A conta do preconceito

22 de junho de 2026

V

Vick Amalfi coleciona três diplomas de nível superior: uma graduação em Engenharia de Produção e duas pós-graduações, uma em Meios de Hospedagem e outra em Diversidade e Inclusão. Apesar da qualificação, descobriu que seus colegas ganhavam o dobro, mesmo atuando nas mesmas funções.

Esse não foi o primeiro sinal de preconceito que sentiu. Desde o início da sua transição de gênero, entre 2022 e 2023, as situações desconfortáveis na construtora onde trabalhava tornaram-se cada vez mais frequentes.

Primeiro, a empresa decidiu, sem consultá-lo, fazer ajustes nos banheiros, colocando placas para distinguir o feminino do masculino: um banheiro masculino e outro unissex. “Eram dois banheiros, um feminino e um masculino. Um dos chefes reclamou e colocaram uma placa com símbolo masculino e outro com duas placas, masculina e feminina, para ser unissex. Foi uma coisa bem esquisita”, conta o rapaz.

O ambiente piorou quando seu gestor, que era um aliado, foi demitido, e uma sequência de violências começou. Primeiro, uma das gerentes usou discursos transfóbicos para desacreditar seu trabalho. E o departamento de Recursos Humanos (RH) pouco se importou. “Eles disseram que a gente precisava lidar com isso com maturidade”, relembra. 

Depois, ao atualizar o sistema, a empresa trocou o nome social de Amalfi pelo nome de registro. Toda vez, ele se deparava com o erro na folha de ponto. Pediu, ao longo de seis meses, a mudança. Nada acontecia e a coleção de situações constrangedoras aumentava.

Quando foram entregar os kits de Natal, Amalfi cobrou o seu, mas alegaram que o dele não estava na lista — constava apenas o antigo nome. Numa sessão com a médica do sindicato, a empresa, mais uma vez, enviou o nome de batismo — e ele foi chamado, na frente de todos, já com a barba grande, por um nome feminino.

Com a orientação de um advogado, entregou ao RH e às chefias um documento com as diretrizes do Ministério Público (MP) sobre pessoas trans. Só então teve seu caso resolvido. Mas não sem passar por mais uma coação. “Meu chefe ligou e disse que eu havia constrangido o RH, que a empresa tinha tantas coisas importantes para fazer e eu preocupado com nome. Infelizmente, não gravei essa ligação”, lamenta.

Por fim, após três anos de sofrimento, e de ver seus projetos serem boicotados ou roubados por outros colegas, o engenheiro se demitiu. “Eu começava a tremer quando chegava o domingo à tarde, só de pensar em trabalhar no dia seguinte. Não conseguia ir às aulas de dança, nem me alimentar direito. Sentia que eles estavam me expelindo da empresa”, descreve.

Perdas individuais e coletivas

Amalfi faz parte de uma triste – e onerosa – estatística. Segundo dados da plataforma Infojobs, 72,7% dos trabalhadores LGBTQIAPN+ já sofreram preconceito no trabalho. E 7 em cada 10 desistem de vagas por receio de não se encaixarem na cultura da empresa. Dentro dessa estatística cruel, são justamente as pessoas trans, não binárias e intersexo as que mais sofrem com frequentes hostilidades diretas.

Mas não são a únicas e a exclusão alcança todas as letras da sigla.

Segundo um recente estudo do Banco Mundial, a taxa de desemprego entre pessoas LGBTQIAPN+ atinge 15,2%, quase o dobro da média nacional, de 7,7%. E uma parte preocupante dessa população, depois de tantos “nãos” e constrangimentos, desiste de buscar emprego. Essa parcela de inativos representa 37,4% desses indivíduos — a média geral no Brasil é um pouco menor, de 33,44%.

O efeito não é apenas humano, mas também econômico. De acordo com o mesmo estudo, o Brasil perde, anualmente, quase R$ 94,4 bilhões — cerca de 0,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — com a exclusão dessas pessoas do mercado de trabalho. Esse prejuízo acontece porque, além de empurrar talentos para a informalidade, reduzindo as chances de geração de riqueza, a insegurança psicológica diminui também a produtividade desses profissionais.

Além disso, o País perde mais de R$ 14,6 bilhões por ano, com impostos que deixam de ser arrecadados (R$ 10,6 bilhões) e gastos do governo com seguro-desemprego e assistência social (em torno de R$ 4 bilhões).

Efeito Trump

Os últimos dois anos pioraram o mercado de trabalho para os LGBTQIAPN+, por um motivo que nada teria a ver com o Brasil: a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. “Grandes empresas, como Amazon, McDonald’s e Google, encerraram suas políticas de diversidade, que estavam em construção há quase uma década. Infelizmente, essa pauta é tratada como passageira”, explica Angelo Castro, diretor de Captação de Recursos e Parcerias da Casa 1 — Centro de Acolhida e Cultura LGBTQIAPN+.

Os dados do TransEmpregos, uma plataforma de empregabilidade para pessoas trans, expressam a redução apontada por Castro. Segundo o portal, a quantidade de empresas parceiras caiu 8% em relação a 2024, as vagas voltadas para pessoas trans baixaram 39% nesse período e o total de profissionais empregados diminuiu 71%.

“A gente não consegue se desenvolver na carreira, mesmo nas vagas inclusivas, porque as empresas, até as premiadas por diversidade, são muito imaturas. Não existe uma linha contínua, tudo é muito instável. Basta o presidente de outro país dizer que isso não importa que elas falam ‘amém’”, argumenta Maite Schneider, cofundadora da TransEmpregos.

Corrida de obstáculos

No entanto, a exclusão não é só consequência recente de eventos políticos. Ela já acontece há tempos e começa bem antes de uma entrevista de emprego. As barreiras erguem-se logo na juventude, expulsando a população LGBTQIAPN+ do ambiente escolar e ceifando suas chances de formação.

Segundo o Banco Mundial, as taxas de evasão são desproporcionais: cerca de 33% dos estudantes LGBTQIAPNI+ abandonam o ensino médio antes da conclusão. Além disso, daqueles que conseguem ingressar numa faculdade, 69% não chegam ao fim do curso.

Para as mulheres trans e travestis, a exclusão educacional atinge níveis devastadores — aproximadamente 70% não concluíram o ensino médio, e apenas irrisório 0,02% está matriculado no ensino superior.

Fatores como a falta de preparo das escolas, violência, expulsão de casa e restrições básicas ao uso do nome social e do banheiro destroem as trajetórias educacionais dessas pessoas, limitando drasticamente o acesso ao mercado de trabalho formal.

Mesmo quando esses profissionais conseguem superar todas essas barreiras e acumular diplomas, como é o caso de Amalfi, ainda enfrentam vieses e preconceitos. “Se a pessoa usa um batom vermelho, acham que não tem a ver com a cultura da empresa”, exemplifica Maite. E, quando contratados, sofrem violências iguais ou semelhantes àquelas relatadas pelo engenheiro.

Para superar esse cenário, é preciso um esforço para abalar e modificar as estruturas. Segundo o Banco Mundial, o primeiro passo é criar ambientes educacionais mais inclusivos, garantindo a permanência de jovens LGBTQIAPN+ nas escolas para construir qualificação desde cedo. No mercado de trabalho, a recomendação é instituir políticas antidiscriminatórias claras, realizar auditorias de equidade salarial e criar práticas consistentes de promoção.

“O principal caminho é essas pessoas terem autonomia para construírem esses processos”, afirma Castro. “As companhias precisam abandonar a ideia de que estão fazendo um favor e compreenderem, de uma vez por todas, que investir ativamente em diversidade é necessário para que a própria empresa possa crescer”, reforça.

Maite resume a solução em dois pilares: consciência e constância. “As pessoas precisam se conscientizar de que diversidade é sobre humanidade. Não é sobre grupo de afinidades, estamos falando de gente”, enfatiza. “E as empresas precisam usar seu poder para educar a sociedade, para tornar o mundo melhor, em vez de exigir profissionais que apenas se adaptem a um modelo”, completa.

Enquanto isso não acontece, a saída mais comum para esses profissionais é construir o próprio caminho por meio de projetos e atividades autônomas. Foi o que Amalfi fez assim que se demitiu, em janeiro deste ano — ele faz parte dos 30% da população LGBTQIAPN+ que trabalha por conta própria ou na informalidade.

Hoje, ele cria os próprios projetos culturais e dá aulas em uma escola de teatro musical inclusiva. “Emagreci sete quilos, que eu precisava por questões de saúde, ligadas à transição hormonal. Consegui ter uma vida mais tranquila. Na verdade, a vida andou mesmo, sabe?!”, comemora.

Carol Castro
Débora Faria
Carol Castro
Débora Faria