É verdade que saudade só existe em português? Essa é uma ideia comum no imaginário popular, por vezes repetida por ufanistas professores escolares, sempre reproduzida em frasezinhas de efeito fácil em postagens virais nas redes sociais. Mas trata-se de uma mentira, um mito. “Pura e simplesmente não é verdade. Existem vários idiomas com palavras que recobrem total ou parcialmente o sentido de saudade”, explica o linguista, escritor e tradutor Caetano Galindo, professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor, dentre outros livros, de Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português (Companhia das Letras, 2023).
Galindo menciona dois exemplos: a palavra romena dor e a alemã sehnsucht. “Querem dizer a mesma coisa que a nossa saudade. E existem em vários idiomas palavras muito próximas desse sentido”, acrescenta. Segundo o professor, dizer que é uma proximidade de sentido não é uma desclassificação, porque não existem traduções perfeitas de conceitos muito básicos de qualquer idioma. “Não é problema dizer que dor ou sehnsucht não cobrem exatamente o mesmo sentido da nossa saudade. É assim que funcionam as equivalências de sentido entre os idiomas”, destaca.
“Por alguma razão, embora o étimo tenha proliferado em línguas românicas, em nenhum caso ele contém o sentido específico conhecido entre nós”, aponta o professor de português Emerson Rossetti, criador do canal Elite da Língua, no YouTube. Como exemplo, há soledad, do espanhol, mas sem o mesmo significado do português. “Em outros idiomas, há termos que se aproximam da maneira como nós definimos saudade, daí certa dificuldade com as traduções”, completa.
Em um famoso texto publicado em 1941, o romancista Vladimir Nabokov (1899–1977) refletiu sobre as dificuldades da tradução. Segundo ele, a dificuldade reside no fato de que o falante de cada idioma tem imagens diferentes quando pensa nas palavras — assim, um pão para um brasileiro nunca será idêntico a um bread para um norte-americano, ou a um kruh para um esloveno, por exemplo.
Professor na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o linguista e tradutor Sérgio Freire acrescenta que a ideia de que certas palavras existem apenas em uma determinada língua para expressar um conceito específico é um fenômeno que ocorre em todos os idiomas. “Cada um recorta a experiência humana de maneira própria”, afirma. O que forma o chamado repertório linguístico-conceitual, portanto, é a chamada diacronia, ou a história da língua.
De acordo com Freire, assim como saudade concentra em uma única palavra aquilo que outras línguas expressam por meio de construções como I miss you, tu me manques, ou te echo de menos, outras línguas também têm termos específicos para experiências culturalmente significativas. E dá um exemplo interessante: no yagán, língua indígena falada no arquipélago da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano, mamihlapinatapei significa “o olhar silencioso, porém significativo, trocado por duas pessoas que desejam iniciar algo, mas hesitam”. “Os yaganes deram um nome para esse ‘frio na barriga’ compartilhado”, observa.
“Então, a resposta curta e simples para o mito que todo mundo adora repetir é: não é verdade que só o português tenha uma palavra para dizer saudade”, sentencia Galindo. Mas se fosse verdade? Nem assim seria uma questão singular, ensina o linguista. “Apenas ia querer dizer que o português teria uma holófrase [para expressar esse significado]”, pontua o linguista.
Holófrase é uma palavra que expressa um significado para o qual em outra língua é necessária uma expressão, uma frase. “Nada atípico, nada anormal”, constata Galindo. “Não quer dizer que o falante de tagalo, de francês ou de chinês não seja capaz de entender o conceito e a noção do que a gente expressa com a palavra saudade. Só quer dizer que ele vai precisar de mais palavras para dizer a mesma coisa”, compara.
Por outro lado, se a versão popular de que a palavra seria uma singularidade lusófona não passa de mito, o professor Galindo lembra que há uma beleza genuína na etimologia que explica a formação da palavra. “A etimologia da palavra é lindinha. Na verdade, é mais interessante do que o mito”, argumenta. A palavra saudade vem do latim solitas na forma do acusativo. “É a qualidade de quem é só. Isto é: quer dizer “sozinhez”, a qualidade de estar sozinho”, ensina Galindo. Em português medieval, se dizia soidade.
Freire concorda com a explicação. “A maioria dos estudiosos relaciona a palavra saudade ao latim solitas, isto é, solidão ou isolamento”, reitera. “Do latim, o termo teria passado para o galego-português em formas como soidade, soedade, suidade e soudade, até chegar à forma atual”, conta. E Rossetti acrescenta que, apesar de pesquisas não chegarem a um consenso, ao que tudo indica o termo surgiu na Idade Média e expandiu-se a partir do século 15.
E por que a história pegou? Há uma poesia implícita e um sentimento bonito na ideia de se considerar falante exclusivo de uma palavra com significado tão bem-acabado. Isso fascina. “A palavra saudade frequentemente alimenta o romantismo da ideia de uma língua única e intraduzível, o que é compreensível, já que o imaginário dos falantes funciona assim”, reflete Freire. “No entanto, ela é apenas mais um exemplo da plasticidade das línguas e de sua capacidade de incorporar, em formas próprias, os recortes culturais e históricos de seus falantes. Não é caso único, mas é um caso nosso. Daí o carinho”, conclui.