É verdade que só tem jabuticaba no Brasil?

29 de maio de 2026

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Um dos idealizadores do Plano Real, o economista Persio Arida — presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de 1993 a 1995 e do Banco Central (BC) no primeiro semestre de 1995 — popularizou a ideia de que a jabuticaba é uma fruta exclusiva do território nacional. Em 2003, no discurso de agradecimento por um prêmio, ele usou uma frase curiosa para justificar a taxa de juros praticada no País: “Certas coisas são iguais à jabuticaba, só ocorrem no Brasil”.

Pronto. De lá para cá, a tal “teoria da jabuticaba” passou a ser evocada por políticos, jornalistas e intelectuais toda vez que é preciso justificar um fenômeno nacional peculiar. Regulações comerciais específicas do nosso mercado? Jabuticabas. Foro privilegiado? Jabuticaba jurídica. Até o ponto facultativo, artifício para oficializar a popular emenda de feriado, é chamado, em artigos de opinião, de mais uma “jabuticaba do regime de trabalho brasileiro”.

Sul-americana, sim, mas… brasileira?

A teoria pode ser tão saborosa quanto a frutinha, mas, emprestando aqui o jargão do economês de Arida, não tem lastro — as plantas do gênero Plinia não são um privilégio nacional.

A engenheira de alimentos Tainah Morais Bueno, que estudou a jabuticaba em seu mestrado defendido na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, esclarece que, “embora seja uma fruta nativa e fortemente associada ao Brasil, espécies do gênero também ocorrem naturalmente em outros países da América do Sul, como Paraguai, Argentina e Bolívia”.

E, graças ao manejo artificial, também existem jabuticabeiras em outros lugares. “Ela já foi introduzida em outras regiões do mundo, como Estados Unidos e Japão”, conta a engenheira. “Porém com menor adaptação e menos produtividade em comparação com o Brasil.” Em texto publicado em seu site O Guia dos Curiosos, o jornalista Marcelo Duarte revela que há dois exemplares de jabuticabeira no Jardim Botânico Real de Kew, em Londres, na Inglaterra.

Sobreviver, sobrevive, mas exige cuidados — e não está no hábitat ideal. Tainah explica que o melhor lugar para a planta é mesmo a Mata Atlântica, em especial nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. “Ali, ela encontra condições ideais de clima úmido e solos férteis”, ensina. “Fora desse ambiente, a espécie pode ser cultivada por meio de manejo agrícola, mas o seu desenvolvimento costuma ser mais lento e a frutificação, menos regular, por causa das limitações climáticas. Portanto, embora exista fora do Brasil com manejo artificial, seu melhor desempenho ocorre em sua região de origem”, afirma.

Múltiplas frutinhas

Há diversas espécies diferentes de jabuticabeiras pertencentes ao gênero Plinia. A Plinia cauliflora, chamada de sabará, tem frutos pequenos e doces. A Plinia jaboticaba, conhecida como paulista, tem frutos maiores e é valorizada pela maior produtividade. A trunciflora tem frutos mais firmes e a aureana é a jabuticaba branca — mais rara.

Segundo Tainah, a fruta já era consumida pelos povos originários da América do Sul muito antes da chegada dos europeus — tanto in natura quanto em preparações fermentadas.

E seu consumo pode fazer muito bem. “A jabuticaba tem sido alvo de pesquisas em importantes universidades brasileiras, que vêm investigando o seu potencial nutricional e funcional”, afirma a educadora em saúde Cíntia Oliveira, especialista em nutrição funcional e autora do livro Diabetes em remissão: a revolução da alimentação consciente (2025, publicação independente). “A jabuticaba é uma fruta nutricionalmente interessante, principalmente quando consumida com a casca, na qual se concentram muitos dos seus compostos bioativos”, ressalta a especialista, explicando que dentre os principais benefícios, destacam-se a ação antioxidante, as melhoras da saúde intestinal e do controle glicêmico e o aumento da sensação de saciedade, além do potencial anti-inflamatório.

Segundo Cíntia, a casca da jabuticaba é rica em antocianinas, pigmentos naturais da família dos flavonoides responsáveis pela coloração escura da fruta. E, de acordo com pesquisas recentes, a fruta apresenta níveis superiores aos observados no morango, na ameixa, na framboesa e no mirtilo. “Esses compostos ajudam a neutralizar radicais livres, reduzindo o estresse oxidativo, processo associado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, enfermidades cardiovasculares e alguns tipos de câncer”, descreve.

A jabuticaba contém, ainda, fibras solúveis, em especial a pectina, que favorecem a digestão ao ajudar na formação de uma microbiota intestinal mais saudável e contribuem para uma melhor resposta imunitária e metabólica. “As fibras retardam a absorção de glicose e aumentam a saciedade, o que pode ser interessante em uma alimentação equilibrada, inclusive para pessoas com resistência à insulina ou com diabetes”, acrescenta a especialista. Além disso, há estudos que sugerem que os compostos fenólicos da jabuticaba podem contribuir para a redução de marcadores inflamatórios.

Então, na hora de buscar uma dieta completa e equilibrada, que tal deixar as berries do Hemisfério Norte de lado e apostar na quase brasileiríssima jabuticaba?

Edison Veiga
Débora Faria
Edison Veiga
Débora Faria