Quantos amigos precisamos ter?

17 de julho de 2026

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A literatura, a música e demais manifestações artísticas mostram que a solidão é um sentimento que atormenta a humanidade ao longo dos séculos. No entanto, só recentemente passou a ser encarada como uma questão de saúde pública. Embora pareça difícil de mensurar, pesquisas realizadas nos últimos 50 anos indicam que a falta de amigos ou familiares próximos diminui não apenas a qualidade de vida, como também a expectativa de quantos anos podemos viver. Quem vive isolado vive menos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, condição associada a cerca de cem mortes a cada hora — mais de 871 mil por ano. O isolamento chega a ser tão prejudicial para a saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Por isso, a OMS, alguns médicos e autoridades de saúde passaram a falar em epidemia de solidão. A vacina é simples, mas cada vez mais difícil de administrar em tempos rápidos e digitais: manter conexões reais e profundas com outros seres humanos.

O olhar científico sobre o tema teve um marco importante em 1978, quando um trio de pesquisadores criou a Escala da Solidão da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), num esforço para dar contornos mais objetivos a um sentimento subjetivo. São 20 perguntas que buscam saber se as pessoas se sentem conectadas, amparadas e cuidadas ou excluídas, isoladas e incompreendidas. A solidão não é simplesmente estar fisicamente longe dos outros, mas o estado emocional de sentir-se distante, ainda que cercado de pessoas.

Sentimento universal

Além das pesquisas acadêmicas, há uma série de indícios sobre o tamanho do problema por todo o planeta. Nos Estados Unidos e no Japão, despontaram, a partir dos anos 2000, empresas de amigos de aluguel. Em 2018, no Reino Unido, foi criado um ministério de combate à solidão. Na China, uma análise de dados das dez canções mais populares no país entre 1970 e 2010, realizada pela Academia Chinesa de Ciências e pela Nanyang Business School (NBS), de Singapura, aponta que o uso da primeira pessoa do singular — eu, mim, meu — cresceu, enquanto o uso do plural (nós, nos, nosso) diminuiu.

Ainda que o Brasil seja percebido como um país com pessoas calorosas e abertas a novas conexões, sua população não está imune ao problema. “A solidão é um desafio para a saúde pública global e o Brasil está incluído nessa realidade. Promover conexão social deve ser uma prioridade de saúde”, afirma Hisrael Passarelli, doutor em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e referência nacional no estudo do tema.

Possíveis culpados

Os celulares e as mídias sociais aparecem no topo do ranking dos vilões para a falta de socialização. Ao desviarem a atenção do que está de fato presente, ao vivo e em cores, as pessoas acabam se ligando a outros indivíduos que estão fisicamente distantes, mas pensam da mesma forma, o que eleva sentimentos de raiva e intolerância. A reorganização dos locais e das relações de trabalho, assim como as mudanças demográficas que geram famílias cada vez menores, completam a lista de culpados pela solidão em nível global.

Há ainda quem responsabilize o sistema econômico neoliberal, que, ao valorizar o mérito e o esforço individuais, aumenta a competição entre os indivíduos e afrouxa os vínculos. No Brasil, a sensação de insegurança nas vias públicas, a falta de espaços acessíveis de socialização e os transportes coletivos inadequados ajudam a compor o quadro.

Contudo, Passarelli alerta que, por mais que já existam certezas acerca de padrões e grupos mais vulneráveis com os dados disponíveis, por enquanto, é impossível estabelecer relações de causalidade. “É um fenômeno complexo, então é difícil desembaralhar os fios para entender onde começa. Será que a falta de amigos causa a solidão, ou é o sentimento de solidão, de isolamento, que faz as pessoas se afastarem dos amigos?”, questiona. O mesmo segue verdadeiro para os demais elementos: as pessoas que mais usam redes sociais se isolam do mundo real, ou as pessoas mais isoladas do mundo real acabam passando mais tempo nas redes sociais?

O demógrafo também contesta a classificação do fenômeno como epidemia da solidão, como se fosse algo novo e contagioso. “Com as pesquisas que temos, não dá para comparar gerações, dizer que sentimos mais solidão que nossos pais ou menos que nossos filhos. Os contextos e as percepções são muito diferentes”, pontua. E, ao contrário de outras epidemias, o contato próximo entre as pessoas ajuda mais a acabar com a solidão do que a espalhá-la.

A conta do bem-estar

Num mundo que valoriza números e dados, certos trabalhos científicos têm buscado encontrar qual seria o número mínimo de amigos (ou conexões) para que as pessoas vivam mais e melhor, como se fosse a dose de um remédio. Há estudos que apontam para valores entre dois e seis. Passarelli, no entanto, descarta fórmulas que sirvam a todos. “Não há número mágico de quantos amigos são necessários. Para a saúde, ter um amigo ou uma conexão social próxima já faz diferença positiva”, ressalta.

Segundo a OMS, conexão social é a interação com outras pessoas, enquanto a solidão é o sentimento doloroso que surge da lacuna entre as conexões sociais desejadas e as reais. Por sua vez, o isolamento social refere-se à falta objetiva de conexões sociais suficientes.

Jovens e solitários

Na história de vida coletiva da população, há dois picos de solidão. Um deles, que parece mais óbvio, acontece na velhice. “Entre os idosos, a transição para a aposentadoria, que retira as conexões sociais, tem um peso importante”, observa Passarelli. O outro pico é no início da fase adulta. Portanto, quando se trata de políticas públicas, o fundamental é olhar para o fenômeno de forma transversal, incluindo projetos para a juventude e de mobilidade. “O transporte é um fator essencial. Se a pessoa não consegue se locomover para encontrar amigos e parentes, aumenta a desconexão”, sinaliza.

O esforço contra a solidão precisa ser coletivo, porque inclui mudar dinâmicas sociais. “A experiência atual dos jovens é hiperindividualizada, solitária, sem rotinas coletivas a partir do momento que saem da escola”, ressalta Fabián Echegaray, fundador e diretor-geral da consultoria Market Analysis Brasil, que, no ano passado, fez uma pesquisa de opinião sobre a solidão. Segundo o estudo, 35,2% dos brasileiros disseram estar solitários sempre ou com frequência.

Segundo Echegaray, as famílias têm uma lição de casa importante para evitar o problema. “A infância de hoje é superprotegida, as crianças têm baixa tolerância à frustração e crescem sem aprender a compartilhar no mundo real. Isso vai gerando uma atrofia na capacidade de negociar, o que é obrigatório para uma boa dinâmica social, para se ter amigos”, argumenta.

Ele explica, ainda, que a linguagem usada no mundo virtual também atrapalha noções de realidade. “Chamam de conexão o que se passa nas redes sociais, dizem que são amizades os relacionamentos virtuais com gente com quem não se pode contar. Para mim, o pior é a confusão que se faz com a ideia de comunidade”, opina, acrescentando que essas atividades online se tornam uma miragem e nunca vão substituir o olho no olho, um abraço ou aperto de mão. O advento das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para relacionamento, entidades que nunca discordam, nunca contestam e só buscam agradar, pode agravar ainda mais o quadro atual.

Tempo e oportunidade

Na pesquisa da Market Analysis com os brasileiros, houve um recorte populacional que se mostrou especialmente solitário: as mães solteiras e trabalhadoras das classes mais baixas. Seis em cada dez mães solitárias são de baixa renda. “De forma geral, quem mora com filho tem uma percepção menos grave da solidão. Mas quando se pega a sobreposição de gênero com filhos pequenos e renda baixa, a solidão é devastadora. Isso é consequência da dupla ou tripla jornada, porque, às vezes, essas mães têm mais de um trabalho”, destaca o diretor.

A falta de tempo limita fundamentalmente a capacidade de fazer ou manter amizades. “Fala-se em amizades de baixa manutenção, mas temos de tomar cuidado, porque se eu falo com uma pessoa só uma vez por ano, não consigo falar sobre coisas profundas e mostrar minhas vulnerabilidades”, alerta a psicóloga Érica Portugal, da rede Conexa, que trabalha principalmente com mulheres. Há uma pesquisa da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, que sugere que são necessárias 200 horas de convivência para que se crie um vínculo de amizade realmente forte.

Fazer e cultivar amizades na vida adulta é desafiador para a maioria. “A rotina é o primeiro obstáculo, porque nos engole e abrimos mão do tempo que dedicaríamos para manter os relacionamentos”, pondera. O outro obstáculo é a oportunidade. Se entre crianças basta ter um brinquedo para começar a falar com os outros, os adultos devem buscar se aproximar de desconhecidos de maneira intencional.

“Recomendo que procurem aulas coletivas. Pode ser um esporte, um curso de marcenaria, algo que possa dar o sentimento de pertencimento”, sugere Érica. Ainda que seja importante lutar contra o isolamento real, também é importante que se aceitem momentos de solitude. Em maior ou menor grau, as pessoas podem passar tempo sozinhas sem que isso seja um sofrimento.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria