É verdade que a Amazônia pode virar um deserto?

16 de outubro de 2026

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Em termos. Na verdade, o vocábulo mais correto para o atual processo de deterioração da principal floresta do planeta é “savanização” — e não desertificação. O que não diminui, de forma alguma, a gravidade da situação.

O fenômeno é resultado direto do desmatamento que vem, gradualmente, destruindo a Amazônia, bioma que tem, naturalmente, uma “extraordinária capacidade de reciclar a própria água”, como aponta a engenheira cartógrafa Carla Madureira Cruz, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e organizadora do livro Emergência climática (Editora ICH, 2026).

Carla explica que entre 30% e 40% da chuva na Amazônia é gerada pela própria floresta: o solo absorve a água, as raízes das árvores levam-na até as folhas e a transpiração devolve esse vapor à atmosfera, formando os chamados rios voadores. Quando o desmatamento avança, esse ciclo se rompe — menos árvores significam menos chuva reciclada, estações secas mais longas, mais incêndios e mais árvores mortas, um verdadeiro ciclo de retroalimentação. “Somado ao aquecimento global, esse processo pode levar a floresta a um limiar crítico, o ponto de não retorno, a partir do qual ela perderia a capacidade de se regenerar sozinha”, pontua.

Esse processo já está acontecendo. O biólogo Mairon Bastos Lima, pesquisador no Instituto Ambiental de Estocolmo, na Suécia, observa que a estação seca da Amazônia, normalmente de setembro a novembro, vem se tornando cada vez mais longa e intensa. “Em termos relativos”, afirma, “é possível pensar que o bioma equatorial úmido está gradativamente adquirindo aspectos de deserto, com rios plenamente secos em parte do ano”. O biólogo fala em “deserto intermitente”, considerando que as características estão presentes em parte do ano. “Estamos assistindo à transformação da área para uma situação em que há água em parte do ano e, em outra parte, o ambiente é tão seco que não atende mais às funções do bioma e às socioeconômicas”, alerta.

Nesse ponto, o fenômeno pode ser definido como colapso ecológico, com consequências globais. Os rios voadores não fazem chover apenas na Amazônia, levando água a regiões agrícolas do Centro-Oeste e do Sudeste brasileiros e influenciando até o clima da China. “Acabar com isso não é um tiro no pé. É um tiro no peito”, observa Lima.

Alerta de décadas

Esse alerta vem sendo dado por especialistas desde os anos 1990 — o climatologista Carlos Nobre é a referência basilar nesses estudos. De lá para cá, a compreensão do fenômeno é consensual entre os cientistas sérios que se debruçam sobre questões climáticas e ambientais.

Professor em um colégio paulistano e mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), o geógrafo Sergio de Moraes Paulo conta que Nobre criou o termo “savanização” para definir o que acontece com a Amazônia, uma região que tende a “se transformar em algo mais semelhante ao Cerrado e, em casos mais extremos, à Caatinga”. Estudos contemporâneos, pontua, já mostram que o período seco na Amazônia aumentou de três a quatro semanas em relação à era pré-industrial.

A engenheira Carla lembra que Nobre cunhou o termo savanização em 1991, quando publicou os primeiros artigos científicos sobre o tema. “Ele indicou que a estação seca do sul da Amazônia, que hoje dura de três a quatro meses, passaria a durar seis meses, tempo considerado insuficiente para a floresta tropical se manter de pé, o que daria lugar a uma savana degradada, e não a um deserto de areia como o Saara”, detalha.

Questão de tempo

Segundo Lima, não é possível estimar com segurança quanto tempo levaria para a Amazônia tornar-se um deserto, pois trata-se de um fenômeno crescente, com sobes e desces e variação sazonal. “Mas estamos caminhando gradualmente para estações secas cada vez mais intensas”, confirma.

Por sua vez, Paulo estima que, se nada for feito, esse processo de deterioração irreversível da Amazônia ocorrerá daqui a 15 ou 25 anos, mais ou menos. “Não seria algo tão severo quanto um deserto como o Saara, mas algo entre o Cerrado e, nos casos mais graves, como a Caatinga observada entre o norte de Minas Gerais e o interior da região Nordeste”, reitera, dizendo, ainda, que tem havido um certo consenso de que os níveis de desmatamento que impediriam a reversão desse processo seriam de 20% a 25% da floresta.

Alguns estudos apontam que, até o momento, o desmatamento alcançou entre 17% e 18% da floresta. “Isto é, estamos muito próximos do ponto de não retorno”, adverte. “Mas ainda há tempo, ainda temos chances de reversão”, ressalta.

Regenerar o verde

Segundo os especialistas, apenas frear o desmatamento não é suficiente para salvar a floresta. É necessário reverter o dano já causado ao bioma. “É preciso transformar as áreas que foram colonizadas por pastagens nos últimos 30 a 40 anos para que voltem a ser Amazônia”, afirma Lima, do Instituto Ambiental de Estocolmo.

Carla salienta que, embora haja esperança, “a janela de oportunidade está se fechando”. Ela endossa o entendimento científico de que é preciso atuar em quatro frentes para recuperar a Amazônia: fazer da agropecuária uma atividade regenerativa e neutra em emissão de carbono; interromper completamente o desmatamento; efetuar plenamente a transição energética; e implementar um amplo programa de restauração da floresta. “Um imenso desafio, sabemos bem. Mas possível, com metas imediatas”, opina.

Caso nada seja feito, os efeitos serão catastróficos. As consequências negativas da savanização da Amazônia seriam graves em grande parte da América do Sul e, em relação aos aspectos climáticos, em boa parte do planeta, com impactos ambientais, sociais, econômicos e geopolíticos. “Ambientalmente, a morte de grande parte da floresta liberaria uma enorme quantidade de carbono na atmosfera, contribuindo para agravar ainda mais o processo de aquecimento global em curso”, enfatiza Paulo. “Com a redução das chuvas, teríamos graves problemas para o abastecimento dos reservatórios que atendem à vida de todos nós e de diferentes atividades econômicas”, acrescenta.

Edison Veiga
Débora Faria
Edison Veiga
Débora Faria