Artigo

Um país afogado de política

Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP
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Paulo Delgado
é sociólogo, cientista político e diretor de Relações Institucionais da FecomercioSP

O ano de 2025 terminou com todos os sinais de esgotamento de um ciclo que fez do excesso de política a característica mais extravagante e manipuladora do sentimento do brasileiro. Não tente nada por si mesmo. A ordem é: só está bem quem vive na pátria da política. A culminância de tudo é o desencantado conformismo do cidadão abarrotado de uma política de mão beijada que se tornou moda.

Tudo o que parece compreensivo, originado dos três Poderes, tem sempre uma sensibilidade maior para a oportunidade de aumentar a força da dominação sobre a autonomia do cidadão. Há uma luxúria em muitas decisões que mudam o senso de realidade e meio que desmoraliza a ideia de que o melhor se conquista pelo trabalho, pela produção, pela acumulação e pela responsabilidade profissional. O País está sem uma boa teoria da origem da riqueza honesta para alimentar o registro do desempenho da economia.

O ethos burocrático do Estado não tem boa fundamentação sociológica, nem alcançou o estágio que proporciona uma base segura para as suas práticas terem efeito na engenharia das decisões políticas, sociais e econômicas. Não há métodos moralmente antissépticos para impedir que o padrão das escolhas institucionais resvale para interesses particulares. São perplexidades próprias de autoridades, pressões desprovidas de interesse público autêntico, que estão definindo o clima da política pública.  

O contexto em que vive o Brasil, de grande concorrência entre os grupos políticos, mudou o conceito de capacidade da autoridade. Desde então, a competência ou incompetência de um agente público não está mais em julgamento; basta o interessado se associar ao grupo político vitorioso e, logo, as facilidades adquiridas pela adesão cuidam de definir os meios próprios de avaliação da competência — e a forma de distribuição de prestígio e poder. Mas esta velocidade com que se adquire a reputação por interesses próprios perderá a eminência na semana seguinte em que o adesista perder a função, e ninguém mais sentirá saudades dele. Será assim que formaremos a nova geração de líderes brasileiros?

Há uma tragédia inerente à perda do respeito pelos papéis da autoridade quando são imitados em razão exclusivamente das conexões políticas. Deixa passar a impressão — estimulada pelas redes sociais que hoje governam os governos — de que só o cidadão que consegue ser uma pessoa totalmente particular se destacará. O mundo dos grupos interessados no poder de manobra sobre o comportamento humano, dos partidos e da busca patológica pela aceitação e pela popularidade não é o único, tampouco a principal razão de ser da política.

A energia da sociedade para a batalha da vida produtiva não é valorizada quando vê a inutilidade do esforço pelo trabalho. E leis demagógicas, de cunho meramente eleitoral, que tornam falsas as razões do Direito social, expõem a fragilidade do cidadão diante dos interpretadores de seus valores e sentimentos. A vítima será o sonhar inútil dos que crescem por esforço próprio e sabem que nada que o governo (ou o Estado) concede a um, esse mesmo governo (ou Estado) já não tirou antes desse um (ou de outro). 

Que o ano novo que se inicia e flores de imaginação política possam fazer o País entender melhor a estrutura de nossa época. O destino não é uma categoria histórica. A esperança no tempo presente deve poder permitir ao Brasil se distanciar de equívocos para que predomine um culto da competência e da sólida construção de um futuro, no qual o gosto pelos seres humanos predomine sobre o gosto por eleitores.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #490 (JAN/FEV) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

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