O modelo político brasileiro atual, iniciado em 1985 e conhecido como Nova República, esgotou-se com um repertório de instintos de sobrevivência da elite do Estado democrático de direito. Com sua estranha combinação de estabilidade institucional precária, ocupação predatória de cargos e funções públicas e crises político-econômicas periódicas, chega, pela décima vez, a um ano eleitoral para a sucessão do parlamento, dos governos estaduais e da Presidência da República.
Entender a cada vez maior exaltação dos princípios de preservação de um modelo administrativo falho e incorrigível ajuda a encontrar a causa da fragilidade dos princípios que o sustentam, bem como a encontrar uma saída para melhorar o País.
Os modelos político, econômico, judicial e educacional são os de uma nação sufocada pelo excesso de razões do Estado. E torna-se incorrigivelmente arbitrária a política que se dedica a esmagar e a querer regular, a seu modo, qualquer iniciativa da sociedade. O Estado não fornece caráter a ninguém. As virtudes humanas são anteriores a ele e costumam ser atropeladas, em anos eleitorais, pela velocidade instantânea do trânsito de candidatos e partidos e pela publicidade paga que os sustenta e projeta.
Já é hora de os membros dos Três Poderes perceberem que somos uma sociedade preexistente a eles. Não é justo erguerem alicerces subterrâneos e plantarem raízes familiares na vida pública, fazerem leis para tornarem legal a ocupação de todos os postos por pessoas de suas relações. Usarem de expedientes que tornam justas remunerações injustas, usarem leis para perseguir, multar, vigiar e punir quem não é membro do Estado.
Os defeitos da Justiça pública não são mais ficção ou fruto de indisposição política entre competidores. É só observar que vivem melhor os povos que sabem moderar e equilibrar a simpatia e a antipatia pelas pessoas, as coisas e o dinheiro, sem ousar inventar formas circunstancias e personalíssimas de administrar os bens públicos.
Uma boa reflexão em ano eleitoral é a de que nenhuma autoridade estatal, estável ou eletiva, deveria imaginar que é possível mudar o ponto de partida da história e os valores maiores de uma sociedade democrática a que serve ou pretende servir. Nem supor que a soberania simbólica da autoridade pressupõe a legalidade de qualquer dos seus atos. No Brasil, essa pretensão produziu a maioria das suas crises, porque muitos dos nossos agentes públicos não compreendem que são, periodicamente, cedidos pela sociedade ao Estado. Isto é, o bom político ou funcionário público, de qualquer dos Poderes, não está lotado no Estado como um tijolo na parede.
A mentira não está custando nada às autoridades. Essa mentalidade é ajudada pela tendência predominante de pôr a culpa nos outros e de imaginar que crises políticas sempre nascem de problemas econômicos ou intrigas. Ou que o sistema de crenças que existe hoje no Brasil tem sua base no pensamento de classes sociais antagônicas a nos dividir em santos e pecadores.
Na verdade, as crises atuais não são culpa nem da economia, nem da sociedade. Foi o descomedimento do Estado que incendiou a economia usada como prerrogativa do poder político. Assim compreendido, sem senso de calma e perspectiva, quer começar do zero a vida de uma nação com mais de 200 anos de independência.
Foi essa política de pleno uso da paciência da sociedade, com improvisações de todo tipo — julgando ser possível retirar do sistema eleitoral a justificativa para saturar a realidade com sua visão particular sobre o Poder Judiciário, o sistema educacional, o trabalho, a empresa, os valores culturais e morais, as parcerias internacionais etc. — que faz os governos fornecerem combustível à inépcia e ao aventureirismo econômico. E vai tirando, do catálogo das virtudes políticas, a esperança da sociedade.
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