Endereço distante

29 de junho de 2026

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O sonho já era antigo, um objetivo constante de vida, mas que demorou para se tornar realidade. Foram pelo menos sete anos de planos, cálculos, simulações e poupança até que, finalmente, o designer de produtos digitais Pedro Werneck conseguiu dar a entrada para a compra de um imóvel próprio — uma casa em Atibaia, no interior de São Paulo —, em dezembro do ano passado. Já tinha, então, 43 anos, esposa e uma filha. “Houve uma época que nós, minha mulher e eu, achamos que não conseguiríamos, que seria impossível para a nossa realidade”, conta.

Werneck se enquadra no que se tornou o perfil típico do comprador de imóveis no Brasil: homem, com 47 anos, pertencente à classe B, que vive com a família e busca um imóvel usado para morar. O perfil foi traçado pela nova edição do estudo Moradia do Amanhã — Compra, conduzido pela plataforma de análise do mercado imobiliário DataZAP. Contudo, se esse é o padrão, é porque é esse o perfil de quem consegue fechar negócio – não significa que mulheres e pessoas mais jovens não sonhem com um teto para chamar de seu.

Quando o assunto é a casa própria, não há polarização: 93% das pessoas que vivem em imóveis alugados, ou cedidos por alguém, querem comprar uma casa ou apartamento, segundo sondagem do instituto de pesquisas Datafolha, de 2025. Além disso, ao contrário do que tentam pregar alguns gurus de redes sociais, o desejo é ainda maior entre os mais jovens — 97% entre os que têm de 16 a 34 anos. O dado, portanto, parece contradizer alguns estereótipos em relação à juventude, que supostamente prefere liberdade e novas experiências.

Não foi só o Datafolha que encontrou jovens cheios de vontade de serem proprietários de um imóvel. “Reparamos que, há uns seis anos, começaram a surgir discursos dizendo que casa própria não era prioridade para os jovens. Então, fomos pesquisar e percebemos que a ‘geração aluguel’ é um mito. Os jovens ainda querem comprar, o aluguel é uma estratégia temporária”, avalia Rafael Kalinoski, professor de Urbanismo na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Um sonho mais caro…

A diferença é que, por uma série de razões, inclusive comportamentais, era mais fácil para um jovem de classe média das gerações passadas comprar uma casa. “Essa juventude está entrando mais tarde no mercado de trabalho do que as gerações anteriores. A sociedade mudou, as formas de consumo mudaram e os mais jovens não conseguem guardar dinheiro como seus pais ou avós”, explica Kalinoski.

Um outro levantamento do Datafolha, também de 2025, aponta que 43% dos brasileiros não conseguem poupar dinheiro nem como reserva para uma eventual emergência. As altas taxas de juros atuais, que tornam os financiamentos mais caros, somam-se ao problema. “Nesse contexto, o aluguel parece a única saída viável, e as empresas buscam romantizar essa opção”, afirma o professor da UTFPR.

Werneck não tem dúvidas de que a compra foi muito mais fácil para seus pais. “Meu pai sempre me falava que eu tinha que comprar. Até chegou a dizer que me ajudaria com a entrada, mas sem saber o quanto seria”, lembra. Segundo ele, o salário servia apenas para cobrir as contas do mês, impossibilitando o acúmulo para a entrada. “Minha estratégia foi guardar os bônus que recebi nos últimos anos”, detalha.

Além das mudanças no padrão de consumo, há o mercado. De fato, os imóveis no Brasil têm ficado proporcionalmente mais caros ao longo dos anos. No aniversário de 25 anos do Plano Real, em 2019, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calculou a inflação de vários itens, e a dos imóveis tinha sido mais que o dobro da inflação média no período: subiram 1.020,82%, enquanto os preços de forma geral, 508,23%. Desde então, embora com diferenças menores, o preço da habitação continua ganhando da inflação média. No ano passado, por exemplo, as casas ficaram 6,52% mais caras, um valor 50% superior à inflação no período.

… E mais distante 

A valorização dos imóveis acaba atraindo não só potenciais moradores, mas também investidores, que olham para a compra de habitações como potencial para obter lucro, o que acaba por elevar ainda mais os preços. Sem conseguir pagar por uma moradia nas regiões centrais, uma parcela da população acaba empurrada para as periferias, num processo chamado por urbanistas de gentrificação.

De acordo com uma pesquisa da plataforma imobiliária QuintoAndar, o bairro Vila Nova Conceição, na capital paulista, lidera o ranking nacional com o metro quadrado mais caro do País (R$ 21,6 mil). Sete dos dez bairros mais caros do Brasil estão na Cidade de São Paulo. Werneck é carioca, morou em São Paulo, mas, como trabalha de forma flexível, na hora de comprar, acabou optando pelo interior paulista. Em Atibaia, a 60 quilômetros da capital, o preço médio do metro quadrado ronda os R$ 8 mil.

Longe de ser um problema exclusivo de São Paulo, a gentrificação é um fenômeno consolidado em metrópoles de todo o mundo, com destaque para Nova York, Cidade do México, Barcelona, Paris, Roma e Lisboa. Em cidades com grande apelo turístico, há o agravante da concorrência entre o inquilino convencional e aquele de curta temporada. Se plataformas de aluguel temporário, como Booking e Airbnb, movimentam o turismo e a economia, também inflacionam o mercado imobiliário, expulsando moradores tradicionais dos bairros mais centrais. Até o comércio mais antigo sofre com o fenômeno, e as ruas acabam convertidas em vitrines turísticas.

Nas antigas capitais da Europa, existe ainda a falta de terrenos disponíveis para novas construções, o que também já atinge cidades bem mais jovens, como São Paulo. De diferentes maneiras, os governos buscam estratégias para deter a crise. Talvez a medida mais radical tenha sido a de Barcelona, onde o governo anunciou a eliminação gradual dos aluguéis turísticos do tipo Airbnb até 2028, depois de um aumento de 68%, em dez anos, nos preços de moradia.

No México, a população culpa os nômades digitais que, desde a pandemia, trabalhando a distância para países com moeda mais valorizada, escolhem a capital mexicana para viver, elevando o preço da habitação para a população local. No ano passado, gringo go home foi o slogan de uma onda de protestos na cidade, que acabou com algumas lojas vandalizadas.

No contexto brasileiro, não dá para atribuir o aumento dos preços ao turismo ou a nômades digitais estrangeiros, mas começa a se notar, sobretudo nas metrópoles, a financeirização da moradia. “A maioria das pessoas que compra no Brasil, compra para morar. Mas a gente começa a ouvir um discurso de aquisição de imóveis como ativo financeiro. Dá para perceber pelo tipo de propaganda que as incorporadoras fazem, ressaltando a rentabilidade e não as qualidades construtivas, como uma bancada de mármore, um piso de qualidade”, pontua o professor Kalinoski.

Donos do próprio teto

A maioria da população brasileira adulta vive em casa própria (67%), já quitada ou financiada. A porcentagem dos que moram em imóveis alugados está em 24%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, com dados de 2025, uma alta importante desde 2016, quando eram 18%. Há ainda 9% que vivem em locais cedidos.

O aumento dos preços para a compra e da proporção de pessoas vivendo em locais alugados não é porque se deixou de construir. Nos últimos quatro anos, o mercado imobiliário tem crescido, batendo sucessivos recordes de lançamentos e vendas, de acordo com monitoramento do mercado feito pelo Secovi-SP, sindicato patronal do mercado imobiliário. Ainda assim, a demanda continua alta porque, historicamente, o Brasil tem muitas construções de baixa qualidade e em situação irregular. Do total de domicílios do País, quase metade (48,9%) apresenta telha sem laje de concreto como material predominante na cobertura.

Outra característica nacional é que o crescimento no setor está ancorado no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), que financia moradias para as camadas sociais de menor renda. “Um programa como o Minha Casa Minha Vida contribui para dar acesso ao financiamento de um imóvel próprio a certas faixas de renda, o que gerou uma oferta para atender a essa demanda, que é significativa. O mercado imobiliário passou a prestar atenção a essa faixa, com lançamentos direcionados ao programa”, aponta Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Contudo, o recorte do programa deixa de fora uma parte da classe média. “Ele passou a ter uma nova faixa de renda, mais alta, justamente para incluir quem ganha mais. Entretanto, para as famílias que se deparam com as condições de mercado, com taxas de 12%, o cenário é muito adverso”, indica Ana Maria. Desde abril, mudanças ampliaram o alcance do programa para imóveis de até R$ 600 mil e para famílias com renda mensal de até R$ 13 mil.

Como o MCMV abarca a maior parte da população, as perspectivas do setor de construção de imóveis mantêm-se em alta para os próximos anos. Os obstáculos estruturais são a necessidade intensiva de mão de obra, guerras internacionais que aumentam o preço das matérias-primas e um possível esgotamento dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). “O horizonte continua favorável, vamos continuar tendo recursos, mas a sustentabilidade a longo prazo traz alguma preocupação, tendo em vista que o FGTS, que sustenta o MCMV, é usado para outros fins”, projeta Ana Maria.

Para o mercado de luxo, as projeções também seguem positivas. “As pesquisas mostram que lançamentos e vendas de imóveis de alto padrão às famílias que não dependem de crédito também registram bom desempenho”, enfatiza.

Contas, contas e mais contas

Fora do MCMV, Werneck ressalta que o que mais pesou na decisão de comprar foi realmente a segurança de ter uma casa sua, que pudesse arrumar de acordo com o próprio gosto, sabendo que ninguém pedirá para sair do local. Mas, além do emocional, há um lado racional. “O dinheiro gasto no aluguel não volta mais”, ressalta. Vencida a etapa da entrada, mesmo com os juros altos, o valor mensal da prestação ficou semelhante ao que sua família gastava com aluguel.

A matemática, embora seja universal, precisa de uma abordagem individual quando o assunto é a casa própria. “Quando é para morar, a compra de um imóvel perde a lógica do investimento e vira um sonho”, reforça o economista Alex Nery, professor de Finanças na FIA Business School, alertando que as contas são diferentes se a compra é para investir ou para viver.

Para os jovens que vão precisar de financiamento, morar na casa dos pais o maior tempo possível pode ser uma estratégia inteligente para poupar e dar a maior entrada possível. “Os hábitos têm mudado bastante. Antigamente, ficar na casa dos pais era visto quase como uma derrota, todo mundo queria ser independente logo. Mas a noção da juventude mudou”, pondera o economista.

O desafio, contudo, é ter disciplina. “Muitas pessoas tendem a gastar tudo, talvez até por uma questão de falta de educação financeira. Se ficam na casa dos pais e consomem tudo o que ganham, não fazem reserva. Vão acabar sem comprar o imóvel e sem sair da casa dos pais”, alerta Nery.

Portanto, o perfil de cada um deve ser considerado e não há conselhos gerais como “compre” ou “espere”. “Apesar dos juros altos, o financiamento acaba sendo bom para muitos, porque funciona como uma formação forçada de patrimônio: você se disciplina, paga a prestação, em vez de consumir”, pondera o professor. Outro erro, porém, é fazer dívidas em excesso, que sejam impossíveis de pagar com o que se ganha. A parcela precisa caber no orçamento para que o sonho da casa própria não vire um pesadelo.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria