Um terço dos paulistanos faz apostas buscando aumentar a renda, aponta FecomercioSP

25 de maio de 2026

 

 Um terço (35%) dos paulistanos faz apostas em plataformas online com o plano de aumentar a renda doméstica de maneira rápida, segundo dados de um estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) sobre esses hábitos. O número representa um salto de 10 pontos porcentuais (p.p.) em comparação à pesquisa realizada pela Entidade em 2024. Por outro lado, caiu a proporção de pessoas que dizem apostar para investir, de 9%, em 2024, para 5%, em 2026. Quase 1 em cada 10 entrevistados (7%) diz estar viciado nos jogos.

Na leitura da FecomercioSP, os resultados são mais desafiadores quando vistos a partir do recorte das classes sociais: entre pessoas cuja renda não ultrapassa dois salários mínimos (cerca de R$ 3 mil), 40% apostam para elevar o orçamento doméstico. Essa proporção cai para 30%, na faixa entre dois e cinco salários, e para 29%, entre as famílias que ganham entre cinco e dez salários. 

O sinal é de que pessoas em situação de vulnerabilidade financeira têm recorrido cada vez mais a esse tipo de consumo de risco, como uma maneira de superar as condições difíceis do orçamento. 

Não é à toa, inclusive, que metade (50%) da população aposte com frequência — o mesmo número de dois anos atrás. Mas, entre as faixas de renda, as classes baixas e médias dizem se valer das plataformas com mais ênfase do que aquelas de rendimentos mais altos. Isso acontece porque são essas faixas que mais demandam a expansão da própria renda. 

Menos poupança, mais risco 

Nesse período, mudou também a destinação dos recursos usados para apostas caso as plataformas não existissem. Um quarto (26%) dos paulistanos diz, agora, que se não apostasse, guardaria esse dinheiro. Na pesquisa anterior, essa margem era de 19%. 

Os dados ainda apontam que parte significativa das pessoas usaria os recursos para consumos essenciais, como pagar as contas domésticas (14%) e comprar alimentos (13%). Nesse caso, as informações sugerem que as apostas disputam, agora, um espaço que antes estava ocupado pelo consumo tradicional das famílias — em atividades como o comércio, a alimentação e os serviços —, mas também à organização financeira dessas apostas. 

Entre os recortes de gênero, vale observar como as mulheres dizem que usariam o dinheiro para comprar comida (18%) mais do que os homens (11%). Elas ainda pagariam mais as contas (18%, contra 13%). Já homens guardariam mais (28%) do que elas (18%). 

Ajuda para apostar 

Embora a proporção seja pequena, a FecomercioSP considera importante notar o fato de 12% dos paulistanos terem buscado algum tipo de ajuda financeira para seguir apostando. Desses, 5% pediram dinheiro emprestado para amigos ou familiares, enquanto outros 4% ainda recorreram a empréstimos bancários. 

Sob a óptica socioeconômica, esse é um dos dados mais sensíveis da pesquisa, uma vez que revela que 1 em cada 10 paulistanos já teve problemas financeiros em apostar, e precisou recorrer a terceiros para regularizar a situação. 

O tíquete médio, porém, segue baixo, reforçando a percepção de que, no Brasil, prevalece a lógica do “pequeno apostador”: metade dos entrevistados (54%) afirma não gastar mais do que R$ 50 por mês nas bets, enquanto outros 16% gastam até R$ 100 e outros 12% investem até R$ 200 nas plataformas. São números parecidos aos de 2024, embora tenha crescido de forma significativa o número de quem gasta até R$ 100 com apostas. 

A leitura da FecomercioSP é pessimista: os dados mostram o contexto de uma cidade (reflexo do País) afetada socioeconomicamente pelo fenômeno. Isso aconteceu muito por causa da exposição cada vez mais intensa das plataformas nas redes sociais, mas também pela expansão dos meios de pagamento instantâneos (96% dos entrevistados pagam os jogos com PIX) e pela explosão de novas plataformas facilmente acessíveis por meio dos smartphones

Isso ocorre, porém, em meio a um quadro econômico complexo, marcado por endividamento e juros altos. Só a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Federação de abril mostrou, por exemplo, que 72,9% das famílias da cidade estavam endividadas, o maior nível em três anos. Em cada dez delas, duas (21%) estavam inadimplentes. 

A FecomercioSP segue pedindo às autoridades a implementação das políticas de regulamentação e fiscalização das apostas online (inclusive atenção às plataformas não autorizadas e ilegais) que possam impactar dados como esses, além de ajudar a elaborar programas de orientação e proteção aos consumidores que, hoje, integram esse universo. 

Redação PB
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