Preservar a imaterialidade

14 de agosto de 2026

Q

Quando a maioria das pessoas pensa em patrimônio, imagina pedra: as pirâmides de Gizé, um templo grego, uma catedral voltada para uma praça europeia. Monumentos perduram, e essa permanência pode parecer uma prova de sua importância. Mas, na América Latina — formada por 33 países, mais de 560 idiomas e milhares de culturas moldadas por séculos de diferentes processos de colonização europeia —, o patrimônio muitas vezes recusa-se a permanecer imóvel por tempo suficiente para ser esculpido.

Essa recusa, no entanto, não representa uma ausência, mas revela uma forma diferente de herança. “Para os latino-americanos, o patrimônio não reside necessariamente na monumentalidade, nem se limita aos grandes expoentes da alta cultura, geralmente reservados às elites dominantes”, escreve o arquiteto e urbanista Flavio de Lemos Carsalade no Atlas do Patrimônio Latino-Americano.

Enquanto o Egito registrou sua religião e sua política em inscrições construídas para sobreviver aos impérios, grande parte da América Latina carrega seu passado em algo muito mais difícil de preservar: a memória oral.

Isso pode ser ouvido no Equador, onde o pasillo — gênero musical inscrito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio cultural imaterial — mostra-se inseparável da identidade nacional. Cantado em diferentes regiões e por distintas classes sociais, reúne experiências cotidianas dos equatorianos, que se transformam num sentimento coletivo de pertencimento.

Essa memória também está presente nas histórias que pais e mães continuam contando aos filhos. O folclore brasileiro mantém seus ensinamentos vivos por meio de personagens como o Saci-Pererê, um malandro de uma perna só que simboliza a resiliência, e a Cuca, a velha assustadora evocada para alertar as crianças sobre perigos. Essas narrativas não são relíquias e continuam ensinando, adaptando-se a cada nova geração que as herda.

Passado vivido como ruptura

O passado está no centro de qualquer patrimônio. O que distingue um patrimônio de outro é a forma como esse passado foi vivido e quem teve o poder de definir seu significado. A América Latina experimentou sua história sob a longa violência da colonização, e a memória que sobreviveu é marcada menos pela continuidade do que pela ruptura. É justamente essa ruptura que torna o patrimônio da região tão dinâmico — e tão político.

Onde antes houve apagamento, preservar converteu-se num ato de vontade. Paraguai e Bolívia, hoje, reconhecem idiomas indígenas — como guarani, aimará e quéchua — como línguas oficiais, ensinadas nas escolas. A cultura reforça aquilo que a política inicia: a polca paraguaia, frequentemente cantada em guarani, transforma uma língua viva em patrimônio, renovado todas as vezes que pessoas comuns a interpretam.

Cada vez mais, o patrimônio na região é entendido como uma forma de resistência, tanto ao passado brutal quanto aos significados impostos por olhares externos. Essa resistência, porém, é frágil, porque muito do que protege não pode ser guardado atrás de vitrines. A Unesco considera o patrimônio imaterial vulnerável justamente por isso: este só existe enquanto for transmitido pelas pessoas que o carregam consigo e desaparece no momento em que essa transmissão é interrompida.

O Uruguai mostra como isso pode acontecer rapidamente. Durante décadas, o país construiu uma identidade nacional baseada na ideia de ser exclusivamente europeu, deixando pouco espaço às suas comunidades indígenas. A língua charrua pagou esse preço. Por muito tempo excluída da proteção oficial, desapareceu não apenas com o passar do tempo, mas também em consequência do abandono e do silêncio.

Não só o imaterial

Seria um erro, porém, reduzir a América Latina apenas ao patrimônio imaterial. Em Teotihuacan, ao norte da Cidade do México, enormes pirâmides sustentam uma das grandes cidades planejadas do mundo antigo, com avenidas e plataformas organizadas em volta de cerimônias e concepções cosmológicas. Esses monumentos não são estruturas isoladas, mas a espinha dorsal física de uma civilização — prova de que o patrimônio latino-americano também está gravado em pedra, e não apenas em canções. O que está mudando é a quem esse patrimônio pertence.

Em toda a região, o debate vem se afastando de uma visão elitista para adotar uma perspectiva mais democrática. A historiadora Silvia Capanema estabelece um contraste direto com o continente que durante tanto tempo definiu os critérios do patrimônio. “Não existe democratização do patrimônio na Europa”, afirma. “Os monumentos que vemos na Paris do século 19, embora não sejam oficialmente tombados como patrimônio, fazem parte de uma lógica elitista”, completa.

O Brasil buscou construir uma alternativa. A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) foi criada para aproximar pesquisadores e estudantes de toda a região, tratando a preservação do patrimônio (material e imaterial) como uma responsabilidade compartilhada.

Os museus seguem o mesmo caminho. Como escrevem as pesquisadoras Carina Martins Costa, professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e Aline Montenegro Magalhães, docente no Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP), onde também atua como chefe da Divisão de Acervo e Curadoria, as instituições latino-americanas buscam cada vez mais construir “redes de aprendizagem de zelo intergeracional”, valorizando a memória e a transmissão de experiências entre diferentes gerações.

A ideia que atravessa toda essa história é clara. Na América Latina, patrimônio não é um catálogo de monumentos admirados a distância, mas um esforço coletivo — cantado, ensinado, narrado e, sim, às vezes esculpido — para preservar um passado que outros tentaram apagar.

Em suas formas materiais e imateriais, sobretudo nesta última, o patrimônio tornou-se uma linguagem de solidariedade entre países e um silencioso ato de resistência. Uma região que insiste, repetidas vezes, em seu direito de lembrar.

A publicação deste conteúdo é fruto de parceria entre a Revista Problemas Brasileiros e o portal The Brazilian Report. Acesse aqui o material original, em inglês.

The Brazilian Report Débora Faria
The Brazilian Report Débora Faria