Poluição plástica

29 de janeiro de 2026

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Cientistas já detectaram microplásticos em diversas partes do corpo humano e em ambientes cotidianos, um alerta para os riscos para a saúde que essas pequenas partículas podem representar. Mas um estudo recente, realizado no Brasil, soou o alarme sobre o alcance da poluição plástica em nosso planeta e destruiu qualquer ilusão de que ecossistemas florestais protegidos estejam imunes aos efeitos negativos dos resíduos humanos.

Ao examinarem amostras estomacais em busca de informações sobre os hábitos alimentares dos bugios-vermelhos-do-rio-Juruá, nativos da remota região central da Floresta Amazônica, pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma organização social sem fins lucrativos fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), encontraram algo totalmente inesperado: fibras verdes de microplástico no estômago de dois indivíduos, escondidas entre folhas e frutos parcialmente digeridos.

O fato de primatas poderem ingerir plástico não é exatamente uma descoberta inovadora, com exemplos encontrados em diversas espécies ao redor do mundo em uma variedade de habitats, mas encontrar microplásticos nessa espécie é particularmente surpreendente.

Para começar, a espécie é arborícola, com indivíduos passando quase toda a vida nas copas das árvores e raramente descendo até o solo ou rios. E sua dieta é estritamente baseada em plantas e frutos, o que significa que eles não teriam ingerido plástico por meio da predação de espécies animais previamente contaminadas, como peixes ou pássaros.

Além disso, as amostras foram coletadas dos estômagos de bugios-vermelhos-do-rio-Juruá que vivem nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e Amanã. “Estamos falando de áreas bem conservadas, não de locais onde costuma haver acúmulo de lixo”, conta a bióloga Anamélia Jesús, pesquisadora no Instituto Mamirauá e autora principal do estudo. “Essa revelação é um alerta para o fato de que a poluição plástica está em toda parte, não apenas em locais com montes de resíduos ou em ilhas de lixo no oceano”, acrescentou. “Com base nas pesquisas que realizamos, não acredito que exista algum lugar no mundo que esteja a salvo da poluição plástica”, ressalta.

Com a água da chuva

A principal hipótese sobre como os primatas ingeriram essas fibras de microplástico está relacionada com a dinâmica singular dos níveis de água no bioma amazônico. Entre as estações seca e chuvosa, os níveis dos rios nessa vasta região variam em média 10,6 metros. Durante cheias particularmente intensas, esses cursos d’água atuam como elevadores improvisados, transportando e depositando detritos nas copas das árvores, onde permanecem mesmo na estação seca. No caso dos resíduos plásticos, esses materiais podem se degradar em microfilamentos e serem depositados na vegetação que os bugios consomem.

Ainda não se tem uma análise detalhada dessas fibras plásticas que possa determinar sua origem, mas os pesquisadores acreditam que elas vieram de equipamentos da pesca de subsistência abandonados na região. As grandes redes, normalmente usadas por pescadores artesanais, frequentemente se rasgam e são danificadas por troncos, deixando detritos plásticos na água.

Em entrevista ao The Brazilian Report, Anamélia também destaca o risco da poluição clandestina decorrente da expansão da mineração ilegal de ouro nos rios da Amazônia. Além da prática de despejar mercúrio tóxico nos cursos d’água, as barcaças de mineração ilegal podem gerar grandes quantidades de lixo convencional. “Se os municípios da Amazônia têm dificuldades para investir em políticas públicas de gestão de resíduos, imagine como é a situação em uma atividade que é inerentemente ilegal”, observa.

Um estudo divulgado 2019, realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), descreveu a Amazônia como “a nova fronteira da poluição plástica”. Com base no crescimento populacional da região, nas estimativas de geração de resíduos per capita e na falta de políticas adequadas de gestão de resíduos municipais, chegou-se a uma estimativa conservadora de mais de 182 mil toneladas de plástico descartadas nos rios amazônicos a cada ano. Isso tornaria o Rio Amazonas responsável por cerca de 10% das emissões globais de plástico marinho.

Jesem Orellana, epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma categoricamente que isso não indica que as comunidades ribeirinhas ou indígenas da Amazônia sejam grandes poluidoras e que grande parte dessas estimadas 182 mil toneladas de resíduos não veio da região amazônica. “Sabemos que parte significativa do que é produzido fora da Amazônia acaba no Rio Amazonas”, revela ao The Brazilian Report. “Portanto, essa descoberta sugere algo muito pior — que a poluição plástica está sendo trazida de outras partes da América do Sul para a Amazônia”, ressalta.

Segundo o epidemiologista, encontrar microplásticos nos estômagos de bugios-vermelhos-do-rio-Juruá que vivem em árvores em uma reserva protegida é “prova incontestável de que os microplásticos estão disseminados universalmente”. Orellana considera que a humanidade está em uma encruzilhada comparável à do tabaco na década de 1960, quando fumar era generalizado e os prejuízos causados pelo hábito na saúde ainda não eram amplamente conhecidos. “Levamos cerca de 20 ou 30 anos para reconhecer plenamente o tabaco como um agente cancerígeno. Acredito que estamos em um ponto semelhante, em que temos esse problema universal ocorrendo em locais protegidos e não protegidos na água, no ar, na flora, na fauna. Agora, precisamos saber qual o impacto negativo desse tipo de poluição para a saúde humana”, compara.

Risco sistêmico

A ciência sobre microplásticos está em constante evolução. Embora não exista ainda uma compreensão total dos efeitos da contaminação por plástico na saúde dos seres humanos, dos animais e dos ecossistemas, estudos detectaram microplásticos em tecidos humanos vitais, como sangue, sêmen, leite materno e placenta, bem como em órgãos internos como coração, cérebro, pulmões e rins.

O risco reside no fato de que essas partículas em degradação podem transportar bactérias, metais pesados e outras substâncias tóxicas para tecidos e órgãos, afetando o seu funcionamento. Já há comprovação de causalidade direta entre o acúmulo de microplásticos e o surgimento de doenças como Alzheimer, Parkinson ou câncer em humanos.

Além disso, pesquisas em laboratório demonstraram diversas maneiras pelas quais essas partículas podem danificar o cérebro, como por meio da hiperativação do sistema imunológico, indução de intenso estresse oxidativo, ruptura da barreira hematoencefálica, danos às mitocôndrias e morte direta de neurônios. “Costumamos ouvir o ditado ‘O que os olhos não veem, o coração não sente’. É muito difícil convencer um adulto de 40 a 50 anos de que existem micropartículas invisíveis a olho nu que podem ser prejudiciais à sua saúde”, pondera Orellana.

Sobre os bugios-vermelhos-do-rio-Juruá e outras espécies da Amazônia, são necessárias mais pesquisas científicas. Estudos sobre a presença de microplásticos geralmente se concentram no trato digestivo da fauna e ainda não há comprovação de contaminação por plástico nos músculos ou órgãos dos animais. Assim, não está claro se as comunidades humanas na Amazônia estão ingerindo plástico ao consumir peixes de seus rios locais ou outros animais caçados na floresta. “É direito da sociedade ter seus resíduos gerenciados, mas até que isso seja realidade, acredito que todos devem refletir sobre o próprio uso de plástico, os hábitos de descarte de lixo e como suas escolhas eleitorais podem influenciar essas questões”, finaliza Anamélia, do Instituto Mamirauá.

A publicação deste conteúdo é fruto de parceria entre a Revista Problemas Brasileiros e o portal The Brazilian Report. Acesse aqui o material original, em inglês.

The Brazilian Report Annima de Mattos
The Brazilian Report Annima de Mattos