A base da evolução da sociedade pode ser vista como um sumário de comportamentos, hábitos e atitudes da vida dos indivíduos dentro das instituições em que forma sua biografia. São inúmeros os tratados de sociologia que tentam compreender adequadamente movimentos, papéis, desafios e destino das pessoas em sua vida familiar ou profissional.
Viver é desempenhar funções estruturadas na sociedade observando sua relação com as instituições. Ter uma biografia é compreender como se forma sua personalidade, sua responsabilidade e suas consciências pessoal e social. Nos tempos presentes, o que temos visto, no Brasil e no mundo, é que a maioria das pessoas adquire suas características sem muito senso crítico, como se tivessem uma mente implantada.
São amplos os limites da psicologia e das possibilidades das percepções, tanto quanto das cores, dos sons, das opções pessoais e profissionais. Todavia, da forma como andam as coisas, tão institucionalmente configuradas, materialmente distribuídas e politicamente circunscritas, está ficando difícil dizer que as motivações e os sentimentos das pessoas correspondam a uma moldura realmente pessoal e que tenham origem em seu arbítrio. A moldura institucional e a estrutura social do nosso tempo, sua forma de funcionar, seus vocabulários cifrados e a massificação das palavras, leis e manias estão produzindo robôs alegres, que são convencidos, externamente a eles, a aceitar ou rejeitar a autoimagem.
São tantas as influências externas que poucas pessoas perdem tempo em formular alguma opinião própria adequada à sua verdadeira opinião. Felizmente aumenta a reflexão de que o indivíduo precisa começar a transcender, conscientemente, o papel previamente preparado pela estrutura e pela ordem de seu meio, para poder melhor desempenhar sua função. Com juros tão altos, claro que é mais difícil ter algum capital de giro para conceder à paciência algum tempo para se dedicar a algo que não seja moda. O tempo atual está dilacerado pela imitação e pela intimidação.
É um tempo aparente da variedade de estilos, antes mais parece o de massificação dos modelos de comportamento, impedindo que a beleza da variedade humana se afirme espontaneamente. São máquinas de desejos, leis e ordens sendo criadas para criarem tipos e situações que fazem a glória dos fiscais de lei para tudo — e também dos que estão em conflito com a lei. A variedade é contraditoriamente uma massa homogênea.
São ondas do contexto de um tempo, impulsionadas por propaganda, meios químicos, desejo de adaptar-se ao que se vê, lê ou ouve. Ondas que servem a todas as categorias interessadas em aumentar a frequência das atitudes esperadas e encaixá-las numa gaiola de condutas. Por trás de tudo, cresce a força do abuso burocrático dos que têm poder e influência para impor, em seus ambientes específicos, uma mesma visão das coisas.
Quando não há mais motivação e condições para entender e lutar por valores comuns, a contradição entre racionalidade e razão aumenta a distância entre razão e liberdade. O colapso identitário, fruto da manipulação das vontades, impede a formação de uma harmonia comunitária que tenha legitimação coletiva. Mas o elo fraco do mundo atual não são as ordens institucionais impostas, mas a desagregação da estrutura social.
Desconcertante é a aceitação complacente das ideias dominantes por uma sociedade que não compreende claramente que só tem ideias dominadas, cuja origem é o apagamento das ordens política e econômica e da cultural global.
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.