Brinde nacional

22 de outubro de 2026

O

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou seu primeiro anuário dedicado exclusivamente ao vinho, oferecendo à resiliente e cada vez mais dispersa indústria vinícola brasileira seu primeiro retrato oficial. A publicação soma-se aos anuários do Mapa sobre cerveja, cachaça e bebidas não alcoólicas. O Anuário da Vitivinicultura 2026, com dados referentes a 2025, contabiliza os registros de 965 vinícolas em 327 municípios e de 16.258 rótulos, produção declarada de 309,74 milhões de litros e 7.361 empregos diretos.

As videiras chegaram ao Brasil com os portugueses. A Associação Brasileira de Enologia (ABE) situa os primeiros plantios na expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza, em 1532, tendo Brás Cubas, fundador da cidade portuária de Santos, como o primeiro produtor. Em 1626, o jesuíta Roque González levou videiras europeias para o Rio Grande do Sul, mas não houve adaptação dessas variedades, que são mais frágeis.

Uma uva norte-americana, mais resistente, salvou a empreitada. A Isabel (Vitis labrusca), introduzida por volta de 1840, tornou-se a principal variedade dos imigrantes italianos, que se estabeleceram nas áreas serranas do Rio Grande do Sul depois de 1875, trazendo do Vêneto [região da Itália de onde veio a maioria desses imigrantes] o hábito de tratar o vinho como alimento.

Uma aposta mais consistente na qualidade veio somente nos anos 1970, quando as vinícolas multinacionais Moët & Chandon, Martini & Rossi e Heublein se instalaram na região e estimularam os produtores a adotarem variedades europeias e sistemas de condução vertical das videiras.

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 80 mil hectares de vinhedos e produz volumes comparáveis aos de Nova Zelândia, Grécia e Áustria, mas seus vinhos ainda são pouco conhecidos fora da América do Sul. Há pelo menos uma década, o Paraguai compra cerca de metade das exportações brasileiras de vinho.

Do Sul rumo ao Nordeste

O Rio Grande do Sul ainda domina o setor, com 600 das 965 vinícolas do País, ou 62%, e a Região Sul, como um todo, respondeu por 87,77% da produção brasileira de vinho. O número de vinícolas registradas cresceu 41,5%, entre 2020 e 2025, e boa parte das novidades está em outras regiões.

O Nordeste é agora a segunda maior região produtora. Suas 32 vinícolas produziram 22,67 milhões de litros no ano passado, uma média de 708.460 litros por estabelecimento — o dobro da média da Região Sul. Lagoa Grande, em Pernambuco, no Vale do São Francisco, tem a maior média de rótulos registrados por vinícola do País: 76,7. Os espumantes respondem por boa parte desse crescimento.

“O consumidor brasileiro identifica o espumante nacional como um produto de primeira linha e o Vale do São Francisco como um dos melhores lugares para produzi-lo. Não basta ser; o consumidor precisa entender esse fato, e isso impulsiona nosso crescimento”, pondera Ricardo Perez Almeida, diretor da Vinícola Vale do São Francisco.

No Centro-Oeste, Goiás, em plena região de produção de soja, chegou a 12 vinícolas em 2025. O Estado adotou os chamados vinhos de inverno, técnica desenvolvida em Minas Gerais que consiste em podar as videiras duas vezes por ano para que a colheita ocorra entre junho e agosto, em vinhedos situados entre 600 e 1,2 mil metros de altitude.

Mercado maior, margens menores

O Brasil tornou-se um mercado cobiçado pelos produtores de vinhos de outros países. Foi o maior mercado do Chile no ano passado, e as vendas domésticas movimentaram cerca de R$ 21,1 bilhões no total, segundo a loja virtual de vinhos Foster Wine, que alerta que a oferta está crescendo mais rápido do que a demanda, alimentando descontos e comprimindo as margens em toda a cadeia.

No ano passado, o Brasil importou 165,7 milhões de litros de vinho, no valor de US$ 560,8 milhões, e exportou 7,35 milhões de litros, no valor de US$ 13,8 milhões — uma diferença de aproximadamente 40 para 1 em valores.

Mas o consumo per capita continua modesto. “Há muito espaço para crescer. O consumo de vinho está entre 2,5 e 2,8 litros por habitante. Se compararmos com o mercado chileno, onde o consumo per capita chega a 18 litros, vemos que o Brasil ainda tem muito espaço para novas vinícolas e produtores”, destaca Jones Valduga, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra).

Esse potencial também atrai exportadores sul-americanos e europeus, o que significa que os produtores locais precisam disputar esse espaço nas prateleiras brasileiras.

Os impostos tornam a disputa mais acirrada. A advogada tributarista Gilmara Nagurnhak argumenta que tributos federais e estaduais, incluindo o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), acumulam-se ao longo da cadeia produtiva e deixam as garrafas brasileiras mais caras que as importadas. 

“Os maiores produtores mundiais de vinho desfrutam de uma tributação mais leve e de apoio governamental ao cultivo de uvas e às exportações, o que ajudou a consolidar a predominância no mercado global”, escreveu em artigo recente ao portal Migalhas.

A imagem do setor também carrega as próprias marcas. Em fevereiro de 2023, fiscais do trabalho resgataram 210 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão durante a colheita de uvas no Rio Grande do Sul. Eles haviam sido contratados pela Fênix, empresa terceirizada que prestava serviços às vinícolas Salton, Aurora e Garibaldi. As três assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT), o que não representa admissão de culpa, e apenas o proprietário da Fênix foi incluído na lista suja do governo de empregadores que utilizam mão de obra em condições análogas à escravidão.

Na safra de 2024, essas vinícolas substituíram as equipes terceirizadas por trabalhadores contratados diretamente e por um uso maior de máquinas, embora fiscais tenham resgatado 22 trabalhadores argentinos em São Marcos naquela mesma temporada.

Exportações pequenas, mas em expansão

As vendas externas cresceram 23,73% no primeiro semestre de 2026, chegando a US$ 6,79 milhões e alcançando 79 países, segundo a Wines of Brazil, projeto administrado pelo Conselho Vitivinícola do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O Paraguai, um dos mercados prioritários, respondeu por 49,5% do valor das exportações em 2025.

Os Estados Unidos seguiram na direção oposta. Depois das tarifas anunciadas pelo presidente Donald Trump em 2025, e ampliadas neste ano, as vendas brasileiras de vinho para os Estados Unidos caíram 39,6% no primeiro semestre de 2026, com US$ 453,9 mil, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A Salton afirma que as vendas estão aumentando para China, Maldivas, países africanos e Filipinas. Lucio Motta, gerente de exportações da vinícola Miolo, ressalta que as tarifas obrigam a uma revisão dos preços e geram insegurança entre os importadores.

Tufi Neder Meyer, autor de The wines of Brazil, primeiro título sul-americano da série Classic Wine Library, da Académie du Vin Library, pontua que o vinho brasileiro “merece mais reconhecimento e atenção e supere o preconceito injustificável”.

Um anuário do Mapa terá pouco efeito sobre a percepção dos consumidores nas lojas de vinho, mas oferece à indústria números oficiais para sustentar sua defesa — começando pelos formuladores de políticas públicas em Brasília.

A publicação deste conteúdo é fruto de parceria entre a Revista Problemas Brasileiros e o portal The Brazilian Report. Acesse aqui o material original, em inglês.

The Brazilian Report Débora Faria
The Brazilian Report Débora Faria