Em 8 de maio, comemora-se o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa e, em 15 de setembro, no Pacifico, com a rendição do Japão. São 81 anos, e poucos dos atuais brasileiros conviveram com pessoas que vivenciaram o período de racionamento, escassez de produtos importados, blecaute nas cidades costeiras, limitações de uso das praias, proibição de jornais em línguas estrangeiras, censura, confinamento em cidades longe da costa para japoneses e filhos nascidos no País.
O Brasil foi participante ativo do conflito mundial, a partir de 1942 no Atlântico e de 1944 no Teatro de Operações do Mediterrâneo, na Itália, enquanto, internamente, a totalidade do seu território foi mobilizado para o esforço de guerra aliado, por meio do fornecimento de matérias-primas, com destaque para a borracha natural da Amazônia, para onde foram mobilizados trabalhadores do Nordeste — os soldados da borracha!
O que causa espécie é que um bom porcentual de brasileiros desconhece o papel do País na Segunda Guerra, como o patrulhamento do Atlântico Sul pela Marinha do Brasil; o afundamento de inúmeros navios mercantes brasileiros no litoral nacional, com centenas de mortos civis; ou a criação e o envio do 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira (FAB), cujo grito de guerra era “Senta a Pua”, e da Força Expedicionária Brasileira (FEB), com cerca de 25 mil soldados e oficiais — dos quais a maioria dos tenentes era oriunda de Centros de Preparação para Oficiais de Reserva (CPORs). A FEB era composta por quatro grupamentos, tendo o primeiro chegado ao porto de Nápoles, na Itália, em agosto de 1944.
O Teatro de Operações do Mediterrâneo foi uma empreitada difícil, mas vencedora nas suas missões, como o rompimento da Linha Gótica e a tomada de Monte Castelo e de Montese pela FEB, que teve 467 baixas fatais. Inicialmente enterrados no Cemitério de Pistoia, na Itália, foram transladados para o Monumento aos Pracinhas no Rio de Janeiro. A tropa não estava com equipamento para o inverno europeu de 1944–1945, um dos piores do século 20, e foi se adaptando às dificuldades com o engenho próprio da brasilidade, que deixou marcas positivas na população civil italiana.
Ao retornarem para o Brasil, houve o rápido desmantelamento da FEB. Oficiais e sargentos de carreira foram mandados para unidades distantes do centro do poder, e a tropa foi desmobilizada. Por quê? Havia temor de que o corpo expedicionário que lutou contra o fascismo na Itália tivesse o mesmo ímpeto contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas, que findou, de todo modo, em dezembro de 1945.
A esse fato, acrescenta-se que, hoje, mais de 50% da população brasileira desconhece o que ocorreu na Europa entre 1938 e 1945. Além das invasões, o sofrimento das populações civis, com os confinamentos forçados em campos de trabalho e a eliminação de grupos populacionais — judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e elites intelectuais e empresariais —, na Europa do Leste, na Polônia, na República Tcheca, na Eslováquia, entre outros países.
A falta de básico conhecimento histórico nacional e internacional da população é perigosa para a Nação. Além de subestimar o papel de acontecimentos e fatos que formam a brasilidade a cada geração, percebe-se um vazio de pertencimento que surge somente em eventos esportivos como as copas mundiais de futebol.
Nos anos 1960–1980, parte da população brasileira, incluindo elites intelectuais, desdenhava qualquer manifestação de júbilo popular, por considerar que era instrumento do governo da época, numa configuração internacional acirrada, buscando conquistar corações e mentes, a exemplo da Copa Mundial de 1970.
Para um novo olhar sobre esse período, acredito ser fundamental incentivar a população a conhecer a própria história pelos livros clássicos, sem, todavia, olvidar a imersão em romances contemporâneos de diferentes latitudes para melhor compreender o ethos dos diferentes atores no concerto das Nações.
Sem conhecimento do seu passado coletivo, recente e centenário, o povo não tem história!
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