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Rígida e flácida agenda eleitoral

Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP
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Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP

A eleição é um cavaleiro veloz. Fim de ano, mas a sucessão presidencial de 2026 já começou. O tabuleiro é de silêncio e rumor com as movimentações e tensões dentro do Executivo, do parlamento e do Supremo. Leis constitucionais de um dia no Congresso; emendas parlamentares pescadas em água suja; palavrosas declarações de juízes sobre delitos e penas de políticos; ações policiais cinematográficas sobre combustível e falsos bancos; inundação de propaganda oficial ensinando ao povo quem é seu guardião. Dando eco aos desejos de cada ator, a profusão de pesquisas eleitorais — e o empenho ativo dos meios de comunicação — quer monitorar o eleitor. E consolidar, desde já, em qual eixo partidário está o vitorioso. 

A esperança é que não predomine o jargão profissional da política que chama interesse privado de interesse público. Três virtudes em política ajudam a enfrentar dificuldades sem contrariedade: princípios, paciência e espírito de sacrifício. Todos os outros atributos podem ser expressos no plano de governo.  

A metáfora de Trump sobre a “ótima química” de Lula deve ser compreendida como o interesse dos Estados Unidos nos 17 elementos químicos que compõem a reserva de terras raras brasileiras e demonstram como interesses estratégicos enterram o mau humor conjuntural. É o futuro que está em jogo, e não o presente parado no ponto-morto do fervor sem substância.  

Vivemos a era do escrutínio político e do controle da autonomia da vontade. Ninguém é mais manipulável do que o eleitor emotivo. Quem tem poder não quer a concorrência do livre pensamento e busca credibilidade nas pesquisas de opinião — certos de que ninguém percebe que essas pesquisas são boatos estatísticos que usam simulações para dizer ao cidadão o que ele pensa. Com o modelo de governabilidade assentado na distribuição de benefícios, a política social indexada e a não restrição de despesas públicas, praticar o equilíbrio de contas e modernizar o Estado é um suicídio para o governo. 

A eleição é um fenômeno da sociologia política útil para quem não aceita o caráter estático e irreversível das coisas. País dividido em campos definidos, aquém de seu potencial, vive a incógnita sobre o que será no mundo. Qual o real senso de possibilidade o eleitor vai exigir do futuro presidente?

O símbolo da resolução dos problemas brasileiros não tomou, ainda, a forma eleitoral de uma campanha. Quem vai soltar as rédeas da economia? Pois, andar para frente é enfrentar, especialmente, a superação dos mecanismos de inércia que produzem baixo crescimento e impossibilidade de superar a pobreza. Quando distorções adquirem o apelido de “progressistas” — simbolizadas pelos privilégios em funções estatais; pelo egoísmo orçamentário dos três poderes e pela indexação que domina a economia e a política social —, será preciso oferecer ao eleitorado outro caminho para esse conceito de progresso. E, assim, mudar o modelo burocrático atual que não privilegia o trabalho e a produção de riqueza.

O desejo de permanência, quando é legítimo, se reflete na eleição muito antes dela. Na disputa, cabe à oposição sentir se a sociedade aceita prescindir da personalidade do seu governante atual. Aos governistas e oposicionistas, não é aconselhável ser astucioso ou apressado, mas ter o senso de dever ao formar o próprio governo, tendo conhecimento de limitações e proporções na avaliação e na execução dos fatos. As virtudes e os tropeços das campanhas podem alterar o rumo, mas vence melhor quem atrai, desde o início, o apoio que precisa para executar o que propõe. 

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #489 (NOV/DEZ) DA REVISTA PB.
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