Há uma década, a visão predominante sobre o mercado de luxo no Brasil parecia um alerta para investidores. Uma dissertação, defendida em 2017 na Fundação Getulio Vargas (FGV), resumia bem o cenário da época: impostos de importação capazes de dobrar o preço final dos produtos, consumidores que preferiam fazer compras no exterior, juros do cartão de crédito que chegavam a três dígitos e uma clientela de alta renda conhecida por exigir um nível extremo de atendimento.
O País já tinha muitos milionários, mas condições pouco favoráveis para um mercado que, como resumiu um executivo desse nicho citado no estudo, “definitivamente não era para amadores”.
Os sobreviventes daquele período, porém, vivem agora um momento de expansão, com o segmento de luxo brasileiro crescendo acima da média global. Segundo a Associação Brasileira das Marcas e Empresas de Luxo (Abrael), as empresas associadas registraram aumento de 16,3% na receita em 2025, na comparação com o ano anterior, e a expectativa é de crescimento de aproximadamente 12% em 2026, o terceiro ano consecutivo de expansão em dois dígitos.
A consultoria de gestão Bain & Company estima que o mercado brasileiro de luxo movimentou R$ 98 bilhões em 2024, ante R$ 41 bilhões em 2018, e projeta que esse valor alcance entre R$ 135 bilhões e R$ 150 bilhões até 2030. Os principais motores desse avanço são imóveis, automóveis, saúde e hospitalidade.
A mudança representa uma reviravolta para um mercado que, antes, era considerado pouco desenvolvido e negligenciado pelas grandes marcas. Parte dessa transformação veio de fatores externos. Grandes conglomerados internacionais perderam entusiasmo com a China, onde os consumidores passaram a privilegiar marcas locais, e começaram a enxergar a América Latina como uma alternativa estratégica.
Segundo a Abrael, o Brasil deixou de ser visto com desconfiança pelas matrizes das marcas de luxo e converteu-se em receptor de investimentos anteriormente direcionados a outros mercados.
Essa mudança pode ser observada nas novas inaugurações na Cidade de São Paulo. A Guerlain, marca de beleza do grupo francês LVMH, abriu, em maio, sua primeira butique na América do Sul. A casa de moda de luxo Chanel, também francesa, inaugurará, em 2027, sua maior loja na América Latina, como parte da expansão do Shopping Cidade Jardim — da JHSF, uma das principais empresas brasileiras do mercado imobiliário de alto padrão —, ao lado de novas operações da grife italiana Loro Piana e da franco-tunisiana Alaïa, além da ampliação das lojas da Dior, do LVMH, e da francesa Hermès. A Dior também prepara uma butique de 600 metros quadrados no Shopping Iguatemi São Paulo, inspirada na tradicional maison da Avenue Montaigne, em Paris.
Mais do que franquias ou testes de demanda, trata-se de investimentos diretos das próprias controladoras globais.
O aspecto mais revelador desse novo olhar para o Brasil, entretanto, está fora do eixo Rio–São Paulo. A riqueza gerada pelo Agronegócio impulsionou uma nova procura por produtos de luxo no Centro-Oeste, no Nordeste e em cidades de médio porte do interior paulista.
Municípios como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso — além de Goiânia, em Goiás; Fortaleza, no Ceará; e Balneário Camboriú, em Santa Catarina —, entraram no radar. No mercado imobiliário de alto padrão, algumas incorporadoras acompanham atentamente as safras agrícolas. Colheitas maiores significam mais dinheiro circulando, porque muitos produtores rurais direcionam seus ganhos a imóveis, considerados investimentos mais seguros.
Segundo a Abrael, o poder de compra chegou antes da infraestrutura comercial. Por isso, antes de inaugurar butiques permanentes, muitas marcas vêm adotando formatos alternativos, como lojas temporárias (pop-ups), portfólios reduzidos e eventos itinerantes.
A Chanel levou uma loja de beleza para Goiânia; a Estée Lauder, empresa norte-americana de cosméticos, promoveu uma pop-up da marca MAC Cosmetics em Cuiabá, no Mato Grosso; e a Dolce & Gabbana, enquanto passa por uma reestruturação na Itália, vem ampliando discretamente sua presença em Salvador, Fortaleza e Balneário Camboriú.
O próprio conceito de luxo também está mudando. A antiga lógica baseada em metragem e ostentação cede espaço aos chamados branded residences, apartamentos e casas assinados por marcas de moda, hotelaria e design, como as italianas Armani/Casa e Fendi Casa, a alemã Porsche e a canadense Four Seasons.
Segundo um corretor especializado em imóveis de luxo, a residência deixou de ser apenas um patrimônio para se transformar em uma experiência de pertencimento, cuidadosamente planejada.
A JHSF construiu em Porto Feliz, interior de São Paulo, todo um sistema voltado para esse público. O condomínio Fazenda Bela Vista é como uma cidade privada, com 30 milhões de metros quadrados, que reúne campos de polo, piscina de ondas artificiais, hotéis Fasano, shopping de luxo e o primeiro aeroporto executivo privado do País.
O segmento náutico segue a mesma tendência. A italiana Azimut Yachts, fabricante do Grande 25 Metri — embarcação de R$ 45 milhões produzida exclusivamente no Brasil —, afirma que o País já responde por mais de 90% das vendas de iates de luxo da América Latina. A empresa mantém uma fila de espera de dois anos e acaba de anunciar uma expansão de R$ 120 milhões em sua fábrica em Santa Catarina.
Existe, porém, uma interpretação menos otimista a toda essa prosperidade. Em grande medida, o rápido crescimento do luxo reflete o enriquecimento acelerado dos brasileiros mais ricos. E a desigualdade de renda voltou a crescer em 2025: o índice de Gini passou de 0,504 para 0,511, após atingir o menor nível da série histórica no ano anterior. Enquanto a renda per capita dos 10% mais ricos cresceu 8,7% entre 2024 e 2025, a dos 10% mais pobres avançou apenas 3,1%.
Como observa o pesquisador João Mário de França, do FGV-Ibre, as taxas de juros elevadas favorecem diretamente quem possui patrimônio financeiro, ao mesmo tempo que empurram o restante da população ao endividamento. Dados da Serasa mostram que 49% dos adultos brasileiros estão inadimplentes.
É justamente essa concentração de riqueza que alimenta a expansão do mercado de luxo. O Brasil continua sendo uma das sociedades mais desiguais do mundo, onde uma pequena parcela da população concentra grande parte da riqueza nacional. Os empreendimentos residenciais assinados por marcas internacionais e os condomínios com piscinas de ondas artificiais são, em última análise, o retrato de um grupo que nunca esteve tão próspero.