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Para onde vai a renda?

Fábio Pina
é economista e integra a assessoria técnica da FecomercioSP
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Fábio Pina
é economista e integra a assessoria técnica da FecomercioSP

Os indicadores econômicos recentes mostram um cenário aparentemente positivo para o Brasil. A renda média do trabalhador cresceu nos últimos anos, assim como a massa de rendimentos, e o mercado de trabalho permaneceu relativamente resiliente. Ainda assim, a sensação predominante continua distante de uma percepção concreta de melhoria financeira. A explicação para esse paradoxo passa por um conjunto de fatores que vem comprimindo o orçamento das famílias e reduzindo a capacidade de consumo.

O primeiro deles é o elevado endividamento. Dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) mostram que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, muitas pagando juros elevados, sobretudo em modalidades como cartão de crédito e crédito pessoal — e em muitos casos, as taxas anuais superam 100%. Esse cenário indica que uma parcela importante do aumento da renda não se transforma em consumo ou poupança, mas é absorvida pelo pagamento de prestações, juros e dívidas acumuladas.

Outro ponto relevante é a inflação dos alimentos. Entre janeiro de 2022 e abril de 2025, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) geral subiu 23% enquanto a alimentação aumentou 29%. Ao olharmos para o período entre janeiro e abril de 2026, a inflação geral foi de 1,5%, com os alimentos subindo quase 3%. Mesmo em períodos de desaceleração inflacionária, os preços de itens essenciais da cesta básica avançaram acima da média geral da inflação. Como os gastos com alimentação pesam proporcionalmente mais no orçamento das famílias de baixa renda, o efeito sobre a percepção econômica é muito mais intenso do que sugerem os índices agregados.

Agora, soma-se a isso um novo fenômeno: o avanço explosivo das apostas online. Pesquisa recente da FecomercioSP mostrou que 35% dos paulistanos fazem apostas buscando aumentar rapidamente a renda doméstica, um salto de 10 pontos porcentuais (p.p.) em relação a 2024. Entre as famílias com renda de até dois salários mínimos, esse porcentual chega a 40%. Esse dado revela um fato preocupante: parte crescente da população passou a enxergar as bets não como entretenimento controlado, mas como tentativa de sobrevivência financeira.

O estudo traz outros sinais alarmantes. Um quarto dos entrevistados afirmou que, se não apostasse, guardaria esse dinheiro. Outros disseram que destinariam os recursos para pagar contas ou comprar alimentos. Isto é, as apostas passaram a disputar espaço diretamente com o consumo tradicional das famílias e até com a formação de poupança.

A situação torna-se ainda mais grave quando se observa que 12% dos entrevistados afirmaram já ter buscado ajuda financeira para continuar apostando, incluindo empréstimos bancários e pedidos de dinheiro para familiares ou amigos. Trata-se de um processo que pode aprofundar o endividamento e ampliar a vulnerabilidade social.

As cifras envolvidas ajudam a dimensionar o problema. Estimativas apontam que os brasileiros podem movimentar entre R$ 300 bilhões e R$ 400 bilhões por ano em apostas online. Mesmo considerando uma retenção média de 15% pelas plataformas, porcentual previsto no modelo regulatório, essa movimentação representaria algo próximo de R$ 50 bilhões drenados do consumo das famílias para empresas de apostas. Para efeito de comparação, esse valor equivale a cerca de um terço do orçamento anual do Bolsa Família.

Além disso, parte relevante dessas operações ocorre em plataformas ilegais ou sediadas fora do País, ampliando o vazamento de renda da economia. Diferentemente de atividades presenciais, como cassinos e resorts, que ao menos geram empregos, turismo e arrecadação local, as apostas virtuais têm baixíssima capacidade de multiplicação econômica.

O resultado é uma economia em que a renda cresce estatisticamente, mas uma parcela relevante desse ganho é capturada por juros, inflação de itens essenciais e apostas online. O consumidor sente menos melhoria porque, na prática, sobra menos dinheiro disponível para consumir, investir ou construir patrimônio.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​3 (​JUL/AGO) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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