A luta de Dom Phillips

22 de junho de 2022

Sem explicações concretas e com informações desencontradas sobre a morte do jornalista Dom Phillips, 57 anos, a esposa do jornalista, Alessandra Sampaio, em entrevista à Amazônia Real, afirma que ele se preparou minuciosamente para a viagem ao Vale do Javari, como sempre fez em todas as jornadas. Isso incluía planejamento, leituras prévias dos locais que visitaria e contatos antecipados. “Não teve aventura nenhuma, foi tudo bem planejado”, conta.

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Na companhia do indigenista Bruno Pereira, 41 anos, também assassinado, ele buscava histórias para o livro que estava escrevendo com possíveis soluções para uma Amazônia sustentável, em que os povos indígenas e ribeirinhos são protagonistas. Uma delas é o trabalho desenvolvido pelos indígenas da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) no monitoramento do território para denunciar invasores.

Dom e Bruno desapareceram em 5 de junho, quando foram vistos pela última vez ao deixar a comunidade São Rafael, pela manhã, em direção ao município de Atalaia do Norte, na fronteira do Amazonas com o Peru. O trajeto pelo rio Itacoaí deveria ter sido concluído em menos de duas horas, mas eles não chegaram ao destino.

Na segunda-feira (13), a família de Dom recebeu uma ligação da Embaixada brasileira no Reino Unido informando que dois corpos haviam sido encontrados, mas ainda precisavam ser periciados. Alessandra repassou a informação para o jornalista da TV Globo André Trigueiro, que a divulgou nas redes sociais. Em questão de minutos, a Polícia Federal negou os fatos, causando ainda mais angústia para as famílias. Na terça-feira (14) a Embaixada pediu desculpas por informar erroneamente ao cunhado e à irmã de Phillips no Reino Unido.

“Ele falava que as pessoas só apontam os problemas em relação à Amazônia e o que ele tinha vontade é que esse livro [no qual vinha trabalhando] fosse um ponto de partida para a gente começar a refletir sobre soluções.” Alessandra Sampaio, esposa do jornalista britânico Dom Phillips

No domingo à noite, a Polícia Federal tinha informado que pertences de Bruno Pereira e de Dom Phillips haviam sido localizados próximos à casa de Amarildo da Costa de Oliveira, na comunidade São Gabriel. Alessandra não acreditava que eles estivessem vivos. “Tenho uma esperança e nunca vou deixar ela desaparecer, uma esperança fantasiosa, meio de um conto fantástico. Eu acho que o que aconteceu é que eles sofreram uma emboscada e não tiveram chance, que foi algo premeditado. E por isso eu acho que eles (Dom e Bruno) não estão mais aqui”, declarou à ocasião.

Alessandra aguarda por notícias em Salvador, na companhia da irmã, cidade onde ela e o jornalista optaram por viver desde 2021, em busca de uma vida mais amena e segura longe do Rio de Janeiro, após ele ser contemplado com uma bolsa da Fundação Alicia Patterson para produzir esse livro, que já tem quatro capítulos escritos em inglês e deveria ser finalizado até o final do ano.

Segundo ela, Dom tinha se preparado de maneira cautelosa para a viagem ao Vale do Javari, como sempre faz em todas as jornadas. Sempre foi praxe ele contar o passo-a-passo para Alessandra, desde com quem iria encontrar e quando isso aconteceria até informar números de telefones de pessoas que estariam com ele caso precisassem se comunicar. “Ele se programava, conversava com as pessoas, estudava a região, lia muito para entender se era uma região de conflito, conversou com o Bruno antes e ambos traçaram um planejamento. Ele também sempre mandava notícias para mim. Avisava que o avião tinha pousado, contava até que estava tomando um café no aeroporto.”

Cautela

O jornalista britânico, colaborador de longa data do jornal The Guardian, era muito cuidadoso com os depoimentos e entrevistas que fazia. Alessandra contou que Dom, ao voltar para casa, retomava as anotações, transcrevia as entrevistas e que o assunto entre eles era a Amazônia e, nos últimos tempos, o livro. “Ele falava que as pessoas só apontam os problemas em relação à Amazônia e o que ele tinha vontade é que esse livro fosse um ponto de partida para a gente começar a refletir sobre soluções. Ele se colocava num papel de comunicador, queria que o livro fosse um espaço para as pessoas poderem falar.”

Alessandra relata que ambos sabiam que Bruno era uma pessoa ameaçada pelo trabalho que desenvolve na região. Ela disse, porém, que Dom também sabia que ele era sistemático e atento à questão da segurança. “O Bruno já era ameaçado há muito tempo e a gente sabe disso. Se essas pessoas forem parar por causa das ameaças, realmente o movimento ambientalista vai acabar. Mas ninguém vai para um lugar desse achando que vai acontecer alguma coisa, ah, tão aventureiros que estão se arriscando num lugar que é perigoso.”

“O desaparecimento de uma pessoa que acabamos de receber para divulgar o nosso trabalho é muito triste. A gente só espera que o estado brasileiro tenha uma resposta que possa nos explicar o que aconteceu e que possa tomar as providências cabíveis.” WewitoPiyãko, indígena do povo Ashaninka

No último dia 7 de junho, o presidente Jair Bolsonaro comentou que os dois estavam “em uma aventura não recomendável” ao saírem sozinhos de barco. “Eu acho isso inconcebível. A expertise do Bruno para o local, uma área que ele conhecia tão bem, o comprometimento dos indígenas com ele, um cara extremamente responsável e cauteloso. Então, chamar de aventura é desqualificar tudo isso. Você fala que é aventureiro, parece que é um irresponsável que saiu ali junto de jornalista inglês e aí os dois morreram. E vão fazer o quê? Estão ali sem segurança. Não é bem assim.”

Dom e Bruno já tinham viajado juntos anteriormente para essa mesma região em 2018, durante uma expedição, e o jornalista admirava o trabalho do indigenista e a desenvoltura que ele mostrava em campo. “Dessa vez ele queria entender exatamente o que a Univaja faz nesse trabalho de monitoramento. Estava muito interessado nisso, os indígenas estão lutando pela sua casa, pela sua vida. Como você pode falar que uma coisa dessa não é justa?”

Rumo ao Acre

Foi esse mesmo interesse que levou Dom a percorrer o rio Amônia e chegar até a comunidade Apiwtxa, no município de Marechal Thaumaturgo, no Acre, para conhecer o trabalho dos indígenas do povo Ashaninka na preservação do território. O jornalista permaneceu na aldeia entre os dias 4 e 10 de maio e acompanhou as discussões da revisão do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kampa.

“Ele estava muito entusiasmado com a escrita do livro e mostrava uma preocupação em ajudar a Amazônia. Ele tinha clareza do que estava fazendo e estava familiarizado com o assunto”, afirmou Francisco Piyãko, liderança Ashaninka que recebeu Philips e conversou com ele sobre os planos de proteção e da necessidade de uma comunidade fortalecida e organizada para combater os invasores.

“Ele mesmo não se sentia ameaçado, não relatou nada sobre isso, mas havia um entendimento de que quem se levanta hoje para fazer essa defesa de alguma maneira é ameaçado. Ele sentia que ele tinha essa obrigação de dar visibilidade às coisas que estavam acontecendo, em ser o porta voz”, disse Francisco.

Ele conta que o jornalista se mostrou uma pessoa discreta, interessada nas discussões e à vontade com a vida na aldeia. “Deixamos ele livre para viver a nossa vida nos dias que ficou com a gente, falamos que era para se sentir à vontade, como se estivesse na casa dele.”

WewitoPiyãko, irmão de Francisco, também esteve com Phillips na comunidade e compartilha que a presença do jornalista foi muito bem recebida pelos indígenas e que as interações entre todos aconteceram para que ele pudesse entender o trabalho desenvolvido pela comunidade e as ameaças que também estão sofrendo.

“O desaparecimento de uma pessoa que acabamos de receber para divulgar o nosso trabalho é muito triste. A gente só espera que o estado brasileiro tenha uma resposta que possa nos explicar o que aconteceu e que possa tomar as providências cabíveis. Estamos tristes com a perda de mais uma pessoa que estava tentando ajudar a nossa Amazônia.”

Na última terça-feira (14), a Polícia Federal informou a prisão temporária de Oseney da Costa de Oliveira, chamado de “Dos Santos”, 41 anos, por suspeita de participação no caso do desaparecimento juntamente com Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”, que já se encontrava temporariamente preso em Tabatinga (AM). Segundo a PF, os dois são irmãos.

CONTEÚDO PRODUZIDO PELA EQUIPE DA AMAZÔNIA REAL.
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Maria Fernanda Ribeiro / Amazônia Real Intervenção na obra "Arbores ante Christum natum enatae in silva juxta fluvium Amazonum" (1850), de Carl Friedrich Philipp von Martius
Maria Fernanda Ribeiro / Amazônia Real Intervenção na obra "Arbores ante Christum natum enatae in silva juxta fluvium Amazonum" (1850), de Carl Friedrich Philipp von Martius
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