Elevadores desiguais

13 de abril de 2026

É

É do célebre sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930–2002) o argumento contrário ao do dom natural de algumas pessoas que, nascidas em estratos sociais baixos, conseguem ascender vertiginosamente, muitas vezes até o topo da pirâmide. Na época em que Bourdieu escreveu a sua obra-prima — A distinção: crítica social do julgamento, publicada em 1979, na França —, essa era uma justificativa óbvia para casos sociais como os de intelectuais ou artistas de origem pobre que, pela própria genialidade, tinham enriquecido o que, em condições normais, demoraria várias gerações para acumular. No Brasil, é a explicação para alguns elevadores sociais específicos, como o do futebol ou o da música, associados ao talento natural de saber jogar bola, compor canções ou tocar um instrumento.

“Entretanto, segundo Bourdieu, o dom natural era justamente uma forma socialmente criada para legitimar a desigualdade”, aponta o sociólogo Edison Bertoncelo, professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). “Na verdade, além da tendência de que os indivíduos fiquem nas mesmas classes que seus pais e avôs, o que apontaria para alguma ascensão seria, na lógica bourdieusiana, conseguir entrar no sistema do capital cultural — como com um diploma universitário —, o que é, por sua vez, legitimador daquilo que, herdado das famílias, parece um dom, como os gostos ou as posturas, por exemplo”, continua.

Bourdieu, que chegou a ser o intelectual mais famoso do mundo antes de morrer, no começo deste século, voltou à esfera pública nos últimos anos, mas para além dos seus complexos livros — é de suas reflexões que se extrai, atualmente, a ideia mais comum do que é mobilidade social. “Em um passado recente, esse conceito estava atrelado à ascensão econômica, isto é, a ter mais dinheiro do que a geração anterior ou que as pessoas que nasceram em uma mesma época. É o caso do jogador de futebol que, nascido em um bairro periférico, se torna uma estrela multimilionária”, prossegue Bertoncelo. “Hoje, e muito por influência de Bourdieu, mobilidade social envolve uma série de outros elementos que ele congregava em capitais: o cultural (diploma), o social (contatos), o econômico (bens) e o simbólico (síntese dos demais). É a soma deles que determina o movimento de alguém entre as classes”, detalha o sociólogo.

Percurso mais longo, destino restrito

É o caso do economista Michael França. Filho de uma trabalhadora doméstica, ele atravessou todo o percurso acadêmico colecionando legitimações institucionais de algumas das principais universidades do mundo, como a própria USP e, ainda, Columbia e Stanford, ambas nos Estados Unidos. Ascendeu significativamente, embora não seja rico, como diz no recém-lançado A loteria do nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico (Jandaíra, 2025), que escreveu ao lado do também economista Fillipi Nascimento.

Esse é um tipo significativo de mobilidade e, curiosamente, que se dá por meio de um mecanismo que ele critica em seu livro: o da educação, tal como defendia, de alguma forma, Bourdieu. Segundo França, a loteria do nascimento envolve não só a classe em que uma pessoa nasce, mas também — no caso do Brasil — a cor da pele e o gênero, entre outras variáveis. “É por isso que a diferença na renda de brancos e não brancos continua, mesmo quando eles têm o mesmo nível de escolaridade”, afirma. “Não se trata apenas de ascender pelo diploma, mas também de que sujeito social você é, efetivamente”, compara o economista.

De acordo com os dados de França e de outros colegas, publicados há alguns meses na revista acadêmica The Journal of Development Studies, pessoas não brancas ganham, em média, 31% menos do que brancas no Brasil — uma taxa que cai timidamente, para 27%, quando os níveis de escolaridade entre ambos os sujeitos são equiparados. É por isso que, para ele, o País deveria avançar no debate da inclusão do capital cultural, superando o senso comum de que a universidade é a grande alavanca de ascensão, destaca o economista. “A desigualdade começa quando a população negra, por exemplo, chega ao fim do ciclo básico escolar com uma formação ruim. Enquanto isso, elites estão cada vez mais concentradas nas pós-graduações de renome, de onde saem para os melhores empregos e onde fazem contatos que repercutem na carreira delas”, compara.

É interessante, constata Bertoncelo, como o diploma oferece uma ascensão muito específica que, necessariamente, não enriquece, mas insere muitas pessoas em círculos sociais ascendentes, como a carreira da docência ou algumas profissões liberais. “A pessoa adquire um capital significativo para sair da classe em que estava quando criança”, define. Mas, do ponto de vista econômico strictu sensu, qual é a chance de um brasileiro nascido em uma família das camadas mais baixas ascender a ponto de chegar ao grupo dos 10% mais ricos. Isto é, de enriquecer, de fato?

Escalando a pirâmide

Pesquisadores de algumas universidades brasileiras e de outras instituições no mundo debruçaram-se sobre a literatura atual e, fundamentados nela, elaboraram o Atlas da Mobilidade Social — plataforma que calcula as chances porcentuais de ascensão com base nos estratos de renda. “É um trabalho gigantesco de manejo de dados”, conta Leandro Rocha, pesquisador no Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), responsável pela publicação. “Reunimos informações de pessoas, dos anos 1980 a 2019, a partir de informações da Receita Federal, do Cadastro Único (CadÚnico) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), para fazer essas junções entre as famílias e observar quais as chances de uma criança estar em percentil social superior ao dos seus pais quando estiver na vida adulta. Portanto, é a mobilidade intergeracional — e ela é bastante baixa”, anuncia.

Segundo dados de 2024, a chance de um indivíduo nascido na metade da população com menor renda chegar à classe dos 10% mais ricos era de 1,81%. Por outro lado, a possibilidade de esse sujeito permanecer no mesmo estrato era de 66,6%. “A desigualdade na largada é um dos grandes diferenciais”, explica Rocha. “Ao se notar o ciclo de vida de uma criança que nasce em uma família pobre, percebe-se que ela não tem acesso à creche, não recebe boa educação formal na primeira infância, entra na escola defasada e, quando termina o processo, não está apta a assumir uma posição razoável no mercado de trabalho”, continua. “Em resumo, enquanto a educação pública for de baixa qualidade, ainda mais em comparação com a educação privada, essa situação vai se perpetuar”, adverte.

Os números do Atlas não são tão diferentes dos encontrados pela Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) em um estudo robusto publicado em 2018. Na média dos países-membros da entidade, a persistência da renda entre as gerações estava em 40% na época da pesquisa — o que significa que, se uma família possui uma renda duas vezes maior do que outra em um dado momento, seus filhos e filhas terão, da mesma forma, uma renda 40% maior do que os filhos e filhas da outra. No Brasil, essa taxa é de 70%, segundo a OCDE.

O economista Ignacio Flores, coordenador para a América Latina no World Inequality Lab (WIL), projeto conjunto da francesa Paris School of Economics (PSE), em Paris, e da Universidade Berkeley, nos Estados Unidos, avalia que é por esse motivo que as desigualdades sociais não devem ser examinadas sem que seja considerado o patrimônio familiar. 

Flores — ao lado de nomes mais famosos, como o do economista francês Thomas Piketty, codiretor da WIL  — tem discutido com as pesquisas produzidas no Brasil que apontam uma redução do abismo social no País, e justamente a partir desse critério. No fim do ano passado, o laboratório publicou um relatório apontando justamente o contrário: que a desigualdade brasileira aumentou ou, se não, pelo menos manteve-se estável.

A discussão ocorre porque, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, os 10% mais ricos do País recebiam 13,4 vezes mais do que os 40% com menores rendimentos — uma diferença que já foi de 17 vezes. Logo, apoiando-se nessa retração, conclui-se que a desigualdade diminuiu. O laboratório de Flores e Piketty, no entanto, mostra que, entre 2001 e 2020, a renda média dos 10% mais ricos subiu 316%, enquanto a dos 50% mais pobres aumentou 265%, uma diferença de 51 pontos porcentuais (p.p.).

Segundo Flores, são as dinâmicas do patrimônio que geram fluxos de renda. E a renda do trabalho pode cair num determinado intervalo, não apenas por si só, mas porque ela é medida por pesquisas quantitativas de sondagem. “E aí vem o meu ponto: quando os dados das diferenças entre os grupos são analisados, é preciso incluir na conta os bens de capital. Ao fazer isso, fica claro que esse crescimento brasileiro é desigual, porque beneficia sempre os mais ricos”, enfatiza Flores.

O raciocínio do economista segue em linha com o estudo de 2018 da OCDE, porque, de acordo com Flores, basta verificar como o 1% mais rico do Brasil detém um terço dos rendimentos do País, em uma conjuntura que se mantém há, pelo menos, 20 anos. “Isso significa, então, que para cada real que a economia brasileira cresce por ano, 30% do resultado vai para os bolsos desse grupo. Mecanicamente. E não é só isso, porque o Brasil cresceu mais do que isso nos últimos anos. É uma distinção brutal”, ressalta.

Raça, gênero e geografia

Essas discrepâncias também se alteram de acordo com outras variáveis. Um brasileiro que nasce no Nordeste na metade da população de renda mais baixa tem 1,35% de chance de chegar, um dia, ao topo dos 10% mais ricos. No Sudeste, essa taxa quase dobra (2,32%). O mesmo ocorre quando a variável muda para a chance de alguém, nas mesmas condições, chegar ao grupo dos 25% mais ricos. No Nordeste, ela é de 8,14%. No Sudeste, de 13,04%. “O elemento fundamental é o acesso”, argumenta Rocha, pesquisador do Atlas. “Isso acontece não só no Nordeste, mas em algumas áreas do Sudeste e do Centro-Oeste, em que a qualidade da educação é baixa e, em paralelo, os indicadores sociais comuns são ruins — saneamento básico, qualidade de vida etc. Isso tudo influi no acesso a oportunidades, que é o que faz a pessoa se mover entre as classes”, pondera.

No corte pela cor da pele, as diferenças são ainda mais abissais: uma pessoa negra de uma família situada na parte de baixo da pirâmide tem 1,47% de chance de ser parte dos 10% mais ricos do País quando adulta, e 77,7% de continuar na mesma posição. Além disso, tem 1,65% de chance de concluir o ensino superior. As desigualdades aumentam mais quando se usa o recorte de gênero. Enquanto a chance de um homem ascender ao grupo dos 10% mais ricos é de 2,57% quando adulto, essa taxa é de 0,99% no caso das mulheres. Esses contrastes são ainda mais perceptíveis em algumas regiões, como no Sul, onde a chance de uma mulher ficar no grupo dos 50% mais pobres ao longo da vida é de quase 70%. No caso dos homens, essa taxa é de pouco mais de 13%. “Esse dado é tão considerável quanto o da variação por cor da pele, porque pessoas negras estão mais associadas à condição de pobreza e, com isso, têm vias de mobilidade menores”, sinaliza Rocha.

Política pública no centro

Na opinião do sociólogo Marcelo de Medeiros, que passou o último ano como pesquisador visitante na Universidade Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos, e é autor de Os ricos e os pobres (Companhia das Letras, 2023), os dados sobre mobilidade social no Brasil reforçam a importância de mecanismos como o salário mínimo. “Boa parte da população ganha o equivalente a esse montante por mês (R$ 1,6 mil). Assim, os ‘não pobres’ são parecidos com os ‘pobres’, já que ganham algo perto disso, assim como os beneficiários da Previdência. É uma política de redução de desigualdade”, sustenta. Inclusive, continua Medeiros, o que determina o desempenho no mercado de trabalho dos mais pobres é o salário mínimo, já que é este que alicerça o sistema de remuneração do País. “É assim que, quanto mais o governo ajustar esse valor, mais favorecerá algum tipo de mobilidade”, conclui.

Na visão de Rocha, porém, esse é um processo de longuíssimo prazo. “Se observarmos a baixíssima mobilidade social brasileira e o quanto é preciso fazer para acelerar esse elevador, vamos necessitar ainda de muito tempo para mudar essa realidade”, finaliza.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​1 (​M​AR/​ABR) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Vinícius Mendes
Annima de Mattos
Vinícius Mendes
Annima de Mattos