O debate público sugere um Brasil profundamente polarizado. Mas não é bem assim. Pesquisas indicam que a divisão extrema envolve apenas uma minoria do eleitorado brasileiro. A maioria não se identifica com os polos de direita e de esquerda, compartilha valores semelhantes e está mais preocupada com questões práticas — como emprego, saúde, segurança — do que com disputas de narrativas ideológicas.
Um Brasil rachado. De um lado, a esquerda e boa parte das mulheres, com maior rejeição à família Bolsonaro — e elas são 80 milhões, o que representa 52% do eleitorado. A esquerda e as mulheres vêm acompanhados do Nordeste, que tem quase 28% do total de eleitores, e a população mais pobre. Segundo pesquisas de opinião realizadas às vésperas do segundo turno de 2022, esse grupo de pessoas ajudou a eleger Lula.
Do outro lado, evangélicos, mais conservadores, acompanhados da extrema direita e da Região Sudeste, que tem 43% dos eleitores. Não à toa, os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais elegeram governadores alinhados com esse campo político em 2022. É essa a imagem mais comum dos eleitores brasileiros.
Os acontecimentos dos últimos dez anos justificam a tentação de traçar perfis simplistas dos 156 milhões de eleitores brasileiros e dividi-los em dois grupos antagônicos. Desde 2016, o Brasil viveu uma sequência de eventos que reorganizaram o debate público: a Operação Lava Jato, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a ascensão do antipetismo, a eleição de Jair Bolsonaro e a gestão da pandemia — tudo acompanhado da radicalização dos discursos. Partidos políticos ganharam ares de clubes de futebol, apoiados por suas torcidas, com visões e valores opostos a respeito de tudo.
Contudo, não é bem assim. “A direita coloca-se como dona do voto evangélico, mas, na verdade, o voto evangélico já pendeu para a esquerda em eleições passadas. As mulheres foram o calcanhar de aquiles de Bolsonaro, mas também há um contingente de mulheres conservadoras que não pode ser negado”, exemplifica o cientista político Leandro Consentino, professor no Insper.
Uma pesquisa do think tank More in Common, em parceria com a Quaest, mostra que 54% da população não se identifica nem com a direita, nem com a esquerda, nem com o centro. Não apenas estão fora da polarização, como rejeitam esse modo de fazer política. A conclusão é resultado da análise das 168 perguntas que 10 mil pessoas, espalhadas por todo o País, responderam.
Os pesquisadores dividiram os brasileiros em três segmentos, com seis visões políticas diferentes: progressistas militantes e esquerda tradicional (progressistas), desengajados e cautelosos (invisíveis), conservadores tradicionais e patriotas indignados (conservadores). Somente 11% da população se identifica com os dois extremos — e eles estão, basicamente, nos grupos de petistas e bolsonaristas mais convictos.
“Se pegarmos os perfis mais extremos, veremos que quase todos os “progressistas militantes” votaram em Lula no segundo turno e quase todos os “patriotas indignados” votaram em Bolsonaro. E cada um desses grupos abrange apenas em torno de 5% da população. Fora dessa porcentagem já é misturado”, detalha Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common. “Nosso exercício de segmentação não é sobre voto. Voto e ideologia estão articulados, mas não são a mesma coisa. Nos outros segmentos, os padrões de voto são mais imprecisos, mais cruzados, menos coerentes”, completa.
Segundo a análise dos dados da pesquisa, os “desengajados” tendem a concordar um pouco mais com a esquerda, e os “cautelosos” identificam-se mais com as visões da direita. Em comum, todos desses grupos são mais pragmáticos, preocupados com emprego, saúde, segurança e custo de vida. Não se importam com a guerra de narrativas políticas — querem soluções práticas para a vida.
A existência dessas visões, que são da maioria, não significa que a polarização deixou de existir, mas apenas que chegou num ponto de estagnação e acabou por criar um grupo intermediário de pessoas cansadas e indecisas. “Há uma tendência de diluição da polarização em razão da inelegibilidade de Bolsonaro, mas ela não vai deixar de existir”, afirma o cientista político André Luiz Vieira Dias, professor no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na sua avaliação, o que se tem hoje é uma polarização afetiva, na qual o eleitor vota com base no seu vínculo com as candidaturas. “Os extremos têm apoio das suas bolhas. Por outro lado, sofrem grande rejeição, porque uma parcela considerável do eleitorado rejeita a polarização”, detalha.
Apesar das diferenças e segmentações, a maioria dos eleitores tem algo em comum: entre os “progressistas” e os “conservadores” convictos, existe um país que se divide em ideologias, mas se encontra em dores, problemas, valores e esperanças.
Somos um país conservador e religioso. Ou que, ao menos, acredita muito no poder da fé, seja qual for. Segundo a pesquisa da More in Common, só 21% dos brasileiros declaram não ter religião, a maioria concentrada entre os “progressistas militantes”. A maior parte da população ainda é católica (46%), seguida dos evangélicos (28%). “Constatamos que o Brasil é bastante religioso e conservador. Uma parcela grande do País pensa que as leis devem estar de acordo com esses valores morais”, constata Ortellado. Ainda segundo ele, a crença atravessa a divisão entre grupos ideológicos, com exceção dos “progressistas militantes”. “O outro segmento progressista, que chamamos de “esquerda tradicional”, absorve essas ideias conservadoras e incorpora um pouco da influência dos valores religiosos na política”, aponta.
Embora o Brasil seja um país laico, cerca de 30% dos brasileiros da “esquerda tradicional” acreditam que “valores religiosos devem orientar as leis no Brasil” — os evangélicos são os que mais concordam com essa frase. E essa crença segue em alta, com metade dos “invisíveis” favorável a essa interferência, até chegar ao auge, com os “patriotas indignados”: 63% deles apoiam a influência da religião na legislação.
Outro levantamento corrobora as conclusões da More in Common. O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest e autor do recém-lançado Brasil no espelho (Globo Livros, 2025), também entrevistou cerca de 10 mil pessoas. Desse universo, 97% afirmaram que “Deus é muito importante na minha vida”. Outros 96% concordaram com as frases “Deus está no comando da minha vida” e “Tenho fé em Deus e por isso acredito que tudo vai dar certo”. Outros 86% apostam que “A fé vale mais que a ciência”.
Dentro do espectro de características conservadoras, o brasileiro também se escora na família. A instituição familiar aparece em segundo lugar no ranking do que é mais importante na vida, segundo a Quaest. A imensa maioria (mais de 90%) define como objetivo de vida dar orgulho aos pais e declara que, antes de tomar qualquer decisão, pensa na família. E, para eles, essa instituição não é formada apenas por parentes. A base dela é o amor, mesmo entre pessoas que não compartilhem parentesco.
O Brasil reconhece o próprio racismo. Um levantamento do Datafolha apontou que 59% das pessoas consideram a maioria dos brasileiros racista. Mas isso não significa que atitudes preconceituosas são aceitas por essa mesma maioria. Independentemente da visão política, o brasileiro admite que é necessário extinguir o racismo. Da mesma forma, a maior parte também defende os direitos das mulheres e admite que a desigualdade de gênero existe. A discordância aparece em outro lugar: na forma de enfrentar e resolver essas questões. “A rejeição ao racismo é unânime na sociedade brasileira, mas políticas públicas que o enfrentam, como as cotas raciais, causam divergências. As pessoas consideram que homens e mulheres devem ter direitos iguais, mas o feminismo é um divisor”, pondera Ortellado.
Na pesquisa da More in Common, quase ninguém discordou que o racismo é uma ferida aberta na sociedade brasileira. Apesar disso, a maioria dos “conservadores” julga que “os negros têm mais direitos do que os brancos”. E eles discordam que o Brasil tenha uma dívida histórica com essa população — um dos argumentos que justificam as políticas de cotas. Os “progressistas”, por sua vez, acreditam no oposto: o Brasil tem uma dívida histórica e os negros não têm mais direitos que os brancos. Entre aqueles 54% de “invisíveis”, as opiniões dividem-se bem mais. Isto é, não há um consenso ou uma verdade absoluta entre a maior parte da população.
O mesmo cenário repete-se quando o assunto é sustentabilidade. Poucos apoiam a exploração de petróleo, por exemplo, em detrimento do meio ambiente. Mas, em qualquer espectro político, quase todos concordam em um mesmo ponto: a legislação ambiental atrapalha o desenvolvimento. “Quando olhamos para as questões ambientais, há grandes confusões. Os brasileiros entendem que as mudanças climáticas são causadas pela ação humana e não são ciclos naturais. Mas não concordam com o papel das ONGs ambientais e do Agronegócio”, pontua Ortellado.
Ainda que sejamos um país de maioria feminina e não branca, os votos não seguem o mesmo caminho. Em 2022, os eleitores escolheram 91 mulheres e 135 pessoas negras ou pardas para ocupar as cadeiras da Câmara dos Deputados. É um recorde, com crescimento de 18% de deputadas e 9% de pretos ou pardos eleitos. No entanto, essa composição está bem longe de representar as características raciais e de gênero da população como um todo. E há uma explicação histórica: os dois grupos foram excluídos do processo democrático quando a República foi instaurada no Brasil.
“Apenas homens ricos podiam participar das eleições. É relativamente novo o ingresso desses grupos [mulheres e pessoas não brancas] na política. Ainda estão aprendendo a votar, a entender a importância de eleger representantes próximos para que existam políticas públicas mais relacionadas aos seus interesses”, observa Consentino, do Insper. O cientista político avalia, ainda, que a oferta de candidatos também tem aumentado, por causa de medidas institucionais, como as cotas para candidaturas femininas e a obrigatoriedade de uso de recursos partidários para candidaturas negras. “Isso é importante. Mas ainda vai levar um tempo, do ponto de vista cultural, para que o panorama representativo mude”, conclui.
Isso porque a questão das cotas ainda divide a própria esquerda. Segundo a pesquisa da More in Common, um terço (ou 32%) da “esquerda tradicional” acredita que cotas raciais são uma forma de racismo. “Quando falamos de direitos iguais entre homens e mulheres, negros e brancos, o Brasil é mais ou menos unânime. No entanto, quando observamos a maneira pela qual o movimento feminista e o movimento negro traduzem esses valores em políticas públicas ou em ação, aí vem a discordância”, ressalta Ortellado.
Os escândalos do mundo político chegam a todos os eleitores num mesmo diagnóstico — não dá para confiar em senadores e deputados. A maioria acredita que os políticos correm atrás apenas dos próprios interesses e não se importam com o povo. Além disso, o brasileiro admite que a democracia é a melhor forma de governo, mas, por outro lado, está insatisfeito e confia pouco nas instituições. “Confia muito mais nas instituições morais, como a Igreja e o Exército, do que nas instituições democráticas. Então, é um eleitor que reconhece a democracia, mas desconfia da forma como está organizada”, explica Vieira Dias, da Unifesp. Segundo o professor, se para a maior parte da população a desconfiança está limitada ao Executivo e ao Legislativo, entre os “conservadores” o sentimento de descrédito se espalha para outros campos. “Para eles, que representam um quarto dos brasileiros, a imprensa, o Poder Judiciário e o sistema eleitoral também são enviesados, dignos de descrença”, completa.
A unanimidade retorna quando o assunto é segurança pública, geralmente um tema central em períodos eleitorais dos últimos anos. E, nesse ponto, a maioria dos brasileiros, até mesmo alguns “progressistas”, prefere o caminho do punitivismo, com apoio a penas mais pesadas e prisão para menores de idade. “A questão da segurança pública é bastante complexa, mas algumas medidas midiáticas passam a ilusão de que se resolve rapidamente. Dá para fazer uma analogia com aquela velho tema do saneamento básico: é uma coisa fundamental, mas não dá voto, porque o cano está enterrado”, argumenta Consentino. “As operações policiais têm sua validade, mas o combate à criminalidade passa por inteligência para sufocar, por exemplo, os braços financeiros das facções. Passa pela reforma da legislação processual penal, do sistema carcerário. E, até mesmo, como a esquerda defende, esse combate deve estabelecer uma ponte com o social, que é importante, mas não pode ficar restrito a isso”, completa.
A esquerda destoa do restante da população brasileira: é mais rica, mais escolarizada e menos religiosa. Seus discursos nem sempre alcançam a maior parte dos eleitores, que frequentemente a enxerga como uma elite intelectual distante da realidade do País. Atenta a esse descompasso, a direita surfa no cansaço generalizado com a política institucional e apresenta-se como a voz de quem se sente ignorado. E usa esse desencanto para conquistar apoiadores. “É um momento bastante agudo de apatia e desencanto com a política. O fato de candidaturas ou movimentos populistas terem emergido nos últimos anos deixa isso bem claro”, constata Consentino. “A população encontrou uma via de escape dentro da própria política institucional, por meio de candidatos que vocalizam essa insatisfação. Isso nem sempre é positivo, mas é um sintoma claro do quanto esse desencanto está presente”, completa.
Embora representem uma parcela minoritária da população, os extremos dominam o debate público e produzem a sensação de uma nação permanentemente em guerra política. Essa distorção ajuda a explicar por que grande parte dos brasileiros se afasta da política, não por desinteresse, mas por cansaço diante de discussões morais e identitárias que pouco dialogam com seus problemas reais. “Diante da polarização, dificilmente é possível travar um debate substancial sobre políticas públicas. Temos problemas graves na Educação, no Sistema Único de Saúde (SUS), na Segurança Pública, nos gastos do Estado, numa economia que não cresce — e ficamos sequestrados por disputas morais”, critica o professor do Insper.
O desafio está em reconectar a política à vida cotidiana. “Precisamos chegar a essas pessoas. Sou um grande partidário da educação para a cidadania. Ninguém nasce sabendo participar da política. O jovem precisa ser estimulado, e a escola tem um papel fundamental nesse processo”, sustenta Consentino. “Candidatos majoritários precisam minimizar as questões que dividem e valorizar mais as transversais, que unem o País. Segurança, Educação e Saúde são temas prioritários e com pouca resistência entre os segmentos”, complementa Ortellado.
É nessa maioria silenciosa — menos ideológica, mais pragmática e distante dos extremos — que estão o desafio e a oportunidade. Dialogar com esse Brasil é condição para transformar cansaço em participação e substituir a guerra moral por disputas reais de projetos para o País.