Um dos maiores pensadores do Brasil e da realidade mundial no século 20, Milton Santos ergueu sua voz potente contra o que considerava as perversidades do capitalismo globalizado. Defendia uma outra globalização, baseada no desenvolvimento local e na cidadania.
Até a década de 1970, a geografia era considerada uma ciência neutra e descritiva, focada na memorização e classificação de paisagens, sem qualquer relação com os conflitos sociais e políticos. Até que um brasileiro graduado em Direito, com doutorado em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, revolucionou a disciplina com base no conceito de que o espaço não pode ser dissociado dos seres humanos que o habitam.
Um dos maiores pensadores do Brasil e da realidade mundial no século 20, Milton Santos ergueu sua voz potente contra o que considerava as perversidades do capitalismo globalizado. Defendia uma outra globalização, baseada no desenvolvimento local e na cidadania.
Intelectual sem vínculos com partidos ou grupos, denunciou o racismo no País como um apartheid à brasileira, marcado por segregação estrutural disfarçada, evidenciada pelo desconforto e pelo ressentimento da elite branca diante da ascensão social de pessoas negras.
Neto de escravizados e filho de professores, que o alfabetizaram, Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúba, na Bahia, em 3 de maio de 1926. Em casa, aprendeu também álgebra e francês, idioma fundamental na sua formação acadêmica. Aos dez anos, ingressou como aluno interno no Instituto Baiano de Ensino, em Salvador, onde morou por dez anos, atuou no movimento estudantil e ministrou aulas de Geografia, explicando aos alunos os contornos do que a Segunda Guerra Mundial imporia ao planeta.
Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1948, abandonou a carreira jurídica e submeteu-se a concurso com a tese “Povoamento da Bahia”, passando a ocupar a cadeira de Geografia Humana no Ginásio Municipal de Ilhéus, cidade no Sul do Estado, o que delinearia os rumos de sua vida e de sua vasta obra.
Em Ilhéus, casou-se com Jandira Rocha, mãe do seu primeiro filho, trabalhou como correspondente do jornal A Tarde e escreveu Zona do cacau: introdução ao estudo geográfico, publicado em 1955 — livro inaugural dos mais de 40 que criou ao longo da carreira, no qual adverte sobre os prejuízos da monocultura para a organização do território e para a paisagem.
No ano seguinte, participou do Congresso Internacional de Geografia no Rio de Janeiro, onde conheceu o geógrafo francês Jean Tricart, que o convidou para fazer o doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França. Sob a batuta desse mestre da Geografia Quantitativa, baseada em modelos matemáticos, elaborou a tese “O centro da cidade de Salvador”, um clássico instantâneo e atual até hoje.
Na primeira metade da década de 1960, Santos elevou a geografia ao status de disciplina nobre, aproximando-a de outras ciências, como política, economia, história, sociologia e filosofia. Com a tese “Os estudos regionais e o futuro da geografia”, tornou-se livre-docente em Geografia Humana pela UFBA e organizou, na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, o Laboratório de Geomorfologia, por meio do qual manteve intercâmbio com os mestres franceses e promoveu a renovação acadêmica.
Elegeu-se presidente da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB) e ocupou cargos públicos, como o de presidente da Comissão de Planejamento Econômico do governo baiano. Foi durante esse período que realizou o exaustivo estudo intitulado Programa de Estudos Geomorfológicos e de Geografia Humana da Bacia do Rio Paraguaçu da Bahia, que teve o objetivo de contribuir para a melhoria das condições de vida das populações locais.
Esse ambiente efervescente de pesquisas e novas ideias foi subitamente paralisado pela longa noite que teve início com o golpe de 1964. Santos foi preso e, em seguida, partiu para o exílio na França. Os poucos meses que imaginava ficar fora do País estenderam-se por 13 anos. Já separado da primeira esposa, lecionou na Universidade de Tolouse, a mesma que lhe concederia o primeiro título de doutor honoris causa, dos 20 que recebeu até o fim da vida. Após três anos na França, fixou-se em Bordeaux, onde uma de suas alunas, Marie Hélène Tiercelin, viria a ser sua companheira e, também geógrafa, tradutora de vários de seus livros, além de mãe do seu segundo filho.
Nos anos 1970, fez longa trajetória pelo mundo. Canadá, Estados Unidos, Venezuela, Peru e Tanzânia foram alguns dos países nos quais atuou como professor e pesquisador. Na América do Sul, o foco recaiu sobre planejamento e pobreza urbana, início de seus estudos sobre os processos de urbanização das cidades do então chamado Terceiro Mundo. Nos Estados Unidos, trabalhou com Noam Chomsky no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT). No continente africano, organizou o curso de pós-graduação em Geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia.
De volta ao Brasil, em 1977, passou por dificuldades para reingressar na vida acadêmica. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lecionou como professor assistente, como se estivesse no início da carreira, até que, em 1984, assumiu como titular do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu até se aposentar, em 1997.
E sua obra começou a ganhar o mundo com livros concebidos durante o exílio. Por uma geografia nova, publicado em 1978, critica os parâmetros focados na memorização dos aspectos físicos e propõe uma renovação voltada para o entendimento do espaço social e da cidadania. Em O espaço dividido, de 1979, publicado originalmente em francês, atualmente uma referência mundial, desenvolveu a teoria sobre os dois circuitos da economia urbana dos países periféricos, um de capital intensivo e alta tecnologia, outro de serviços tradicionais e trabalho intensivo.
Em 1994, conquistou o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, equivalente a um Nobel de Geografia, sendo o primeiro brasileiro e latino-americano a receber a honraria. No fim da vida, dedicou-se a propagar as ideias expostas no livro Por uma outra globalização, escrito dois anos antes de sua morte. Na obra, ele adverte para a produção de novos totalitarismos por meio do pensamento único, que transforma o consumo em ideologia e os cidadãos em meros consumidores, padronizando a cultura e concentrando a riqueza e os benefícios da tecnologia nas mãos de poucos.
Morreu de câncer em São Paulo, aos 75 anos, no dia 24 de junho de 2001. Seis meses antes, gravou uma entrevista que o documentarista Silvio Tendler transformou no fio condutor do filme O mundo global visto do lado de cá (2006), disponível no YouTube. Nele, Santos resume o dilema do século 21: “Nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a se construir um mundo da dignidade humana. Mas elas foram expropriadas por um punhado de empresas”.