O uso de cartões de crédito no Brasil cresceu 14,5% em 2025, com transações que passaram dos R$ 3,1 trilhões, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). O crescimento é resultado de mudanças estruturais no cenário de pagamentos do País: a expansão contínua do PIX, o aumento da inadimplência e o novo escrutínio regulatório.
Atualmente, existem mais de 240 milhões de cartões de crédito ativos em circulação — mais do que toda a população brasileira —, pertencentes a aproximadamente 101 milhões de pessoas, de acordo com dados do Banco Central (BC).
Durante anos, a adoção de cartões de crédito no Brasil cresceu lentamente. E, então, veio a covid-19 e os números dispararam. O número de cartões ativos mais que dobrou desde 2019, impulsionado em parte pelo aumento das compras online e pela onda de inclusão financeira que se seguiu ao lançamento do PIX pelo BC, no fim de 2020. “A pandemia tornou as compras online um hábito mais frequente, e o PIX trouxe 70 milhões de pessoas para o sistema bancário”, ressalta Gastão Mattos, cofundador e CEO da consultoria GMattos.
Essa mudança foi acompanhada por uma explosão na oferta de cartões de crédito por parte de fintechs, bancos digitais e outras instituições emissoras de cartões — incluindo redes varejistas e programas de fidelidade de companhias aéreas —, levando muitos brasileiros a portarem vários cartões para acessar diferentes recompensas e benefícios.
O volume de transações com cartão de crédito tem crescido consistentemente nos últimos anos, superando em muito o de cartões de débito, que registraram um aumento de 0,2% em 2025, indicam os dados da Abecs. Grande parte desse contraste é atribuída ao domínio do PIX, sistema que processa mais transações do que qualquer outro meio de pagamento e é utilizado por 80% da população. De acordo com o BC, 53% de todas as transações no País foram realizadas via PIX no segundo trimestre de 2025, registro mais recente disponível.
No ano passado, o BC lançou o PIX Automático, que permite aos usuários agendarem pagamentos recorrentes — como assinaturas e serviços de streaming —, normalmente vinculados a cartões de crédito. Também sinalizou planos para regulamentar o PIX Parcelado, uma modalidade de parcelamento já oferecida por muitos bancos, embora a autoridade monetária tenha suspendido a publicação das normas formais, deixando que as instituições financeiras definam as próprias taxas de juros e condições.
Por enquanto, esses recursos não diminuíram significativamente o uso de cartões de crédito. “Podemos afirmar que está atingindo um nicho de pessoas que não têm cartões de crédito ou não têm limite de crédito suficiente para compras maiores”, afirma Mattos. “Provavelmente isso acabará por corroer o uso de cartões de crédito, mas ainda não aconteceu”, observa.
Os esquemas de “compre agora, pague depois” também vêm ganhando força entre os varejistas, funcionando como uma versão digital dos tradicionais boletos bancários, com custos embutidos menores para os vendedores do que as taxas de cartão de crédito.
A corrida para conquistar clientes levou bancos e emissores de cartões a expandirem o acesso ao crédito, com benefícios a clientes de renda mais alta e isenção de taxas para a classe média.
O Nubank, líder em serviços financeiros digitais, reconheceu recentemente que muitos dos clientes não utilizam o cartão da empresa como principal opção e, por isso, vem aumentando os limites de crédito em um esforço para mudar essa realidade.
O volume de operações de crédito bancário — incluindo empréstimos e cartões de crédito — cresceu 10,2% em 2025, superando as próprias projeções anteriores do BC. Mas esse aumento tem um custo. As taxas de inadimplência entre usuários de cartão de crédito atingiram 9,2% no início deste ano, o nível mais alto desde 2015. O dado supera o índice geral de inadimplência para pessoas físicas, que subiu 1,3 ponto porcentual no mesmo período, chegando a 6,9%.
Entre os titulares de cartões de crédito com saldo rotativo, a taxa de inadimplência sobe para 60%, segundo dados de fevereiro do BC. As taxas de juros na modalidade chegam a impressionantes 436% ao ano.
O rápido crescimento do mercado de crédito brasileiro foi moldado, em parte, pelo amplo sistema de fintechs, que se expandiu significativamente na última década, sob condições regulatórias relativamente brandas em comparação com as dos bancos tradicionais. Essa realidade agora dá lugar a regras mais rígidas e novas legislações.
Especificamente no mercado de cartões de crédito, uma norma anunciada em novembro pelo BC entrará em vigor em maio, esclarecendo como a responsabilidade é dividida entre as redes e as processadoras, quando uma instituição emissora de cartões entra em falência.
Um caso recente ilustrou a lacuna na estrutura anterior. O Will Bank, instituição digital que operava sob a égide do Banco Master, foi liquidado depois que seu acionista controlador se envolveu no maior caso de fraude bancária da história do Brasil. Os clientes continuaram a fazer pagamentos com seus cartões de crédito do Will Bank, mas seus fundos foram bloqueados durante o processo de liquidação — e a Mastercard acabou pagando as processadoras de cartões.
As regras antigas não deixavam claro qual entidade deveria arcar com esses custos, e os casos eram resolvidos de forma pontual, conta Mattos. A nova regulamentação atribui a responsabilidade principal às redes de cartões, visto que estas estão em melhor posição para avaliar o risco das instituições com as quais fazem parceria. “O resultado é que as redes elevarão o padrão para novos parceiros, o que provavelmente afetará novos participantes”, conclui Mattos.