A chance de você ter ouvido isso na infância é de quase 100%. Conselho de vó, repreensão de mãe: “Manga com leite faz mal, dá revertério”. Aí, certos detalhes parecem não fazer sentido. Principalmente quando a sorveteria tem um apetitoso sabor manga — e nos ingredientes está lá o danado do leite. Ou no caso de alguns produtos industrializados, os ultraprocessados, que incluem ambos os ingredientes em suas formulações.
Então, antes de prosseguir, vamos de veredito: não, não faz mal nenhum botar manga no seu leite batido. E, se você gosta, fique à vontade para mandar um copão de leite logo após se deliciar com uma suculenta manga. É mito, garantem os especialistas.
Em artigo acadêmico de 2024, os pesquisadores Pedro Barros Viana, Advair Cardoso Pinto, Alessandro Tomaz Barbosa e Yonier Alexander Orozco Marin, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), classificam essa história como fake news. “Não há nenhuma evidência científica que interligue a manga e o leite para uma situação de mal-estar, salvo em casos específicos (intolerância a lactose ou algum tipo de alergia)”, escreveram. Os pesquisadores citam, inclusive, a utilização de derivados lácteos em combinação com a manga, “com o intuito de inserir [a mistura] na merenda escolar da rede pública do ensino fundamental”, acrescentando que tais alimentos atenderam à “demanda calórica proteica” e a combinação “foi aceita com sucesso […] sem relatos de mal-estar”.
“Trata-se de um mito, pois não há nada que comprove que a interação da manga com o leite cause mal-estar. As exceções são intolerância a lactose ou alergias”, confirma a gastrônoma e historiadora Camila Landi, professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Fato é que a lenda influencia o comportamento das pessoas, configurando aquilo que pode ser chamado de tabu alimentar — esta é a definição do estudo desenvolvido pelos pesquisadores Angélica Moreira de Meireles, Luana Matos de Souza, William Arthur Brandão, Henry Charles Brandão e Saraspathy Naidoo Mendonça, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
Os autores da pesquisa aplicaram um questionário entre os estudantes e concluíram que 65,5% deles não consumiam a mistura. “O comportamento dos entrevistados denota que estratégias de educação nutricional são importantes para a disseminação do conhecimento sobre as propriedades nutritivas da preparação do leite com a manga e sua repercussão sobre a saúde”, apontam no relatório.
Curiosa é a explicação que estaria na raiz da afirmação de que manga com leite faz mal, a gênese do tal tabu alimentar.
O mais provável é que tenha sido uma lenda criada durante o período escravocrata brasileiro. Seria uma lorota propagada pelos que detinham a posse da mão de obra escravizada para que esses homens e mulheres não consumissem nem leite nem manga — itens que eram de grande valia na época.
“A explicação mais comum é de que, sim, a crença de que essa fusão faz mal vem do período escravocrata no Brasil, disseminada pelos portugueses ao colonizar o território”, explica a historiadora Camila. “A construção da tese portuguesa era de que o consumo fazia mal e podia causar a morte. A fala existia por ambos serem insumos caros para se destinarem aos escravizados. Com receio e medo, eles não consumiam. Construiu-se, assim, o mito no imaginário das pessoas, passado de geração para geração”, completa.
A manga não é nativa da América do Sul. As mangueiras são de origem asiática e a fruta é símbolo nacional da Índia, do Paquistão e das Filipinas. Segundo Camila, a planta foi trazida para o Brasil pelos portugueses — que a conheceram no percurso das rotas comerciais marítimas que realizavam e nas colônias estabelecidas em solo asiático.
Por aqui, a manga adaptou-se muito bem às condições climáticas e há registros dela no Brasil colonial desde o século 17. É uma delícia e faz bem. “Ambos os alimentos, o leite e a manga, juntos ou separados, são fontes de muitos nutrientes benéficos para a saúde”, confirma Camila.