Artigo

O horizonte das expectativas estáveis

Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP
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Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP

Em um mês em que leis foram votadas em velocidade de ano eleitoral, em que a política não discute a patologia econômica crônica que vive o Brasil e o eleitor continua a valorizar somente suas pequenas vantagens imediatas, sumiu do horizonte a análise de risco de decisões apressadas e a virtude das expectativas estáveis.

O que mais interessa ao parlamento e ao governo é o cronograma das decisões, a tramitação rápida e emotiva, e não a necessidade, a racionalidade, a qualidade ou o conteúdo. Os meios de comunicação embarcaram na canoagem oficial, entorpecendo o País com a cobertura esportiva da má fase da nossa seleção de juízes, enquanto o deboche fiscal e financeiro faz o que quer com a vida quebrada do contribuinte, aumentando sua prisão por dívidas com empréstimos debitados na folha do seu futuro.

Os setores produtivos — comercial, industrial e agrícola, em lojas, fábricas e empresas suportam a tempestade normativa da Justiça do Trabalho, que, agora, se tornou também autoridade psiquiátrica. Deficiente em dar e excessivo em tomar, o Estado brasileiro começou a distribuir diagnóstico de sofrimento psíquico no ambiente de trabalho. Apostando na psicologização e na “psiquiatrização” de tudo na vida, para melhor aumentar seu poder regulatório, faz de toda dificuldade um direito. O déficit bilionário do setor público não importa; a inadimplência crescente do cidadão não importa; a violência não importa; a boa gestão pública não importa.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma miragem estatística que destrói princípios e pode ser considerado um vício de apressados. Os muito ricos andam tão ricos, os pobres tão usados e a amplitude das desigualdades por instrução, raça, regiões geográficas e classes sociais são tão díspares e profundas, que produzem enorme disparate. Estranha média aritmética produz falso IDH.

Dois fatos externos revelam a dificuldade do Brasil de enfrentar problemas estruturais e tornam mais difícil entender as questões mais relevantes do mundo moderno. Um vem dos Estados Unidos, com a decisão de classificar as organizações criminosas brasileiras como terroristas. De fato, estas tornaram-se tão fortes e influentes que se transnacionalizaram como as velhas máfias, os cartéis e os grupos políticos fanáticos.

Preso a uma obsoleta noção do que é um terrorista, cuja lógica é a própria razão e o próprio interesse, o Brasil não tem reflexão superior sobre o sentido humano de um ato de terror que, vindo de onde venha, tenha a motivação que tenha, produz a destruição da razão, elimina pessoas e não se enquadra em nenhum conceito de Estado democrático de direito. Ultrapassando o círculo de suas vítimas, em qualquer de suas variedades, o terrorismo moderno não é mais político. É extraterritorial e visa à separação dos poderes legítimos do Estado e do governo. Desconhecer sua atual definição e seu alcance marginal e criminoso é uma limitação espiritual de burocratas dicionarizados.

Da Inglaterra vem um exemplo de como o Brasil caminha na direção contrária à do aperfeiçoamento de sua história. Sem despertar interesse entre nós, escancara um sistema político e judicial cada vez mais hereditário de cargos públicos cativos da elite do Estado e de seus familiares, no qual entra melhor e mais rápido quem prova sua consanguinidade com alguma autoridade. De pouco adianta, quem tem méritos próprios, tentar entrar. Assim, poucos notaram que, no fim de abril, encerraram-se mais de mil anos do sistema hereditário na Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico. Foi oficialmente extinto com o encerramento da sessão parlamentar. Já é hora de o Brasil parar de querer ser República sem desmontar sua mania de hereditariedade e de enfiar no Estado a família de quem está no poder.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​3 (​JUL/AGO) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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