Uma cruzada contra a nicotina

20 de outubro de 2026

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Mais de 2,5 milhões de brasileiros receberam tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) para deixar de fumar em 2025, um recorde do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT). Todo o processo é gratuito: o paciente passa por sessões de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) em grupo e, sob recomendação médica, pode receber medicamentos e reposição de nicotina. A combinação de remédio com intervenção comportamental oferecida pelo SUS contempla o que está previsto nas mais recentes diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O Brasil é referência internacional no controle e no tratamento do tabagismo. Desde a década de 1990, sabemos que a doença deve ser abordada com TCC — treinar o paciente para ocupar a mão, a boca e o pensamento com outras coisas”, explica a pneumologista Maria Enedina Scuarcialupi, coordenadora da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). A médica relata que o programa público tem qualidade e médicos da rede particular costumam encaminhar seus pacientes para o tratamento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Desvio de rota

O número de pessoas que buscam se livrar do cigarro é digno de comemoração, mas não mostra o cenário todo. No Brasil, a prevalência de fumantes vinha caindo consistentemente há mais de duas décadas, mas aumentou entre 2023 e 2024, de 9,2% para 11,5%, de acordo com o relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2024, do Ministério da Saúde

Entre 2006 e 2024, houve redução do tabagismo no total da população, de 15,7% para 11,5%. Entre os homens, a redução foi de 19,5% para 13,9%, enquanto o tabagismo entre as mulheres caiu de 12,4% para 9,5%.

No entanto, quando consideradas as diferentes faixas etárias, a realidade é outra. A maior redução está entre os fumantes de 45 a 54 anos, que passaram de 22,8%, em 2006, para 12,4%, em 2024. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a proporção de fumantes era de 12,2% em 2006 e chegou ao menor dado da série em 2021 (6,2%), mas saltou para 13,2% em 2024. Resultado, segundo os especialistas, do consumo de dispositivos eletrônicos com nicotina. Por terem odor mais agradável, sabores diversos e não irritarem a garganta como o cigarro tradicional, os dispositivos acabam levando a um consumo mais frequente.

“Os dispositivos eletrônicos usam o sal da nicotina, que é avassalador. O marketing diz que é inofensivo, mas o Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMSUP), foi um dos primeiros a alertar que eles liberam ainda mais nicotina no organismo. Nossa pesquisa dosou a nicotina na saliva de fumantes e encontramos índices seis vezes maiores em usuários de dispositivos eletrônicos do que na de quem consome o cigarro convencional”, aponta a médica Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor.

Vanguarda contra o cigarro

O Brasil é reconhecido internacionalmente pela adoção de um conjunto abrangente de políticas de controle do tabaco, alinhadas com a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) da OMS. Dentre elas, destaque para a proibição da propaganda de produtos de tabaco, a restrição do fumo em ambientes coletivos fechados e a obrigatoriedade do uso de advertências sanitárias com imagens e mensagens nas embalagens de cigarros.

Embora reconheça o esforço do poder público, Maria Enedina, da SBPT, lembra que há uma indústria poderosa por trás dos produtos de tabaco, que, agora, tenta seduzir com os dispositivos eletrônicos. Por isso, ela defende que o País reforce tanto o tratamento quanto a prevenção. “Ainda faltam programas estruturados nas escolas para falar sobre os riscos do tabagismo, assim como se fala da importância das vacinas e do uso de preservativos. O foco da indústria é o menino e a menina de 13 a 14 anos, a idade da experimentação”, adverte.

Há necessidade de melhoria também no tratamento. Atualmente, o SUS tem disponíveis os adesivos de nicotina, para lidar com a abstinência, e o medicamento à base de bupropiona, usado para reduzir a vontade de fumar. “Temos ido a Brasília para pedir a inclusão da vareniclina, substância mais eficaz. Pode parecer caro, mas evitar tratar cânceres, infartos e enfisemas sai mais barato no fim”, opina Maria Enedina.

Os estragos do tabagismo acontecem nas esferas individual e coletiva. O cigarro está associado a mais de 50 doenças, como diferentes tipos de câncer e doenças cardiovasculares e respiratórias. No Brasil, o tabagismo é responsável por 90% das mortes por câncer de pulmão e a conta chega para toda a sociedade. Um estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca), de 2025, mostrou que o tabagismo gera custos médicos diretos de R$ 67,2 bilhões por ano. Os gastos indiretos, que incluem a perda de produtividade, chegam a R$ 86,3 bilhões. No ano passado, a arrecadação com os impostos sobre produtos de tabaco cobriu menos de 10% desse valor.

Esforço amplo

Para os dependentes, contudo, parar de fumar é um desafio árduo. Além da adição química provocada pela nicotina no cérebro, é preciso quebrar o hábito e a dependência emocional. “Sem nicotina, é comum ocorrerem tremores, suor e insônia. Além disso, é comum ouvir do fumante que o cigarro é um amigo, que está sempre junto, nunca falha”, descreve Maria Enedina.

Com 16 anos de experiência no tratamento de fumantes, a psicóloga Rosangela Vicente, que trabalha no programa PrevFumo — Núcleo de Prevenção e Cessação do Tabagismo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conhece bem o vínculo emocional que as pessoas estabelecem com os produtos de tabaco. “Todos passamos por situações difíceis na vida. Quem não fuma, vai criando várias ferramentas para lidar com emoções como o estresse, a tristeza ou o tédio. O fumante só tem uma estratégia”, pontua.

Rosângela defende que o primeiro passo é que os próprios fumantes entendam que não se trata de “falta de vergonha na cara”, mas de uma doença. Portanto, o programa oferece informações científicas de forma clara sobre as substâncias que existem nos cigarros e o que provocam no corpo. “Eles ouvem muitas críticas por fumar, mas é importante encararem como uma doença, uma dependência química. A parte boa é que essa é uma doença que tem tratamento”, destaca. E mesmo quando há recaídas, os pacientes continuam sendo bem-vindos no programa.

Os grupos presenciais podem ter de 15 a 40 participantes, em geral com perfis variados, com idades de 18 a mais de 80 anos. O contato entre eles ajuda a se manterem no tratamento. “Os mais novos às vezes assustam-se quando veem os mais velhos doentes e digo que estão tendo uma oportunidade de mudar seu envelhecimento. Além disso, para os mais velhos, mostramos que devem olhar para frente, que parar vai ser sempre melhor que continuar”, pontua a psicóloga.

Tratar questões de saúde mental com remédios seguros e sob orientação médica também pode ser um passo decisivo para cortar a dependência do tabaco. “Metade dos usuários tem distúrbios de humor, quadros não diagnosticados, e encontra no tabaco uma forma de aliviar a ansiedade e até a depressão. É como se fosse uma automedicação”, afirma Jaqueline, do Incor.

Além de avaliação psiquiátrica e medicação específica, a médica aplica uma técnica comportamental para descondicionar o ato de fumar, o “fumar restrito”. “Explico ao paciente que ele pode fumar quando quiser, mas tem que se afastar de todo mundo, ficar de pé olhando para uma parede. Ele tem que fumar com consciência. Com o tempo, vai reduzindo, até porque dá preguiça. Com ajuda da medicação, num prazo entre três e quatro semanas, a pessoa acaba largando o cigarro”, conta.

Segundo a médica, o fumar restrito é fácil e tem ótimos resultados. Portanto, atualmente ela quer propagá-lo e testá-lo em mais realidades. “Com tratamentos ruins, a pessoa tenta parar e fica frustrada. Assim, acaba caindo no marketing da indústria que o tempo todo cria novos produtos, com a alegação de que são mais seguros. Antigamente, eram filtros para diminuir os teores; agora, são os dispositivos eletrônicos”, observa.

Na opinião de Jaqueline, várias sociedades médicas brasileiras, como as de pneumologia, cardiologia, oncologia e pediatria, uniram-se para fazer frente ao lobby da indústria do tabaco, que tentou mudar o posicionamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a proibição dos dispositivos eletrônicos. “Não vamos recuar um milímetro sequer. O comércio ilegal existe, mas o problema é infinitamente menor do que teríamos com a liberação”, reitera.

A médica do Incor acredita que a quantidade de fumantes vai se estabilizar nos próximos anos e que não deve haver uma inversão profunda na tendência de queda do tabagismo. Maria Enedina, da SBPT, concorda, mas continua firme na luta para que os fumantes larguem o tabaco e que os demais nunca fumem. “Temos de tomar cuidado com um discurso pessimista, de guerra perdida. Tivemos, sim, um aumento, mas não vamos jogar a toalha. O trabalho de combate mantém-se”, finaliza.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria