Nunca parar

13 de julho de 2026

A idade avança e o trabalho continua. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro idosos estava ocupado em 2024. São, sobretudo, questões econômicas que os levam a adiar a aposentadoria — o valor médio dos benefícios é de R$ 1.847. Com a longevidade crescente, eles estão mais ativos, visíveis e exigem planos para o futuro.

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Chegar à terceira idade deixou de ser sinônimo de aposentadoria. Ao menos para 25% dos idosos brasileiros, que continuam tendo atividades remuneradas, segundo o IBGE. Às vezes, a atividade remunerada é escolha, mas, na maioria dos casos, manter-se empregado é falta de opção — seja por causa do baixo valor da aposentadoria, seja pela inexistência dela. A velhice, momento da vida que deveria ser de estabilidade, transformou-se numa fase de vulnerabilidade.

Sem contar com a previdência oficial ou qualquer outro tipo de benefício, Vilma Camargo chegou aos 70 anos ainda trabalhando como faxineira diarista de segunda a sexta-feira. “Trabalhei a vida toda, mas com carteira assinada foram só uns três anos, porque ganhava muito mais com as faxinas. E nunca sobrou dinheiro para contribuir para o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). Agora, não tenho mais direito”, lamenta.

Vilma conta que, apesar do trabalho pesado, está com as mesmas famílias há muitos anos, já sabe bem como são as dinâmicas e tem a confiança das pessoas. “Se fosse pegar uma casa nova agora, talvez fosse mesmo difícil”, avalia. Sem qualquer tipo de previdência, conta com a boa vontade dos patrões em momentos difíceis. “Se fico doente, eles me pagam mesmo que eu falte”, relata.

A realidade de não poder parar de trabalhar também atinge profissionais especializados e que conseguem se aposentar oficialmente. A psicóloga Sandra Santi, de 67 anos, aposentou-se pelo INSS há dois anos, mas continua trabalhando como sempre. “Gosto muito do que faço, tenho prazer, mas trabalho também porque preciso do dinheiro. Só com a aposentadoria não conseguiria me sustentar”, constata. A psicóloga até gostaria de ter a agenda mais cheia, mas acredita que não seja a idade que interfira na falta de pacientes. “No que faço, a experiência costuma ser vista como ponto positivo. Mas estamos num momento em que as pessoas estão sem dinheiro e acabam cortando o que consideram não ser essencial”, avalia.

Situações como as de Vilma e Sandra, que chegaram à terceira idade sem conseguir parar de trabalhar, tornam-se cada vez mais frequentes, uma vez que os benefícios são baixos e não chegam a todos. Com a população envelhecendo — e rápido —, casos assim ganham um volume maior a cada ano. Entre 2012 e 2024, a participação de pessoas com 60 anos ou mais na composição da População em Idade Ativa (PIA) passou de 15% para 20%, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).

Nova pirâmide

Dizer que uma população está envelhecendo é uma constatação de proporcionalidade: significa que a quantidade de idosos para cada jovem está aumentando. “É uma mudança na pirâmide etária, que acontece, principalmente, por causa da diminuição da fecundidade e da mortalidade. Menos pessoas estão nascendo e a população está vivendo mais anos”, explica Marcio Minamiguchi, demógrafo do IBGE.

Sob muitos aspectos, uma população mais envelhecida é sinal de desenvolvimento. “Décadas atrás, as pessoas morriam cedo por problemas como falta de saneamento básico ou fome. Num país onde grandes populações dependiam da agricultura de subsistência, com uma produção que facilmente era prejudicada por questões climáticas, não era tão certo que as pessoas chegariam a ser idosas”, lembra Minamiguchi. O Brasil não é mais assim.

A urbanização e a mecanização do campo trouxeram mais segurança alimentar e acesso à saúde, levando os brasileiros a viverem mais. E esses fatores também promoveram transformações nos modos de vida, influenciando no número de nascimentos. “No ambiente urbano, aumentou a escolaridade e as famílias grandes são menos vantajosas. O acesso a creches e os gastos com as crianças entraram na conta das famílias na hora de decidir ter filhos”, afirma o demógrafo.

Nos anos 1980, nasciam 4 milhões de crianças por ano — agora, são 2,5 milhões. Embora o caminho do envelhecimento seja algo dado há muito tempo, o ritmo foi mais veloz do que o previsto pelos demógrafos. O contexto socioeconômico explica a queda nos números de bebês brasileiros. “Na época do Censo de 2010, havia um otimismo em relação ao País, a situação do emprego era melhor, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro logo superaria o do Reino Unido com o real valorizado. Era a época do pré-sal, de receber a Copa do Mundo, das empregadas viajando para a Disney”, lembra Minamiguchi.

Pouco mais de uma década depois, no Censo de 2022, a sociedade brasileira perdeu o otimismo. Além da queda da fecundidade, a imigração levou embora uma parcela da população jovem. “Antes, o cenário migratório era nulo: as chegadas compensavam as saídas. Hoje não é mais assim. E a migração internacional ocorre principalmente na faixa dos jovens adultos”, detalha o demógrafo.

Se na base da pirâmide o número de crianças e jovens cai, no outro extremo o crescimento mantém-se. Anualmente, a quantidade de gente fazendo fazendo aniversário de 60 anos é maior do que o número de pessoas que morre com mais de 60 anos. Dessa forma, o contingente dos idosos no Brasil tem crescido cerca de 1 milhão por ano. E quem chega aos 60 tem a expectativa de viver mais 20 se for homem e mais 24 se for mulher. “Se alguém ainda tem, previsivelmente, muita vida pela frente, isso afeta as perspectivas do que fazer, do que planejar.”, enfatiza Minamiguchi.

Desafio da humanidade

Ainda que em alguns países o movimento tenha começado há mais tempo do que no Brasil, o envelhecimento populacional é um fenômeno geral e inédito na história da humanidade. “É a primeira vez que as sociedades humanas se deparam com algo assim. E é um fator perturbador do sistema capitalista. Como manter as dinâmicas de produção e lucro diante da questão demográfica?”, questiona Jorge Felix, professor no curso de Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e pesquisador-bolsista na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

O envelhecimento populacional, aliado à informalidade no mercado de trabalho, tem produzido déficits recorrentes nas contas do INSS, pois o montante do que os trabalhadores na ativa recolhem não é suficiente para pagar os benefícios de aposentados e pensionistas. Em 2025, o rombo foi de R$ 320 bilhões, o que representa 2,5% do PIB. Se o panorama permanecer, economistas projetam que, em 2100, o déficit chegará a 11,6% do PIB, ou R$ 30,88 trilhões. 

Além de olhar para a Previdência Social, a Saúde precisa de transformações, porque o novo perfil demográfico resulta num novo perfil epidemiológico. “Enfrentamos a necessidade de uma remodelação, passando de um sistema curativo para um sistema de tratamento de doenças crônicas. Mas se ainda não conseguimos sequer equacionar totalmente a primeira frente, os gastos vão ficando insustentáveis”, observa Felix.

Outro desafio vem da Educação. “Temos que construir programas governamentais com o foco na educação continuada. As universidades públicas já estão vendo um aumento de alunos mais velhos, mas ninguém parece estar preocupado, pensando em políticas estruturadas para esse público, como cotas por recorte etário, por exemplo”, sugere o professor. Sem medidas estruturais, quem percebe, na própria experiência a necessidade de rever competências e de atualizar-se, busca soluções no setor privado. “Muitas instituições já entenderam o cenário e estão explorando esse nicho, o que é ótimo. Mas, se deixarmos apenas na mão do setor privado, só vai se reciclar quem tiver dinheiro para pagar os cursos”, pondera.

O Brasil deve avançar ainda em outra área central — a dos cuidados de longa duração, com sistemas de acompanhamento para quem já não consegue, sozinho, cuidar de si mesmo. “Vivemos uma crise global do cuidado, que inclui falta de mão de obra”, observa Félix. E a isso soma-se a necessidade de adaptações gerais na estrutura das cidades, dos transportes e nas ofertas de serviços e lazer.

No entanto, sem poder contar com serviços públicos, as pessoas são obrigadas a recorrer ao mercado: plano de saúde, medicamentos, educação continuada e cuidadores para quem fica debilitado. Quando falta dinheiro, os idosos acabam se endividando. “De 2020 a 2026, a população idosa cresceu 13% e houve um aumento de 61,9% no número de idosos endividados. E isso apenas com a dívida formal, porque faço pesquisa sobre mulheres idosas endividadas e sei que há grande endividamento com agiotas e familiares”, assegura o professor.

Produzir, produzir e produzir

O INSS paga mensalmente, conforme dados de dezembro de 2024, 40,7 milhões de benefícios previdenciários e assistenciais. Do total, 28,5 milhões são de até um salário mínimo (R$ 1.621), o equivalente a 70% de todos os benefícios. “Embora muitos digam que continuam a trabalhar porque não querem ficar em casa, as pessoas continuam no mercado por pura necessidade”, afirma Felix.

Nesse cenário, o aposentado José Carlos Lucentini, de 72 anos, é uma rara exceção. Ele escolhe todos os dias que quer trabalhar. Além de dar aulas eventualmente, está escrevendo um livro e, no ano passado, abriu uma franquia de uma escola profissionalizante, a Microlins, da qual se encarrega pessoalmente da gestão. “Faço o que faço por opção, até porque, no momento, ainda estou investindo na escola. Ainda não tive retorno financeiro do negócio”, revela.

O segredo foi ter conseguido se preparar financeiramente para a fase da aposentadoria desde que era novo. “Não dá para depender só da aposentadoria oficial, porque vai acontecendo um achatamento ao longo dos anos. O que me permitiu chegar a essa idade e poder fazer o que eu quiser foi ter construído, ao longo da vida, uma carteira de investimentos para ter uma renda passiva. Agora faço só o que gosto”, garante o aposentado, que fez carreira como executivo em corporações de alimentação.

A mudança no perfil da população ativa é uma questão do presente, já sentida por quem quer contratar. Em 2025, o Varejo e os Serviços paulistas preencheram, como nunca, suas vagas formais com profissionais acima dos 50 anos. Passaram de 7% para 9% dos contratados em apenas quatro anos, de acordo com levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

No setor de Serviços, a porcentagem chega a 10%. Embora ainda sejam proporcionalmente poucos, foi a única faixa etária com crescimento. “Temos realizado um acompanhamento do perfil das contratações no Comércio e identificamos, nos dados mais recentes, um crescimento expressivo de trabalhadores 50+, o que chamou a atenção e procuramos aprofundar a análise”, destaca Bruno de Souza, assessor econômico da FecomercioSP. Os jovens de até 29 anos, que eram 50% dos contratados em 2021, responderam por 48% das novas admissões no ano passado.

A pesquisa da FecomercioSP constatou, ainda, um crescimento na proporção de mulheres de todas as idades. Das 5,88 milhões de admissões registradas no ano passado, 3,15 milhões foram de mulheres e 2,73 milhões, de homens, isto é, 54% de mulheres e 46% de homens. A participação delas cresceu 3 pontos porcentuais (p.p.) em relação a 2021. Essa presença é maior no Varejo, com 55% das contratações.

Segundo Souza, esse aumento mostra que o preconceito contra os trabalhadores mais velhos está diminuindo. “Os jovens buscam, hoje, resultados mais imediatos. Muitos preferem o trabalho via plataformas do que o mercado formal para obter rendimentos com flexibilidade de horário. Num mercado aquecido, frente à dificuldade de contratação de mão de obra, as pessoas mais experientes ganham oportunidades. As empresas acabam percebendo que o profissional com experiência acumulada pode agregar bastante”, indica.

Oferecer um ambiente saudável e investir na capacitação são caminhos para conquistar e manter uma força de trabalho com perfil mais velho. “Se o Brasil deseja crescer de forma sustentável, precisa ter ganhos de produtividade. Para os empresários, isso vai acontecer se oferecerem formação e investirem em ambientes acolhedores, processos flexíveis e benefícios que ultrapassem os salários, como bônus para quem não falta e não se atrasa”, cita o assessor da FecomercioSP, destacando que a pontualidade costuma ser mais comum entre os trabalhadores mais velhos do que entre os jovens.

Para reforçar as contratações dos 50+, a FecomercioSP e o Sindilojas Campinas estruturaram uma proposta de lei que prevê a redução temporária de 50% dos encargos patronais de INSS e FGTS para novas admissões desse público. A proposta tem como fundamento uma redução de custos para quem contrata, sem criar novas obrigações ou dispositivos acessórios na legislação,  sem provocar insegurança jurídica ou  afetar direitos trabalhistas. O texto foi protocolado pelo senador Laercio Oliveira (PP/SE) como o PL 1.655/2026 e, agora, a FecomercioSP atua no Senado para acelerar a tramitação do projeto.

Você trabalha com o quê?

Entre 2012 e 2024, 3,7 milhões de pessoas com 60 anos ou mais ingressaram na força de trabalho, segundo a Pnad Contínua. Desse total, em torno de 3,5 milhões estavam empregadas, o que representa 95,6%. Apenas 4,4% ainda buscavam uma ocupação, o que indica que, na maioria dos casos, os idosos tendem a acessar o mercado já com alguma oportunidade definida ou com mais direcionamento à inserção laboral. 

Janaína Feijó, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), argumenta, porém, que conseguir trabalho não implica deixar a vulnerabilidade econômica. Os idosos com mais qualificação até conseguem empregos formais, mas os de menor escolaridade tendem a se manter na informalidade e mais suscetíveis às flutuações econômicas. “Quase 70% das pessoas com 60 anos ou mais não têm o ensino médio completo. Qual é o tipo de trabalho que conseguem no mundo atual?”, questiona.

Como a oferta de ensino básico foi sendo ampliada, as atuais gerações devem chegar à terceira idade com melhor formação. Deve-se pensar no que fazer hoje, mas também considerar que o próprio perfil dos idosos vai se transformar. “É um desafio complexo, que exige medidas diferenciadas de longo, médio e curto prazos. Para ontem, temos que melhorar a qualidade dessa mão de obra. No longo prazo, decidir como resolver a questão da Previdência Social, como oferecer os serviços que esse grupo necessita”, salienta Janaína.

Para quem emprega, vale a pena conhecer as necessidades e os desejos específicos dos mais velhos. “O comum é quererem complementar renda, então, preferem ter flexibilidade. Em geral, o idoso não tem mais aquela preocupação de consolidar-se na carreira, porque está em outra fase da vida e prefere não trabalhar mais de 40 horas por semana”, analisa Janaína.

Sem respostas sociais coletivas, os idosos recorrem a soluções individuais. A faxineira Vilma busca alternativas para quando o corpo não aguentar mais o trabalho braçal. “Vou vender frango assado no bairro. Até já comprei a máquina”, comemora.

A psicóloga Sandra pretende manter a agenda o mais cheia possível, mas com preferência para trabalhar de casa. “Enquanto estiver com a cognição boa, vou trabalhar. A diferença é que agora tenho optado por fazer as sessões online, que me dão mais conforto. Tenho ido ao consultório só uma vez por semana”, diz.

Por sua vez, o empresário Lucentini, mesmo tendo a opção de poder parar, descarta a possibilidade. “Claro que não estou no mesmo ritmo de quando era jovem, mas não tenho planos de parar completamente. Até meu médico elogiou, disse que trabalhar me faz bem, que não preciso parar”, celebra.

ESTA REPORTAGEM FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​3 (​JUL/AGO) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria