O cinema brasileiro vive um momento raro de visibilidade global. Após o destaque do longa Ainda estou aqui, em 2025, o País voltou a ganhar projeção com O agente secreto. Mesmo sem ter conquistado um Oscar, o filme de Kleber Mendonça Filho ultrapassou, em março, a marca de R$ 50 milhões em bilheteria, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), só no Brasil. No exterior, arrecadou US$ 12 milhões, cerca de R$ 62 milhões, de acordo com o site de monitoramento das receitas de bilheterias Box Office Mojo. Mas o movimento econômico que o sucesso do cinema nacional causa não se restringe aos números de bilheterias.
A história de O agente secreto, ambientada no Recife no ano de 1977, criou oportunidades para passeios turísticos por locações marcantes do filme. No longa, o personagem interpretado por Wagner Moura aparece usando uma camiseta antiga do bloco de carnaval Pitombeira dos Quatro Cantos. O item passou a ser procurado por admiradores do filme e colecionadores, transformando-se em fonte de receita para a agremiação. A demanda inesperada também movimentou malharias da região, que precisaram ampliar turnos e contratar mais gente para dar conta dos pedidos.
Dados da Ancine indicam que o audiovisual brasileiro injeta R$ 70 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) anualmente, sustenta mais de 600 mil empregos e movimenta uma ampla cadeia que envolve profissionais, empresas e serviços. “A economia criativa tem uma interligação forte com outros setores. Por suas características, acaba gerando efeito positivo em cadeia e, por isso, deve ser estimulada”, defende Bruno de Souza Pinto, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). E explica que não existe uma definição única do que é economia ou indústria criativa, mas o conceito inclui, em todas as possíveis concepções, uma série de atividades de alto valor agregado e com mão de obra especializada. “A remuneração média dos trabalhadores da economia criativa é 28% maior em comparação com a média geral”, atesta, com base em dados de um estudo da FecomercioSP.
No Brasil, um estudo pioneiro sobre o tema é o Mapeamento da Indústria Criativa, da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), realizado desde 2008. De acordo com o último levantamento, de 2023, a indústria criativa foi responsável por 3,59% do PIB nacional, quase R$ 400 bilhões. No mundo, o peso dessas atividades varia bastante. Dados de 36 países analisados pelo relatório Creative Economy Outlook 2024, da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), indicam que a economia criativa contribui com 0,5% a 7,3% do PIB e emprega entre 0,5% e 12,5% da força de trabalho. De forma geral, quanto mais desenvolvido o país, maiores as porcentagens.
O professor João Luiz de Figueiredo, pesquisador de Economia Criativa na Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM Rio), argumenta que economia criativa é um conceito em construção, sem uma lista fechada de atividades — até porque pode incorporar novas formas de criação que venham a surgir. De qualquer maneira, é uma ideia que se iniciou na década de 1990 e foi difundida mundialmente pelo Reino Unido. “Grosso modo, são setores que mobilizam talentos para negócios e atividades que necessitem da criatividade humana, produzindo serviços com propriedade intelectual. Portanto, além da área cultural, pode incluir indústria de jogos, publicidade e escritórios de design e arquitetura”, exemplifica.
O brasileiro tem uma cultura diversa e orgulha-se de ser um povo criativo, mas ainda há um longo caminho a percorrer para transformar esse ativo em real vantagem econômica. “A economia criativa precisa de duas dimensões complementares: a intangível da criatividade e da cultura, mas também a racional e lógica da gestão de negócios. Não adianta ser criativo se não houver articulação com as competências que promovem o desenvolvimento e geram renda”, afirma Figueiredo.
O destaque recente do cinema nacional pode ser um bom exemplo para os demais setores criativos, mas só isso não basta. “Tem um lado inspiracional, claro. Internamente, é bom ver que somos reconhecidos no mundo, o que também abre mercados. Mas toda economia cultural e criativa depende de volume. O fato de termos filmes premiados precisa vir acompanhado de uma política de fortalecimento dessa indústria”, argumenta o professor.
Olhar para o que outros países fizeram também pode inspirar. A Coreia do Sul é um exemplo interessante, lembra Figueiredo, porque transformou a economia criativa em um projeto político, em articulação com as grandes companhias do país. “Mais do que fomentar a produção, os coreanos criaram uma agência de promoção — com escritório até em São Paulo. O orçamento dessa agência é de quase U$ 1 bilhão por ano”, destaca.
Como consequência, o turismo no país aumentou, assim como o número de pessoas interessadas em aprender o idioma. “Produtos estéticos coreanos ganharam espaço até na França. Nada disso é surpresa. Nos Estados Unidos, costuma-se dizer que trade follows films [‘o comércio segue os filmes’]”, cita o professor.
No Brasil, o principal mecanismo de incentivo à cultura é a Lei Rouanet, de 1991, que em 2025 registrou captação recorde de R$ 3,41 bilhões. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), publicado neste ano com dados de 2024, aponta que a lei movimentou R$ 25,7 bilhões na economia nacional e foi responsável pela geração e pela manutenção de cerca de 228 mil empregos. O levantamento também demonstra que, para cada R$ 1 investido por meio da renúncia fiscal, há retorno de R$ 7,59 para a economia e a sociedade, um avanço significativo em relação ao índice de R$ 1,59 de 2018.
Há ainda um outro conjunto de instrumentos de fomento, como a Lei do Audiovisual, que mobilizou cerca de R$ 1,6 bilhão em investimentos em 2024; o Fundo Nacional de Cultura (FNC), que financia diretamente projetos por meio de editais e programas; a Lei Paulo Gustavo (LPG), com quase R$ 4 bilhões executados e adesão de 100% dos Estados e 98% dos municípios; a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com previsão de até R$ 3 bilhões anuais; e a Política Nacional Cultura Viva, que reúne mais de 15 mil Pontos de Cultura certificados em todo o País. Além disso, o Ministério da Cultura (MinC) recriou, em 2025, a Secretaria de Economia Criativa (SEC), com foco na valorização de quem cria, produz e empreende nos diversos segmentos culturais.
As iniciativas também partem de entidades como o Sesc. Em 2025, o Programa Cultura em São Paulo promoveu 20 mil ações como exposições, espetáculos, shows e sessões de cinema, que chegaram a um público de quase 3 milhões de pessoas, e atividades formativas, das quais participaram mais de 300 mil pessoas.
Todos esses números, contudo, ainda estão muito aquém do potencial nacional, acredita a economista Gina Paladino, autora do livro Economia criativa, cidades, clusters e desenvolvimento (Nexo Design, 2021). “Do ponto de vista econômico, temos uma profusão de empreendimentos na área, mas é uma profusão do que eu chamo de ‘floresta de bonsais’. Há uma criatividade exuberante, mas os negócios não conseguem crescer por causa de uma série de fatores estruturais. Um deles é a Selic alta. Quem investe num segmento de alto risco com juros como os nossos?”, questiona.
No cenário nacional, os empreendimentos criativos têm um grau de informalidade maior que o de outros setores, o que torna difícil obter dados precisos. “É muito complexo capturar em pesquisas os nossos talentos criativos. Em geral, é uma pessoa que trabalha num escritório, mas também sócia em algum empreendimento e, às vezes, ainda tem um terceiro projeto solo”, explica a economista.
Para apoiar os setores criativos, deve-se começar por conhecer suas necessidades específicas. “Na década de 1990, o êxodo industrial estava em alta no Reino Unido e o governo de Tony Blair criou uma comissão para fazer um diagnóstico e recomendações”, lembra Gina. “Chegaram à conclusão de que a desindustrialização era irreversível, mas que alguns setores econômicos cresciam acima da média — são os que vieram a ser chamados de economia criativa. A venda de automóveis gerava menos dinheiro que o licenciamento de músicas”, completa.
Aquele relatório apontou, então, caminhos para apoiar os negócios da criatividade, o que incluiu reformular regulamentos de patentes e de propriedade intelectual. “Esse tipo de serviço público para registrar patentes tem que ser ágil e realizado de forma online. Também é preciso haver pessoas com formação jurídica para lidar com questões de propriedade intelectual”, pontua.
Outro ponto sensível é como apoiar financeiramente a economia criativa. “Não adianta ter financiamento que peça ativos reais como garantia, porque essas empresas não os têm. É uma economia do intangível. Tampouco adianta dar isenção tributária. Elas precisam de aperfeiçoamento de leis trabalhistas e de regulamentos que estimulem redes de capital de risco e investidores-anjos”, opina Gina. Do ponto de vista das cidades, é importante ter um zoneamento que favoreça clusters de criatividade, porque os negócios costumam se apoiar e se complementar, assim como ter internet rápida e com confiabilidade.
Questões estruturais das carreiras criativas também podem afastar alguns talentos da área. “A maioria dos jovens acha que só existe opção de carreira para quem sabe cantar, tocar um instrumento ou atuar, não veem que existe o produtor cultural, o eletricista especializado, alguém que monta os cenários, um advogado para os contratos”, observa a educadora cultural Marisa Passos, que trabalha com formação de jovens na periferia de São Paulo.
Há, ainda, preconceitos de classe, como se ganhar dinheiro com cultura fosse algo reservado para as elites. “Muitas vezes, os jovens da periferia também pensam que esse tipo de atividade é só para os mais ricos, que eles precisam de outro tipo de profissão. E nossas estruturas favorecem esse olhar. Meu filho, por exemplo, quer fazer curso técnico de Design de Games, mas as opções ficam da ponte para lá. São mais de duas horas no transporte público. Perto de casa, só existem cursos na área Administrativa”, relata a educadora, que vive em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista.
Apesar das dificuldades, a experiência de Marisa mostra que é possível desmontar mitos e romper barreiras reais. Ela relata que, recentemente, cinco jovens que passaram por um dos seus cursos juntaram-se em dois grupos, conseguiram aprovação em um edital de fomento da Prefeitura de São Paulo e puderam ingressar na área. Um deles até contratou um dos professores do curso como fotógrafo, num ciclo que gera valores financeiros, mas não só. “A cultura traz pertencimento, dá ao povo um senso de unicidade”, conclui a educadora.