Correios, uma crise sob encomenda

18 de maio de 2026

A

Ausência de planejamento estratégico, falta de investimentos em inovação e tecnologia, modelo logístico defasado, inércia operacional para competir com o avanço da concorrência, inchaço trabalhista, sobreposição de pontos e redução brusca da receita devido à queda de encomendas de alto valor. A partir do terceiro trimestre de 2022, a sucessão de erros das recentes gestões dos Correios vieram à tona em uma sequência de 12 trimestres consecutivos de prejuízos, um déficit estimado em R$ 10 bilhões no fim de 2025. O número coloca em xeque o futuro da quase quatrocentona estatal, fundada em 1663.

No jargão da administração pública, é o típico exemplo de uma crise sob encomenda, com todos os ingredientes necessários para colocar em risco a saúde financeira, e até mesmo a sobrevivência, de uma companhia. “Uma empresa bem gerida precisa ter planos estratégicos com horizonte de dez anos, principalmente focando em investimentos em tecnologia. As gestões recentes, influenciadas pela histórica cultura do monopólio, não se atentaram à entrada da concorrência, que chegou com mais agilidade nas entregas”, pontua o professor na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Paulo Feldmann.

Até o início de 2022, o clima era de céu de brigadeiro. A empresa havia fechado 2021 com lucro recorde de R$ 3,7 bilhões, o melhor resultado em 22 anos. Mas, à medida que o isolamento social da pandemia arrefeceu, uma brusca tempestade teve início, com efeitos devastadores e final imprevisível. Enquanto a economia apontava sinais de reaquecimento, as principais plataformas digitais de envio de encomendas, em paralelo com as gigantes do e-commerce, colocaram as garras para fora e passaram a oferecer condições mais vantajosas e eficientes para as encomendas, principalmente com a modalidade de frete incluso. Em 2022, o prejuízo já foi de R$ 767,58 milhões. No ano seguinte, as perdas alcançaram R$ 633 milhões, aumentando para R$ 2,6 bilhões em 2024, com previsão de R$ 10 bilhões em 2025 — o balanço ainda não foi divulgado.

Ficou para trás

“Os Correios poderiam ter acelerado investimentos em automação, tecnologia de rastreamento, digitalização de processos e integração logística com plataformas de e-commerce”, enumera Pedro Moreira, presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog). Segundo o executivo, uma adaptação mais rápida aos novos modelos de entrega e à logística orientada por dados teria fortalecido a posição da empresa em um mercado cada vez mais competitivo. Neste momento, opina Moreira, “a recuperação passa por modernização tecnológica, maior eficiência operacional, parcerias estratégicas com operadores privados e plataformas de comércio eletrônico”.

Apesar de não ter responsabilidade direta na crise, os Correios sentiram a chamada “taxa das blusinhas”, a Lei 14.902/2024, que estabeleceu alíquota de 20% na importação de produtos de até US$ 50. “A medida pesou para os Correios, devido à rápida adaptação às novas regras por parte das grandes plataformas como Amazon e Mercado Livre, que tiveram mais agilidade e boas estratégias na venda e na entrega”, afirma o economista Marco Antônio Rocha, professor no Instituto de Economia da Universidade de Campinas (IE-Unicamp) e diretor-executivo do Transforme, think thank vinculado à universidade.

Para tentar salvar a empresa, o governo federal anunciou um Programa de Reestruturação com as seguintes cinco ações prioritárias: empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de cinco bancos para pagamento do 13º salário, regularização de fornecedores e financiamento de um Plano de Desligamento Voluntário (PDV); empréstimo de R$ 20 bilhões com garantia do Tesouro; redução em até 15 mil funcionários dos atuais 87 mil empregados, com economia prevista de R$ 2,1 bilhões ao ano; fechamento de cerca de mil  agências e venda de imóveis ociosos, com meta de levantar R$ 1,5 bilhão; e investimentos em automação de centros de tratamento, modernização da infraestrutura e renovação da frota para aumentar a competitividade no e-commerce.

BIG NUMBERS

Vantagens competitivas

Num país de dimensões continentais, a vantagem competitiva varia conforme a distância e a estrutura operacional. Por isso, para muitos lugares, os Correios ainda são a melhor saída em função de sua alta capilaridade. Em áreas mais adensadas, como nas regiões Sudeste e Sul, as transportadoras privadas levam vantagem, mas pontos afastados ainda dependem dos Correios.

Por meio da plataforma comparativa Melhor Envio, a reportagem da Revista Problemas Brasileiros (PB) fez duas simulações para o envio de uma mercadoria de cinco quilos, com um metro de altura, 20 centímetros de largura e 20 centímetros de comprimento, com saída da cidade de São Paulo. Rumo a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a melhor opção encontrada foi da transportadora rodoviária Buslog, com promessa de entrega em quatro dias ao preço de R$ 34,36. A segunda melhor oferta foi da transportadora Loggi, que faz o mesmo trajeto em cinco dias por R$ 36,54. Os Correios ficaram no fim da lista — por meio do serviço PAC (Prático, Acessível e Confiável), o gasto seria de R$ 73,70 para chegada em seis dias, enquanto via Sedex, com prazo de entrega em dois dias, o custo seria de R$ 105,26.

No entanto, quando o destino final é Macapá, no Amapá, os Correios levam vantagem, com uma tarifa de R$ 102,84 via PAC e entrega em 16 dias. Via Sedex, a entrega custa R$ 206,91, com 11 dias até o destino. O valor mais alto foi o da transportadora Loggi, que promete a entrega em 13 dias, por R$ 467,14.

Privatização é o caminho?

André Sacconato, economista e assessor da Federação do Comércio Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), defende que a saída seja a privatização ou a formação de uma Parceria Público-Privada (PPP). “Dificilmente um choque de gestão vai funcionar. Mas seria necessário um modelo de contrato no qual o vencedor levasse tanto o filé mignon como a carne de pescoço”, alerta. “Os Correios precisam continuar oferecendo seus serviços em locais afastados da Amazônia e do sertão. Caso não haja interessados, valeria a pena subsidiar os serviços e partir para parcerias”, sugere.

Na visão de Rocha, da Unicamp, há ainda um agravante no caso de um eventual leilão. “Devido à ampla e robusta estrutura já consolidada e enraizada, o vencedor do leilão teria um poder de fogo sobre a concorrência que certamente seria objeto de judicialização”, alerta. Na prática, explica o professor, o monopólio estatal seria substituído pelo privado. Rocha destaca, ainda, a função social dos Correios nos serviços de saques, por meio do Vale Postal, e pagamentos de contas de consumo e boletos. “Pelo histórico de outras privatizações, há o risco de as tarifas subirem exageradamente. Caso o processo não dê certo, a reversão de uma privatização é sempre negativa”, adverte.

Feldmann, da FEA-USP, argumenta que a única saída é a privatização. “Sou pessimista com as medidas anunciadas pelo governo”, critica o professor, enfatizando que os imóveis a serem vendidos são antigos e deteriorados e que o PDV não vai atrair funcionários acima de 50 anos, que vão priorizar a estabilidade no emprego. Com experiência na privatização da Eletropaulo, da qual participou, Feldmann sugere o fatiamento prévio da companhia em quatro partes para que a privatização seja feita em lotes. “Do contrário, vira monopólio”, observa.

Por outro lado, o economista Antonio Corrêa de Lacerda, coordenador do Programa de Pós-graduação em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita nas medidas anunciadas pelo governo. “A empresa desempenha papel econômico e social de relevância e uma privatização, sem um marco regulatório adequado, deixaria a descoberto parte expressiva da população de municípios distantes, não atrativos para empresas privadas. Portanto, a melhor solução, tanto do ponto de vista econômico, quanto do social, é a sua preservação, com as ações apontadas”, pondera.

Encrenca trabalhista

Além de tentar enxugar o quadro de 87 mil funcionários, os Correios enfrentam um turbilhão de processos trabalhistas em razão de disputas de acordos coletivos, horas extras, problemas de saúde e gestão de pessoal. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) referentes a novembro de 2025, há 75.173 processos ativos contra a empresa, o que a coloca como a maior réu trabalhista do País. “Em geral, os processos trabalhistas tramitam com rapidez, até por envolverem questões humanitárias. O que trava são os recursos e, no caso dos Correios, o grande volume de processos”, conta o advogado Luis Carmona, líder de recuperação judicial e falências no Costa Tavares Paes Advogados.

Segundo advogados envolvidos nas ações, o alto volume de processos reflete o descaso e a falta de investimentos em segurança e saúde do trabalhador, com o agravante do aumento da insalubridade na pandemia. Boa parte das ações envolve doenças ocupacionais dos carteiros, como lesões na coluna, joelhos e tornozelos. A estimativa é que a empresa tenha desembolsado mais de R$ 1,5 bilhão em condenações no ano passado. Em 2024, o valor havia sido de R$ 1,1 bilhão.

O que dizem os Correios

Uma eventual privatização não é descartada. Por meio de sua assessoria de imprensa, os Correios sinalizam a possibilidade de operações de fusões, aquisições e outras reorganizações societárias para fortalecer a competitividade da estatal em médio e longo prazos. Com relação à origem da crise, a empresa responsabiliza o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro pela falta de investimentos a partir de 2019, quando a companhia foi incluída no Programa Nacional de Desestatização (PND), medida revertida apenas em 2023 pelo atual governo. “Sem investimentos em modernização, os Correios deixaram de ser competitivos no novo cenário do mercado”, afirma o comunicado da empresa.

A situação agravou-se a partir de 2020, quando a pandemia reduziu significativamente o volume de correspondências tradicionais, acompanhada do crescimento das entregas de encomendas e da logística de última milha, o que exigiu maior eficiência, rastreabilidade e agilidade, ainda segundo os Correios. A partir de 2023, a estatal ressalta que aumentou a média anual de investimentos — de quase R$ 450 milhões entre 2019 e 2022 para mais de R$ 790 milhões — direcionados para áreas estratégicas como tecnologia, infraestrutura, logística, automação e renovação da frota.

A universalização dos serviços vai prosseguir, mesmo na crise, de acordo com o Plano de Reestruturação do governo. Por força de normas nacionais e internacionais, os Correios devem manter uma rede mínima obrigatória que alcance todos os 5.567 municípios brasileiros, inclusive em locais economicamente deficitários.

O Plano de Reestruturação dos Correios prevê três fases: recuperação financeira, consolidação e crescimento. Caso as ações previstas surtam efeito, a estatal estima redução do déficit ainda em 2026 e retorno à lucratividade em 2027.

BOX

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​2 (​M​AI/​JUN) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Guilherme Meirelles
Débora Faria
Guilherme Meirelles
Débora Faria