O mercado de cannabis medicinal superou as barreiras das leis proibicionistas e do preconceito e ganhou força nos últimos anos. No Brasil, movimentou quase R$ 1 bilhão em 2025, de acordo com a 4ª edição do Anuário da Cannabis Medicinal no Brasil, produzido pela consultoria Kaya Mind. A cannabis medicinal, após provar sua eficácia clínica — ainda que utilizada por diversas civilizações desde 1400 a.C. —, finalmente conquistou espaço e provou o seu potencial econômico. O anuário revela um aumento de 8,4% em relação a 2023 e projeta mais R$ 1 bilhão em receitas para este ano.
No dia 4 de agosto entraram em vigor um novo conjunto de regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que regulamentam o cultivo, a produção e a pesquisa com Cannabis sativa L. para fins exclusivamente medicinais, farmacêuticos e científicos no Brasil. As normas estabelecem critérios rigorosos para todas as etapas da cadeia produtiva, desde a aquisição das sementes até a produção dos insumos, reforçando mecanismos de rastreabilidade, controle sanitário e segurança.
Entre as principais mudanças está a autorização para o cultivo apenas por pessoas jurídicas previamente autorizadas pela Anvisa, como empresas, universidades, institutos de pesquisa e associações de pacientes. Essas instituições deverão obter Autorização Especial, atender a requisitos técnicos e sanitários específicos e manter sistemas permanentes de segurança, monitoramento e rastreabilidade.
As normas também estabelecem que o cultivo de variedades com teor de tetrahidrocanabinol (THC) igual ou inferior a 0,3% poderá ser destinado à produção de insumos para fins medicinais e farmacêuticos. Já o cultivo de variedades com concentração superior desse canabinoide permanece restrito às instituições de ensino e pesquisa autorizadas, exclusivamente para desenvolvimento científico, mediante exigências adicionais previstas na regulamentação.
Há três principais formas de os pacientes obterem a cannabis medicinal: por meio de produtos importados, de associações ou de farmácias, convencionais ou de manipulação, sempre com receita médica controlada. De acordo com os dados da Kaya Mind, em 2025, 41% dos pacientes utilizaram produtos importados, 34% compraram em farmácias e 26% foram atendidos por associações de pacientes.
Nos últimos anos, há uma queda da participação da importação e crescimento da parte de farmácias e associações como canais de acesso, resultado do aprimoramento da regulação brasileira e do crescimento do interesse da indústria farmacêutica por esse mercado. Ainda segundo a pesquisa da Kaya, mais de 873 mil pessoas utilizaram produtos à base de cannabis em 2025, um aumento de 30% em relação a 2024.
Apesar da expansão consistente do uso, a consultoria aponta um gargalo importante: apenas um 1% dos médicos habilitados prescrevem a planta no Brasil. Os pacientes ainda têm dificuldade de encontrar médicos prescritores, porque os cursos de medicina do País não oferecem a disciplina como obrigatória na grade, observa o médico e prescritor de cannabis Igor Bronzeado. “Na teoria, qualquer médico pode receitar, mas, como a maioria sai despreparada e sem esse conhecimento, acabam se negando a fazer a prescrição ou até a renovação da receita”, afirma.
A cannabis é formada por mais de 500 moléculas e as mais estudadas e utilizadas para produção de medicamentos são o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). Segundo Bronzeado, o THC tem efeito psicoativo e em altas doses causa a conhecida lombra. No entanto, as duas substâncias têm uso medicinal. “O CBD age de forma mais fraca com os receptores, então, podemos usá-lo em pacientes com ansiedade ou distúrbios inflamatórios mais leves. E o THC tem potência maior, indicado, por exemplo, para o controle da dor crônica”, explica.
Contudo, a discussão sobre os usos recreativo e medicinal ainda é cercada de polêmica, fruto, geralmente, do preconceito e da dificuldade de definição de limites mais claros entre um e outro. “A diferença, na verdade, é a intenção do uso. Imagine uma pessoa que passa o dia trabalhando, superestressada, e fuma uma pequena quantidade de maconha para dormir, sem nenhum exagero. É um uso recreativo ou medicinal? O uso é medicinal apenas quando vem de uma receita médica?”, questiona o médico, especializado no uso da planta no tratamento de crianças autistas.
A psiquiatra Eliane Guerra Nunes (CRM 61456; RQE 4647), diretora da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Sativa (SBEC), afirma que, do ponto de vista científico, o uso de princípios ativos extraídos da maconha está consolidado para o tratamento de várias doenças, como epilepsia, esclerose múltipla, insônia, Parkinson, ansiedade, autismo e cuidados paliativos. Mas ainda há muito a se pesquisar, pontua. “Desde 1992, sabemos do sistema endocanabinoide. Agora, abre-se um campo na genética, na pesquisa da suscetibilidade à metabolização em cada paciente e na verificação de quais tipos de óleos são mais adequados para cada patologia”, detalha.
Os preços dos produtos à base de cannabis medicinal variam conforme o canal de compra, a concentração do princípio ativo (CBD ou THC), o tipo de formulação e o fabricante. Um frasco de óleo pode custar entre R$ 300 e R$ 2 mil, um obstáculo financeiro a muitas famílias que dependem do tratamento contínuo, porque a medicação ainda não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
Fabiana Gomes é mãe de Andrew, de seis anos, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela conta que o processo de adaptação ao tratamento com cannabis medicinal exigiu paciência para encontrar a concentração ideal, mas que os resultados são notáveis. “Meu filho levou um ano para se adaptar à medicação, mas já vejo os resultados do milagre. A seletividade alimentar passou de severa para moderada, ele dorme melhor e tem mais autonomia. O doutor receitou outra concentração do óleo para aliviar no meu bolso. O vidro de 30 ml custa, pela associação, R$ 515 e dura quase quatro meses”, revela.
Fayra Vana, diagnosticada com altas habilidades e dor crônica, diz que seu único receio foi a questão financeira. “Tive dúvida se seria um tratamento meio salgado. Mas, não, porque compro na associação um vidro por R$ 300 a cada dois meses. No fim das contas, é mais barato do que outros remédios que eu já tomei”, relata. O uso do medicamento trouxe estabilidades física e cognitiva. “Estava muito deprimida, sentia dor o tempo todo, o que me incapacitava para a vida. Dependo quase que 100% do CDB para conseguir trabalhar. Eu reduzi de cinco remédios diferentes para o uso do óleo. E só utilizo outra medicação convencional em caso de crise”, compara.
O uso terapêutico da cannabis é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com o primeiro passo dado em 2015, mediante a permissão para a importação do produto. Em 2019, a Anvisa autorizou a fabricação e a importação de produtos à base da planta para fins medicinais, além de estabelecer os requisitos para a comercialização, a prescrição, a dispensação, o monitoramento e a fiscalização desses produtos.
Samuel Fehlberg, de 20 anos, tem uma condição genética rara, chamada Alan Dudley, que tem como principais sintomas crises de epilepsia e convulsões refratárias. Sua mãe, Jamile, lembra que, do nascimento do filho, em 2006, até 2014, viveu num limbo. “Todas as medicações prescritas eram muito fortes, com muitos efeitos colaterais. Até chegar à cannabis, foi um caminho longo. Esbarramos no preconceito e na burocracia e as associações ajudaram muito para melhorar a qualidade de vida do meu filho”, afirma.
A importação e as associações de pacientes tornaram-se a saída para pacientes e famílias em busca de tratamento. Cassiano Esperança, fundador e diretor-executivo da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace Esperança), organização sem fins lucrativos dedicada à promoção do acesso seguro e regulamentado à cannabis medicinal, assegura que o papel das associações foi lidar com o proibicionismo. “Reunindo um grupo de pessoas com o objetivo de constituir uma entidade, criar uma personalidade jurídica, pudemos levantar uma barreira de proteção aos envolvidos”, enfatiza.
As regras que entraram agora em vigor foram publicadas pela Anvisa em três Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs), flexibilizando alguns entraves relacionados à planta. Uma delas traz especificações e traça os requisitos de segurança e controle necessários para a concessão de autorizações especiais às instituições de ensino possam cultivar a planta para a realização de pesquisas científicas. Na análise de Eliane, conforme a regulamentação avança, é possível aumentar as possibilidades de estudar a planta e desenvolver as pesquisas necessárias à ampliação do uso.
A segunda regulamentação dispõe sobre os requisitos de rastreabilidade, o controle e a segurança para o cultivo da planta em território nacional pela indústria farmacêutica. Esse cultivo será destinado à produção de insumos que serão direcionados para a fabricação dos medicamentos derivados da cannabis.
De acordo com Gustavo Palhares, CEO da Ease Labs, indústria farmacêutica brasileira especializada em cannabis, um mercado mais regulado é importante para resguardar a saúde do paciente e a fiscalização. “Acredito que a formalização do mercado gere valor às empresas ingressantes no setor e às que já fazem parte desse sistema”, opina.
Por fim, a terceira norma atualiza o marco regulatório estabelecido em 2019. Dentre as principais mudanças, está a ampliação do acesso para pacientes com doenças debilitantes graves, como fibromialgia e lúpus, que passam a integrar o grupo autorizado a utilizar produtos à base de cannabis com concentração de THC superior a 0,2%. A norma também amplia as possibilidades de tratamento ao autorizar novas formas de administração, incluindo as vias transdérmica, sublingual, bucal e inalatória. O objetivo é atender pacientes com necessidades clínicas mais específicas.
A evolução regulatória e a capacitação médica são essenciais para que a planta medicinal cumpra o seu papel na saúde pública, segundo relatório da Kaya Mind. Contudo, após a publicação das RDCs, ainda não houve avanços dos editais com as regras.
Eliane, da SBEC, considera que os avanços regulatórios são passos importantes, mas a entidade defende a criação de uma agência específica para regular esse mercado. “Diante do potencial financeiro, a regulação deveria andar mais rápido. Ainda falta a liberação para o cultivo, pois a planta não foi descriminalizada. Dessa forma, penaliza-se o cidadão, que não tem o direito de ter e tem apenas o de comprar. Além disso, dificulta a entrada da planta in naturano SUS, o que seria o grande diferencial de acesso no Brasil”, finaliza.