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), do governo federal. O documento enfatiza o uso ético e soberano da IA para o desenvolvimento sustentável. As companhias que incorporam essas diretrizes alinham-se com as melhores práticas globais, fortalecendo a competitividade internacional e contribuindo para a credibilidade ambiental do País. À medida que a COP 30 e outros fóruns internacionais ampliam o debate sobre sustentabilidade e tecnologias emergentes, o momento exige das lideranças empresariais uma postura cada vez mais proativa, integrando a IA como vetor essencial de suas estratégias climáticas.

É urgente que as companhias incorporem a gestão de riscos climáticos e a governança de IA em seus processos decisórios, estabelecendo metas claras, ambiciosas e baseadas na ciência para redução de emissões, com transparência e responsabilização. Também precisam investir em capacitação, pesquisa e inovação em IA aplicada a impasses ambientais, fomentando parcerias colaborativas, sempre com princípios éticos e ações concretas para garantir justiça climática, inclusão social e respeito aos direitos humanos.

Por fim, que atuem como agentes ativos na formulação de políticas públicas e no diálogo com a sociedade civil, mobilizando toda a cadeia produtiva. Ao adotarem a IA não apenas como tecnologia, mas como um compromisso integral com o planeta e com as pessoas, as empresas brasileiras podem transformar o imperativo climático em uma poderosa alavanca de inovação, resiliência e geração de valor de longo prazo.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #489 (NOV/DEZ) DA REVISTA PB.
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