O álbum A voz, o violão, a música de Djavan chegou às rádios e às lojas brasileiras há 50 anos como um brilhante cartão de visitas de um músico que logo conquistaria seu lugar no panteão dos grandes da Música Popular Brasileira (MPB). Já naquele disco de estreia, o alagoano Djavan Caetano Viana, simplesmente Djavan para o público (Dija para os amigos), traria hits que se tornaram sucessos seguem embalando sua carreira até hoje, como “Flor de lis” e “Fato consumado”.
Segundo o músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast Silêncio no Estúdio, “o grande superpoder de Djavan é ser único”. “Ele coloca o soul, o funk e o samba com harmonias de jazz e MPB. Suas músicas são sofisticadas, mas, ao mesmo tempo, acessíveis. Ele achou o equilíbrio perfeito de inspiração e inovação”, analisa. “Lembro de quando eram vendidas as revistinhas com cifras de violão, as de Djavan não soavam bem. A simplificação dos seus acordes tira toda a sua alma. Quando se estudaM suas harmonias, observa-se o quão criativo e inovador ele é. E a beleza das suas músicas está nos detalhes”, destaca.
Djavan nasceu em 27 de janeiro de 1949, em Maceió (AL), filho de uma lavadeira com um caixeiro-viajante, que abandonaria a mulher quando o garoto tinha apenas três anos. Cresceu ouvindo a mãe cantarolando sucessos de Angela Maria (1929–2018), Dalva de Oliveira (1917–1972) e Orlando Silva (1915–1978), enquanto, debruçada no tanque, garantia o sustento da família. Na adolescência, dividia-se entre a bola e o violão — quase engrenou carreira profissional como futebolista do Centro Sportivo Alagoano (CSA), tradicional clube maceioense.
No grupo Luz, Som, Dimensão, o LSD, apresentava-se onde coubesse: de palanques improvisados a altares de igrejas, passando por clubes e festas nas pracinhas. A banda tinha um repertório dominado por canções dos Beatles. A biografia Djavan — Dizem que o amor atrai, escrita pelo pesquisador Tiago Ramos e Mattos, registra que ele costumava cabular aulas, quando necessário, para priorizar as apresentações da banda.
Aos 23, foi para o Rio de Janeiro (RJ). Na bagagem, o sonho de emplacar uma carreira musical de sucesso. Começou como crooner em boates famosas da cena carioca da época, até que, graças a indicações de amigos, foi apresentado ao empresário e produtor musical João Araújo (1935–2013), que era o mandachuva da Som Livre, a gravadora que a TV Globo tinha criado com o objetivo inicial de suprir suas novelas com trilhas sonoras de qualidade.
E foi esse o primeiro ganha-pão artístico de Djavan. A serviço da teledramaturgia global, gravou canções como “Qual é”, dos irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, entre outras. Essa música, aliás, integraria a trilha da novela Gabriela, sucesso da emissora em 1975.
Entre uma encomenda e outra da Som Livre, Djavan compunha. Calcula que tenha criado 60 canções em apenas três anos. Sentia-se pronto para uma estreia realmente autoral quando sua música “Fato consumado” ficou em segundo lugar no Festival Abertura, em 1975, promovido pela Globo e, em seguida, conseguiu assinar um contrato para gravar seu primeiro disco.
Emplacou nas rádios e conquistou público e crítica. De lá para cá, Djavan construiu uma sólida carreira, com sucessos daqueles que o chavão diz serem “incontornáveis” quando se pensa em MPB, como as músicas “Oceano”, “Se”, “Meu bem querer” e “Sina”. “O Djavan não veio dos grandes centros produtores da MPB, como a zona sul do Rio. Muito menos dos movimentos organizados, como a Tropicália, na Bahia, ou o Clube da Esquina, em Minas Gerais. Chegou ao Rio nos anos 1970 e não fazia parte de nenhuma ‘panela’. Ele era a própria voz, e ter o reconhecimento que ele tem é para se aplaudir de pé”, opina Ribeiro.
Muitas vezes, em fenômeno reforçado pelas redes sociais, o suposto hermetismo de suas letras — de difícil interpretação — rende anedotas espirituosas, piadas e memes. Das discussões sobre o significado de versos enigmáticos como Açaí/Guardiã/Zum de besouro/Um imã/Branca é a tez da manhã, às especulações sobre a origem de sua inspiração.
A história mais clássica é que a música “Flor de lis” seria um tributo do músico à sua esposa Maria e à sua filha Margarida, que haviam morrido tragicamente no parto. Daí os versos “Do pé que brotou Maria/Nem margarida nasceu”.
Lorota. O próprio músico desmentiu essa história diversas vezes. Em entrevista concedida em 2010, ele disse que há uma explicação na internet completamente falsa. “Nada daquilo jamais aconteceu, [a letra] não é uma experiência pessoal, é uma invenção. De modo geral, minhas composições não falam de mim mesmo”, revelou.
O único ponto verdadeiro dessa lenda urbana é o fato de que Djavan realmente era casado com uma Maria quando “Flor de lis” foi lançada — o nome da sua primeira mulher, com quem ele viveu de 1972 a 1998, é Maria Aparecida dos Santos Viana. “Os memes são ótimos e geram boas risadas, mas, para Djavan, a palavra funciona primeiro como um instrumento de percussão e melodia”, contextualiza Ribeiro. “Só depois torna-se veículo de uma história com começo, meio e fim. Ele escolhe palavras pelo som, pela métrica, pela sílaba tônica. Grandes compositores sempre falam que a melodia é o mais importante, e Djavan faz isso perfeitamente. Eu vejo suas letras como metáforas rítmicas e visuais”, pontua.
Em entrevista à revista Bravo! publicada no ano passado, Djavan falou sobre seu processo criativo. “Componho só quando eu preciso”, declarou. “[…] Quando sento e pego o violão para compor uma nova música, eu tenho aquele medo enorme de não conseguir. E o disco é exatamente ratificar um desejo que não é só meu. Tem um público esperando por ele, existe uma expectativa. São muitos anos fazendo música e tentando tirar leite de pedra. Momentos assim são vitais para mim”, confidenciou.
Na maturidade, Djavan passa a imagem de uma pessoa conectada à natureza e aos valores fundamentais da vida. Em seu livro, Mattos conta que o músico gosta de frequentar a igreja franciscana de seu bairro de origem, o Farol, em Maceió, mas que o faz disfarçado para evitar tumultos por sua presença. Politicamente, foi um dos nomes artísticos participantes da campanha Diretas Já, que lutou pela redemocratização do Brasil pós-ditadura cívico-militar, nos anos 1980. Quando o então presidente Jair Bolsonaro foi eleito, em 2018, ele deu uma entrevista que se tornou polêmica porque afirmou estar “esperançoso” com o futuro do Brasil.
Sua declaração foi interpretada, na época, como se ele fosse um apoiador do extremista de direita que havia vencido aquela eleição. Ele explicaria, anos depois, dizendo que jamais havia votado em Bolsonaro ou apoiado seu projeto de poder, e que seu sentimento de esperança era porque acreditava na democracia e no povo brasileiro.
Recentemente, apresentou-se junto com Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil num evento ocorrido em Copacabana, no Rio, cuja pauta era uma manifestação contra a anistia aos golpistas que, em 8 de janeiro de 2023, insatisfeitos com a derrota de Bolsonaro nas urnas, depredaram prédios públicos em Brasília e insuflaram terror nas ruas da capital do País, ameaçando o funcionamento dos poderes constitucionais.
Para celebrar as cinco décadas de carreira, Djavan, aos 77 anos, vem cruzando o Brasil em uma turnê que oferece aos fãs seus grandes clássicos. Se na canção “Sina” ele homenageou Caetano com o verbo “caetanear”, hoje, “djavanear” é, indiscutivelmente, uma definição da força de sua poesia.