Os agentes de segurança pública na ativa há 30, 40 ou 50 anos estão tendo que lidar, neste momento, com a rápida evolução do crime, principalmente o cometido no mundo digital.
Esse é um problema que desafia não só os profissionais individualmente, mas toda a instituição. É o que explica Renato Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em entrevista à Revista Problemas Brasileiros (PB) e ao Canal UM BRASIL — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
“O alto crime sofisticado envolve, por exemplo, um cibercrime com criptoativos. Em casos como esse, é impossível um mesmo profissional aprender tudo ao mesmo tempo. Estou falando de gestão de equipes e das corporações”, comenta Lima. “É aí que se percebe que o crime está muito mais rápido do que a capacidade atual de organização pública e da legislação brasileira”, completa.
A íntegra da entrevista, em vídeo, conduzida por Vinícius Mendes, está disponível no Canal UM BRASIL. E confira abaixo os principais pontos da conversa.
Medo virou rotina em todo lugar. À Revista PB e ao UM BRASIL, Lima explica que a escalada dos crimes virtuais tem aumentado a sensação de insegurança não só fora de casa, mas também dentro dela. “Ter os dados vazados, usados de forma ilegal e acabar assumindo uma dívida que não é sua faz com que as pessoas entendam o problema da violência como central em suas vidas”, observa.
Crime desorganiza vidas e negócios. “Além disso, hoje, se sou furtado em um ponto de ônibus, vai junto o celular — e vai o dinheiro, o cartão e também a vida das pessoas. Elas, muitas vezes, demoram dias, meses, para poder ter suas vidas reorganizadas”, completa. De acordo com Lima, se no cotidiano das pessoas o impacto é grande, as empresas também sentem o tamanho desse efeito da insegurança em suas rotinas.
Insegurança traz prejuízo. Os reflexos econômicos da criminalidade também são grandes. Por volta de 5% a 10% da economia brasileira já está capturada pela lógica do crime, explica o diretor. “Isso afeta completamente a dinâmica que o Varejo ou o Serviço deve pensar para poder oferecer produtos. Não só para não adquirir produtos ilegais, mas, em especial, para embutir no custo de operação uma série de outras questões”, observa.
A alta do Custo Brasil. Lima refere-se à longa lista que envolve o segmento de segurança — por exemplo, atividades como seguros e serviços de vigilância privada para evitar o roubo dos produtos e garantir a integridade dos trabalhadores. É assim que a criminalidade acaba ajudando a inflar o chamado Custo Brasil, que é o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que tornam a produção e os negócios mais caros no País, reduzindo a competitividade nacional e aumentando preços.
Ilegalidade virou hábito. O crescimento dos serviços de segurança privada prestados por policiais na folga, de forma ilegal, precariza a vigilância, favorece milícias e põe a vida dos cidadãos em risco, explica Lima. No entanto, hoje, 18% da população adulta contrata esses agentes quando eles estão de folga.
Repercussões econômicas e legais. O especialista lembra, ainda, que a contratação desses serviços também fragiliza um setor econômico regulado: o das empresas formalizadas, fiscalizadas, que recolhem impostos. “Além de tudo, não se tem a mínima segurança de que o serviço será prestado ou se a pessoa não ficarárefém da prestação de um serviço ilegal no limite”, conclui Lima.