A viagem de R$ 3 mil não cabe no orçamento, mas dez parcelas de R$ 300 cabem. A cultura do parcelamento, tão arraigada na vida financeira brasileira, ajuda a explicar um dos maiores desafios da economia nacional atualmente, o endividamento. A frase circula — com algumas variações — como meme, uma linguagem da internet que costuma representar bem as realidades sociais.
O geógrafo e pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp) Kauê Lopes dos Santos explica que grande parte das famílias das classes D e E encontra no parcelamento a única forma de acessar mercadorias mais caras. “O problema é que o parcelamento tornou-se uma dinâmica que já não opera única e exclusivamente nos bens mais caros, expandindo-se para a compra de alimentos e vestuário. É uma lógica que vai comprometendo o orçamento familiar de forma silenciosa e crônica”, avalia.
Santos acaba de lançar o livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia (Fósforo Editora, 2026), resultado de sua pesquisa com moradores de três bairros periféricos da Cidade de São Paulo, que aponta como a expansão do crédito formal transformou o consumo da população de baixa renda.
De acordo com o levantamento Radiografia do Endividamento, realizado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), 80% das famílias estão endividadas. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), traz um porcentual próximo de 72,5% de famílias com orçamento comprometido com parcelas. Um problema macro e microeconômico sem horizonte de solução no curto prazo.
No entanto, endividamento não é necessariamente ruim, como aponta Guilherme Dietze, assessor econômico da FecomercioSP. “É algo que pode ser positivo. Todas as economias crescem por meio do crédito”, destaca. Sustentado por um mercado de trabalho favorável, com o aumento da renda média e o arrefecimento da inflação nos anos pós-pandemia, o endividamento seguia em trajetória saudável no Brasil, acrescenta.
Contudo, a combinação de aumento da inflação e juros altos trouxe uma piora da qualidade do endividamento, tirando da estatística o aspecto saudável desse motor do consumo. “As famílias não estão conseguindo manter seus gastos com alimentação, habitação, saúde ou transporte. Assim, recorrem ao crédito não apenas para o consumo de bens duráveis, como geladeira e fogão, mas como um auxílio de renda para pagar contas. Esse é um crédito de baixíssima qualidade, porque não se sustenta no longo prazo”, pontua o economista.
Esse cenário agrava-se com a falta de perspectiva de aumento real na renda ou de novas contratações, uma vez que o País já está num patamar próximo do pleno emprego, com crescimento forte da informalidade, cujo aumento de ganhos, na maioria das vezes, não acompanha sequer a inflação.
E é aí que endividamento se transforma em inadimplência — quando as dívidas escalam de tal forma que o orçamento pessoal ou familiar deixa de ser suficiente para honrar os compromissos assumidos.
A mais recente sondagem da Serasa, divulgada em junho, mostra um total de 83,7 milhões de brasileiros inadimplentes. Segundo a instituição, são 18 meses consecutivos de alta, com um dado recorde na série histórica do indicador. Famílias inadimplentes ou altamente endividadas consomem menos, freando a atividade econômica, principalmente nos setores de Comércio e de Serviços, que, por sua vez, são os principais empregadores do País.
Apenas a cultura do parcelamento não explica, sozinha, como o endividamento chegou a um nível tão alto. Segundo especialistas, o endividamento crônico é impulsionado também pelo alto custo do crédito, aliado à maior facilidade de acessá-lo e à baixa educação financeira.
A preocupação é que os horizontes de curto e médio prazos ainda são de juros elevados e inflação pressionada. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a taxa básica de juros caiu para 14% ao ano, patamar que mantém o Brasil no alto do ranking dos países com a maior taxa de juros real do mundo, atrás apenas da Rússia, um país em guerra há mais de quatro anos.
Ainda que o mais recente boletim Focus, do BC, projete uma trajetória de queda da Selic, esta deve permanecer em dois dígitos até, pelo menos, 2029. Juros altos significam crédito mais caro. No caso da inflação, a expectativa é que feche este ano acima do teto da meta, em 5,02%.
Apesar de caro, o crédito é relativamente fácil de acessar. Ou está mais fácil. “A digitalização bancária e as fintechs trazidas pela pandemia ajudaram a aproximar o consumidor do crédito”, sinaliza Flávio Ataliba Barreto, pesquisador no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre). “O celular virou banco, loja e financeira”, detalha. Eliminar a burocracia e a necessidade de ir até uma agência ou uma loja para obter crédito apaga o tempo de reflexão que permitia que o consumidor desistisse de compras desnecessárias, por exemplo.
Além disso, o avanço do crédito digital, do PIX parcelado e dos cartões virtuais reduziu o atrito do pagamento, que existia na época do dinheiro em cédula. “Como a despesa fica virtualizada e distante no tempo, o consumidor percebe o benefício imediato da compra, sem a dor do pagamento”, enfatiza Barreto.
Aline Vieira, especialista da Serasa em Educação Financeira, afirma que cerca de 57% dos consumidores utilizam o crédito com frequência. “O desvio funcional grave ocorre quando o crédito deixa de ser um apoio pontual e passa a ser usado para cobrir despesas essenciais do dia a dia, como supermercado, moradia, contas recorrentes”, observa.
O cartão de crédito, lembra ela, lidera como a maior fonte de dívidas no Brasil. “Por ter as taxas de juros mais elevadas do mercado, um atraso de poucos dias gera um efeito bola de neve que surpreende o consumidor”, ressalta.
Se o endividamento é um problema multifatorial e estrutural, nos últimos anos soma-se ainda a questão das apostas online. Atualmente, não é possível falar em endividamento sem incluí-las entre os novos hábitos financeiros do brasileiro.
Ainda que vistas por muitos apenas como um entretenimento, as bets causam estragos consideráveis na saúde mental e financeira das famílias, tirando bilhões da economia que, antes, se destinariam ao pagamento de dívidas e ao consumo, além de serem, por si só, uma fonte de dívida.
A CNC calcula que cerca de R$ 144 bilhões deixaram de ir para o Comércio, entre janeiro de 2023 e março de 2026 para serem destinados às apostas. A estimativa é que cada R$ 1 bilhão gasto nas bets reduz em cerca de 0,7% o faturamento do varejo. “Uma pesquisa que a Federação realizou esse ano mostra que um terço dos apostadores estava optando pelas bets como uma forma de renda extra”, revela Dietze.
A Serasa reforça o que identificou a FecomercioSP. Segundo a pesquisa A Relação dos Inadimplentes com as Apostas, 29% dos endividados começaram a apostar em busca de dinheiro rápido e 27% procuravam uma renda extra – 44% dos endividados que apostaram em bets jogaram com a esperança de quitar suas dívidas.
Diante do cenário deletério para a economia, o governo federal lançou iniciativas na tentativa de salvar os endividados. Uma delas foi o programa Crédito do Trabalhador, que conta com a adesão dos bancos para oferecer taxas mais baixas, com garantia do desconto em folha e do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O objetivo do governo era que os trabalhadores trocassem dívidas mais caras pelo modelo consignado.
Já os programas Desenrola 1 e 2 tem foco nos inadimplentes, oferecendo a renegociação de dívidas vencidas. Segundo Barreto, da FGV, o balanço do programa mostra uma adesão recorde, mas ainda não é possível avaliar se houve uma mudança no padrão de endividamento. “O recorde de adesão não é, por si só, evidência de que o problema estrutural foi resolvido. Ele é compatível com a hipótese de que o desenho do programa reduziu a fricção para agir, tornando a renegociação uma decisão psicologicamente menos custosa do que continuar adiando o problema”, avalia.
Aline, da Serasa, enxerga os feirões de renegociação – como o da própria Serasa, que gerou 7,4 milhões de acordos na edição de março – e programas governamentais como um “respiro importante” para os endividados, mas não como uma solução. “Isoladamente, não acabam com a inadimplência, pois não alteram os fatores estruturais da economia”, observa.
Neste contexto, a falta de educação financeira entra na conta do alto endividamento. De fato, como lembra Barreto, existe um desconhecimento da população sobre a dinâmica dos juros e do custo do crédito. “A falta de percepção sobre a velocidade com que o juro sobre juro faz a dívida se multiplicar é um dos maiores causadores da insolvência familiar”, explica o pesquisador do Ibre, que também estuda economia comportamental e, em breve, lançará o livro Dinheiro, Mente e Felicidade.
O viés comportamental se difunde por todas as fases do orçamento, seja na renda ou na decisão de compra, ressalta. “A mente humana tende a valorizar o consumo imediato em detrimento do planejamento. Além disso, quando a renda aumenta, o comportamento padrão não é poupar mas, elevar o padrão de vida e o nível de consumo”, finaliza Barreto.