No Brasil, aprendemos a interpretar a vida pela experiência e pela linguagem do futebol. Afinal, até quem não acompanha os jogos, ou não tem familiaridade com a bola no pé, já se pegou dizendo que “você deu uma bola fora” ou, então, que “você pisou na bola” — expressões que atravessam gerações e fronteiras sociais.
E, mesmo diante das crises que abalam o esporte (e das inevitáveis derrotas), o futebol segue sendo, para o brasileiro, uma espécie de “veneno-remédio”. A definição é de José Miguel Wisnik, compositor, músico, ensaísta e professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Em entrevista promovida pelo Canal UM BRASIL e pela Revista Problemas Brasileiros — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, em parceria com a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), Wisnik mergulha nas complexidades culturais e sociais que moldam o País.
A íntegra, em vídeo, está disponível no Canal UM BRASIL. E confira abaixo os principais pontos da conversa, mediada por Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje.
Entre dores e alegrias. Para Wisnik, o futebol é o espelho mais fiel das contradições sobre as quais o Brasil se firmou. “Temos, historicamente, a seleção que mais ganhou títulos, é pentacampeã. Ao mesmo tempo, é aquela que sofreu a derrota mais acachapante e contundente em seu próprio território. Isso é ‘veneno-remédio’”, afirma Wisnik.
Contradições em campo. Neymar, atualmente reserva nos jogos da Seleção nesta Copa do Mundo, encarna esse paradoxo. “Ele tem tudo o que seria considerado o melhor do futebol nacional, e tem aspectos que são controversos e problemáticos — ou criticados em termos de atitudes. Em suma, se há alguma síntese disso, é ele”, completa.
Antídoto brasileiro. Por outro lado, Wisnik acredita que o futebol tem o papel de curar o chamado “complexo de vira-latas”. “Uma prática que pode nos levar à afirmação de uma potência criativa — no modo como o País tomou para si um esporte inventado na Inglaterra, mundializado, e fez disso uma manifestação cultural criativa, original e potente”, completa.
Herança colonial. O Brasil é conhecido pelos próprios brasileiros e também por estrangeiros como um país de sociabilidade extremamente receptiva e aberta. A contradição é que, apesar dessa imagem, é sabido que o País é formado por uma sociedade estruturalmente racista, marca de um passado marcado por séculos de escravização. Esse é o retrato de uma nação que, na opinião de Wisnik, apresenta faces que oscilam entre “o horror e o sublime”.
A face do racismo. “Sabemos que nossa sociedade tem um fundo escravista renitente e um racismo subjacente que permeia tudo. Existe truculência e, ao mesmo tempo, extrema doçura, como a gente vê no cerne da obra de Guimarães Rosa, por exemplo, mas também na nossa experiência coletiva”, descreve.
Entre o público e particular. As tensões aparecem também nos campos político e econômico. Segundo Wisnik, o escândalo envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, que foi controlador do Banco Master, e outras dezenas de figuras do alto escalão da vida política brasileira é sintoma de que no Brasil se criou um espaço para “o usufruto do particular dentro da esfera pública”.