A UnionPay International — braço internacional da China UnionPay, uma rede estatal criada em 2002 pelo Banco Popular da China e pelo Conselho de Estado — iniciou, em agosto, um projeto-piloto que permite a visitantes chineses escanear o código de um estabelecimento comercial no Brasil e pagar diretamente a partir de suas contas no país de origem. A cobertura resumiu a novidade em uma palavra: PIX.
O Banco Central (BC) publicou então seu relatório de gestão do PIX referente ao período de 2023 a 2025, que reserva alguns parágrafos ao que chama de inserção internacional do sistema. A sequência parecia uma coreografia entre Brasília e Pequim. Não era. O relatório é a segunda edição de uma publicação periódica, e sua seção internacional ocupa três parágrafos de um documento cujo tema é doméstico. A infraestrutura conta uma história menos interessante.
Comecemos pelo relatório, o que mais se aproxima de uma posição oficial (nem o BC nem a UnionPay responderam aos pedidos de comentário). O BC afirma que “está avaliando a interligação do PIX com sistemas de pagamentos instantâneos de outras jurisdições” e que “tanto as interligações bilaterais quanto a participação em hubs multilaterais estão em discussão”.
O relatório aponta o prêmio — taxas menores, mais velocidade, maior acesso e mais transparência nas transações internacionais —, mas não apresenta modelo, contraparte ou data. São três parágrafos em um documento cujo verdadeiro tema é doméstico: quase 80 bilhões de transações em 2025, R$ 35 trilhões movimentados, 148 milhões de usuários pessoas físicas, cerca de 86% dos brasileiros com mais de 14 anos e 926 instituições participantes.
Em uma seção dedicada a soluções desenvolvidas por instituições privadas (e não pelo BC), o relatório descreve dois arranjos já em operação com parceiros no Chile, na Argentina, nos Estados Unidos, em Portugal e na França. Um deles permite que brasileiros façam pagamentos no exterior. O outro descreve o que a UnionPay anunciou, em um texto escrito antes de o anúncio acontecer e sem mencioná-lo.
A mecânica é simples. Um comerciante brasileiro gera um QR code comum do PIX. O visitante estrangeiro o lê usando o aplicativo do próprio banco. O parceiro brasileiro da instituição estrangeira, então, faz o PIX para o comerciante, em reais, instantaneamente, exatamente como ocorreria em uma transferência doméstica.
O parceiro estrangeiro debita a conta do cliente no país de origem, na moeda local, pela taxa de câmbio que decidir oferecer. Só depois que os dois parceiros fazem a liquidação entre si da maneira convencional, “sem utilizar a infraestrutura do PIX, que permite apenas transações domésticas”. O comerciante brasileiro não está recebendo um pagamento internacional, mas um PIX de uma instituição brasileira. A etapa internacional ocorre em algum ponto que nem ele, nem o turista, conseguem enxergar.
Fabiano Jantalia, sócio do Jantalia Advogados que trabalhou durante dez anos como advogado do BC, resume a operação de maneira mais direta. “Isso não é PIX, mas uma operação de câmbio que tem o PIX como etapa inicial”, afirma. Segundo ele, o que acontece é que “o cliente entrega os recursos a um banco via PIX e, então, o banco fica encarregado de enviar esses recursos ao comerciante no exterior, realizando uma operação de câmbio típica”.
O consumidor vê um QR code e uma tela de confirmação, mas não o spread cambial nem a margem adicionada pelas instituições — e, nas operações de entrada, esses valores são definidos no lado chinês, fora do alcance das regras brasileiras de transparência. Na direção contrária, quando instituições brasileiras definem as condições, a escala é conhecida: segundo Jantalia, os bancos brasileiros normalmente cobram “entre 3% e 5% de sobretaxa” em cima de valores enviados ao exterior por cartão (a maioria cobra 5%). A isso, soma-se o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), incidente sobre operações de câmbio.
Os brasileiros já conhecem esse mecanismo. Alguns bancos permitem pagamentos via PIX no crédito e parcelados, mas isso é, na realidade, um empréstimo (frequentemente a taxas exorbitantes). A instituição do pagador liquida imediatamente o valor integral com o comerciante e cobra, depois, as parcelas à taxa de juros que ela mesma estabelece.
Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva e professor na Fundação Getulio Vargas (FGV) e no Insper, escola de negócios de São Paulo, endossa a comparação. “Trata-se de uma operação de crédito fantasiada de PIX”, diz. “É um nome comercial para transferência de recursos.” Especificamente sobre a UnionPay, Amaral é categórico. “A UnionPay não é um exemplo de PIX, mas uma infraestrutura que transportará um pagamento rápido, interoperável com o que já existe no cartão de crédito”, afirma, acrescentando que o arranjo está inserido nos sistemas de cartões, “e não no arranjo do PIX”.
A distinção não é meramente semântica. A modalidade de pagamento conta com um sistema de devolução administrado pelo BC, o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que pode ser acionado pelo usuário lesado a partir do aplicativo. Esse mecanismo se aplica dentro do ecossistema do PIX e não se estende automaticamente à etapa internacional da transação, que pode estar sujeita a mecanismos diferentes de contestação e recuperação de recursos. “Não posso responsabilizar uma instituição no Chile, por exemplo”, explica Amaral, porque a única relação contratual do cliente é com o próprio banco.
Carlos Akira Sato, cofundador da Syscapital e vice-presidente de Relações Institucionais da Pagos, associação de pagamentos eletrônicos, recomenda cautela ao interpretar o anúncio como um marco. “Não estamos falando de uma integração definitiva; é um teste que não será tão amplo”, afirma. “Ainda estamos muito longe da adoção de uma solução capaz de abranger os mercados financeiros das duas jurisdições.”
Também não existe um conjunto específico de regras que determine quem fica com quanto. Nenhuma regulamentação específica estabelece a divisão das receitas, de modo que a precificação seja uma negociação livre, moldada, em sua avaliação, por uma disputa por participação de mercado.
Resta o sinal — e é justamente esse o ponto. Washington passou um ano tratando o PIX como uma barreira comercial. O representante comercial dos Estados Unidos, ao encerrar a sua investigação em 15 de julho, impôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros uma semana depois, concluindo que as políticas brasileiras favoreciam o PIX em detrimento de empresas americanas de cartões e pagamentos. A reclamação tem um antecedente específico: a suspensão do WhatsApp Pay pelo BC em 2020, meses antes do lançamento da modalidade.
Uma segunda investigação, sobre trabalho forçado nas cadeias de suprimentos de dezenas de países, acrescentou mais 12,5% a partir de 24 de julho. O Brasil se recusou a alterar o sistema, chamou o PIX de patrimônio público e levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), cujo Órgão de Apelação está paralisado desde 2019.
O presidente do BC Gabriel Galípolo, classificou o argumento americano como uma desculpa construída para dar lógica às tarifas. “É como dizer que o saneamento básico prejudicou a receita do caminhão-pipa”, afirmou, há um mês.
Um PIX que realizasse liquidações diretamente com outros países permitiria que o comércio fosse liquidado sem passar pelo dólar. “O PIX poderia se tornar infraestrutura de liquidação e pagamento no comércio intrarregional”, afirma Luiz Awazu Pereira da Silva, ex-diretor de Política Econômica do BC, em um webinário realizado, em novembro de 2025, pela Fundação FHC.
A frente multilateral tem outros interessados. Em 11 de agosto, o governador do Reserve Bank of India, Sanjay Malhotra, afirmou em evento em Mumbai que os países do Brics estão avaliando a interligação de sistemas de pagamentos instantâneos e de moedas digitais de bancos centrais para reduzir o custo da movimentação de dinheiro entre eles. Malhotra foi cuidadoso quanto ao estágio do projeto — segundo ele, há várias opções, todas ainda em discussão.
Tudo isso permanece no campo da teoria, mas ajuda a explicar por que uma infraestrutura doméstica de pagamentos de varejo despertou a ira de um governo cuja influência no exterior depende do fato de todos os demais precisarem de sua moeda.
Enquanto isso, a UnionPay continua chegando, embora o ritmo tenha algo a ver com o turismo. Seus cartões são aceitos há anos nos terminais da Rede e da Stone. Os saques em dinheiro nos caixas eletrônicos do Banco24Horas — encontrados em farmácias, supermercados e shoppings de todo o País — foram habilitados em setembro de 2025.
Os primeiros cartões UnionPay emitidos no Brasil chegaram em março de 2026, por meio da empresa de pagamentos Treeal. Além disso, em maio, o País dispensou vistos para cidadãos chineses e a demanda por destinos brasileiros disparou — razão que a própria UnionPay apresenta para justificar o projeto-piloto de pagamentos por QR code.
Ainda assim, o momento não é irrelevante. Pequim vem comprando opções em um mercado que Washington está ocupado em afastar, e cada passo ocorreu enquanto o conflito comercial avançava lentamente.
O trabalho mais complexo para construir um PIX verdadeiramente internacional não é técnico. Sato compara uma interligação genuína à construção da zona do euro: administrar a liquidez entre países afeta os saldos comerciais e as reservas dos bancos centrais, “dependendo, sobretudo, de vontade política, que não é criada da noite para o dia”. Jantalia é mais otimista quanto ao aspecto jurídico, argumentando que o conjunto de regras existente é, em grande medida, suficiente, embora duvide que qualquer fluxo desse tipo possa escapar da classificação como operação de câmbio.
Lançado em novembro de 2020, o PIX tornou-se onipresente e também é motivo de orgulho nacional — uma prova de que o Brasil é capaz de desenvolver tecnologia de ponta por conta própria. Washington tratou isso como uma barreira e o taxou. Pequim tratou-o como uma infraestrutura à qual vale a pena se conectar, ainda que em escala modesta, em um projeto-piloto voltado para os turistas.