Brasil insone

25 de maio de 2026

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Cerca de 3 em cada 10 brasileiros têm problemas para dormir e 1 em cada 4 dorme menos do que o recomendado. A conta está no relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2024, do Ministério da Saúde. A pesquisa ouviu mais de 27 mil pessoas de todas as capitais e do Distrito Federal e perguntou: nas últimas quatro semanas, você teve dificuldade para pegar no sono? Acordou durante o sono e demorou para dormir novamente? Ou acordou antes da hora que gostaria e não conseguiu dormir de novo? As respostas trouxeram o diagnóstico, em linha com tendências internacionais.

O sono que teima em não chegar, despertares noturnos e horas insuficientes de descanso têm gênero, CEP e renda. Como muitos outros indicadores que medem a qualidade de vida da população, o sono é pior entre as mulheres, os mais pobres e em cidades com maiores índices de desigualdade.

Em capitais como Maceió, 27,9% das mulheres dormem menos de seis horas por noite. Em Salvador, 25,2%. No Rio de Janeiro, 24,8%. Entre os homens, os maiores porcentuais aparecem em Belém, com 24,8%; Macapá, com 23,8%; e São Luís, com 23,6%.

A distribuição dos dados também revela desigualdades regionais relevantes. Capitais como Florianópolis, Campo Grande e Porto Alegre apresentam as menores frequências de sono curto entre homens, com índices entre 12,5% e 13,8%. Entre as mulheres, os menores porcentuais ocorrem em Belo Horizonte, Campo Grande e Curitiba, com valores entre 15,5% e 16,3%. A variação sugere que o sono responde a fatores que vão além do indivíduo, incluindo condições urbanas, organização do trabalho, mobilidade e acesso a serviços de saúde.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno e deixam evidente que, em algumas capitais, até um quarto da população adulta dorme menos de seis horas por noite. Esse padrão, mesmo sem diagnóstico formal de insônia, está associado ao aumento do risco de hipertensão, diabetes, obesidade e transtornos mentais.

Dormir bem é saúde

O sono foi incluído como indicador na edição mais recente do Vigitel, com dados referentes a 2024, o que aponta para uma mudança importante de perspectiva na saúde pública. Ao fazer parte do relatório, o sono passa, então, a ser monitorado como fator de risco para doenças crônicas, ao lado da alimentação, da atividade física e do consumo de álcool.

A literatura científica aponta que tanto o sono curto quanto o excessivo estão associados a piores desfechos clínicos, especialmente quando não é restaurador. Estudos indicam que a combinação entre curta duração e baixa qualidade do sono amplia o risco de agravos cardiovasculares, metabólicos e psiquiátricos.

Esse cenário conecta-se a evidências internacionais recentes. Um estudo publicado na revista científica The Lancet, em 2022, aponta que entre 30% e 50% dos pacientes que chegam à atenção primária apresentam queixas de insônia. E uma revisão sistemática, publicada em 2025 na Sleep Medicine Reviews, estima que 16,2% dos adultos no mundo têm insônia clinicamente relevante, o equivalente a mais de 852 milhões de pessoas. Desse total, em torno de 7,9% apresentam formas graves do distúrbio — aproximadamente 415 milhões de indivíduos.

Quando se consideram diferentes critérios diagnósticos e recortes metodológicos, a própria revisão indica que a prevalência pode alcançar 18,5%, cerca de 973 milhões de pessoas. A variação reforça que a dimensão do problema depende da definição adotada, mas, em qualquer cenário, aponta para um contingente global expressivo de casos, com centenas de milhões de pessoas convivendo com formas graves de distúrbios do sono.

Quando analisados em conjunto, os dados indicam que o Brasil acompanha uma tendência global de piora do sono, mas com características próprias. A amplitude das variações entre as capitais, por exemplo, sugere que o problema não é homogêneo e está relacionado com desigualdades sociais, padrões urbanos e condições de vida.

Estudos populacionais apontam que entre 30% e 35% das pessoas apresentam sintomas de insônia em algum grau, enquanto aproximadamente 10% evoluem para quadros crônicos. Em alguns levantamentos, mais de 60% da população relata queixas relacionadas ao sono ao longo da vida, o que amplia o escopo do problema e indica um possível subdiagnóstico.

Toda noite mal dormida é insônia?

Clinicamente, a insônia é definida como dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, associada a prejuízos durante o dia, como fadiga, alterações de humor e comprometimento cognitivo. O diagnóstico considera frequência e duração. Para ser considerado insônia clínica, o problema precisa ocorrer ao menos três vezes por semana, por um período mínimo de três meses, mesmo quando há condições adequadas para dormir.

Apesar dessa definição, trata-se de um conjunto de condições que se apresenta de formas distintas. “Há a insônia de início, a de manutenção e o despertar precoce. E, muitas vezes, esses quadros têm apresentação mista”, explica Flávia Zuccolotto, psiquiatra, médica do sono e membro da Academia Brasileira do Sono (ABS). Queixa mais comum, a insônia de início pode indicar um estado de hiperalerta, frequentemente associado à ansiedade. Enquanto a dificuldade para pegar no sono costuma refletir estados de ativação mental, a insônia de manutenção costuma estar associada à fragmentação do sono por distúrbios respiratórios, dor ou outras condições clínicas. O despertar precoce aparece com frequência em quadros depressivos.

Para além do diagnóstico médico de insônia, existe o sono insuficiente, que é quando o indivíduo simplesmente não pode dormir a quantidade necessária de horas, seja pelas jornadas extenuantes de trabalho, seja pelo uso excessivo de telas, seja pela rotina instável. Nesses casos, o sintoma clássico é a sonolência ao longo do dia, com repercussões cognitivas importantes em atividades que exijam raciocínio e concentração ou naquelas que peçam habilidades específicas, como na operação de determinados equipamentos. Há consequências também para a memória, a produtividade, as tomadas de decisão e as relações sociais.

A literatura internacional é bem explícita ao associar sono de má qualidade a doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas, além de transtornos psiquiátricos. “Quando se soma a pouca disponibilidade para dormir com sintomas de insônia, o resultado é um sono curto, com várias repercussões desfavoráveis na saúde geral”, reforça Flávia.

Quando dormir é luxo

Uma parcela significativa da população não apresenta insônia no sentido clínico, mas privação de sono. Se a pessoa consegue dormir mais e recuperar-se quando o despertador está desligado, trata-se de privação de sono, uma diferença fundamental em relação à insônia, que é quando o sono não chega mesmo quando há tempo e condições adequadas para dormir.

Diferentemente da insônia, que pode demandar uma abordagem médica específica, a privação de sono exige principalmente ajuste de hábitos, ressalta Luciana Palombini, pneumologista e pesquisadora do Instituto do Sono. Dormir menos que o necessário, segundo a especialista, tornou-se comum nos grandes centros urbanos.

Jornadas extensas de trabalho, deslocamentos longos e múltiplas demandas cotidianas reduzem o tempo disponível para o descanso. O sono passa a competir com outras atividades e perde espaço na rotina. “Dormir bem tem papel importante na organização e na limpeza cerebral. A falta de sono interfere nesses processos, com efeitos que se agravam ao longo do tempo”, alerta Luciana.

‘Jet lag’ social

“Desde o advento da luz elétrica e com os dispositivos tecnológicos, passamos a invadir a noite, atrasando nossos ritmos biológicos”, explica Fernando Louzada, neurocientista e coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Paraná (Labcrono/UFPR). Esse atraso no horário de dormir, observa o neurocientista, não é acompanhado por um atraso equivalente no horário de acordar. O especialista acrescenta que a luz artificial interfere diretamente na regulação do sono. “Ela inibe a secreção da melatonina, hormônio que sinaliza a noite interna do organismo. Quando há exposição à luz após o anoitecer, especialmente a luz de telas, ocorre atraso no início do sono”, afirma.

Esse desalinhamento manifesta-se no chamado jet lag social. “Nos dias livres, as pessoas tendem a prolongar o tempo de sono, criando uma irregularidade entre dias úteis e fins de semana. Níveis elevados de jet lag social estão associados a alterações metabólicas e piora na saúde mental”, constata Louzada.

Do ponto de vista evolutivo, o problema também se evidencia. “Quando observamos o sono na sociedade atual, a média gira em torno de cinco horas e meia por noite, enquanto o ideal seria cerca de sete horas”, afirma Leo Pruimboom, médico fisiologista e diretor fundador do Instituto Pruimboom. Esse descompasso tem origem em fatores ambientais ligados à modernidade e ao afastamento de ambientes naturais.

Gênero e idade

As diferenças entre homens e mulheres aparecem de forma consistente nos dados dos mais importantes estudos publicados sobre o tema. A revisão da Sleep Medicine Reviews aponta prevalência de insônia de 18,9% entre mulheres, contra 13,4% entre homens. Nas formas graves, os porcentuais são de 9,9% e 5,9%, respectivamente. Os dados do Vigitel seguem esse padrão.

As explicações são múltiplas. Há influência hormonal ao longo da vida, desde o ciclo menstrual até a menopausa, além de fatores comportamentais e sociais, como as múltiplas funções entre trabalho remunerado, doméstico e de cuidado — tudo contribui para a piora da qualidade do sono.

No climatério, fase de transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo, até 60% das mulheres relatam sofrer de insônia em algum momento, de acordo com dados do Instituto do Sono. As causas, no entanto, não estão totalmente definidas, mas a queda na produção de alguns hormônios são algumas delas, uma vez que os estrógenos desempenham papel importante no relógio biológico, e sua desregulação pode alterar o ciclo natural do sono. Há, ainda, as alterações psicológicas, pois nessa fase é comum surgirem sintomas de ansiedade, depressão, oscilação de humor e irritabilidade, que dificultam o sono reparador.

Além dos sintomas físicos e emocionais, é na meia-idade que muitas mulheres se desdobram entre trabalho, cuidados com filhos e pais idosos e tarefas domésticas, o que gera estresse e prejudica o sono. A percepção dos sintomas também influencia os dados. “As mulheres tendem a procurar mais atendimento e a relatar mais sintomas, o que também contribui para a maior prevalência”, pontua Flávia, da ABS.

Quando se observa a faixa etária, as notícias não são boas, já que noites insones acometem as pessoas cada vez mais cedo. “Há evidências de que adolescentes e jovens adultos estão dormindo pior do que gerações anteriores”, aponta Louzada, da UFPR. “O uso intensivo de telas e a ampla disponibilidade de luz elétrica favorecem o atraso do sono”, detalha.

Adolescentes deveriam dormir de oito a dez horas — tempo fundamental para processos cerebrais de aprendizado e memória, construção de um metabolismo saudável e desenvolvimento hormonal. No entanto, uma pesquisa com mais de 120 mil jovens norte-americanos, publicada na revista científica JAMA, mostra que 76,8% dormem sete horas ou menos por noite, enquanto 23% dormem cinco horas ou menos.

Dormir bem é um sonho?

Apesar da alta prevalência, a insônia é tratável. O estudo publicado na The Lancet aponta a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como primeira linha de tratamento, com eficácia sustentada ao longo do tempo. De acordo com especialistas, o tratamento da insônia deve priorizar intervenções não farmacológicas, como reorganização da rotina, manejo do estresse e adoção de medidas de higiene do sono, descreve Luciana, do Instituto do Sono. “O uso de medicação pode ser indicado em situações específicas, por exemplo quando há associação com transtornos como depressão, mas deve ser feito com cautela e, preferencialmente, por curto prazo, para evitar o risco de dependência”, orienta.

Nesses casos, os fármacos podem auxiliar no relaxamento, na indução do sono ou na redução de despertares, mas o seu uso prolongado está associado a dependência, prejuízo cognitivo, risco de quedas e comportamentos complexos durante o sono. O uso inadvertido do hemitartarato de zolpidem, por exemplo, transformou o medicamento em um problema de saúde pública no Brasil, segundo uma nova diretriz clínica nacional da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), publicada na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria. É o primeiro consenso brasileiro sobre abuso, dependência e manejo seguro dessas substâncias.

Por isso, diante dos primeiros sinais de insônia, a orientação do Ministério da Saúde é buscar atendimento por meio da Atenção Primária à Saúde (APS), que tem a função fundamental na identificação precoce de sintomas que necessitem de mais atenção. Insônia tem tratamento e dormir bem é um direito.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​2 (​M​AI/​JUN) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Moura Leite Netto
Débora Faria
Moura Leite Netto
Débora Faria