O mundo está vivendo um momento de ascensão de líderes autoritários que se aproveitam do próprio jogo democrático. A origem desse fenômeno pode estar na insatisfação da população quanto às instituições. É o que explica Germano Almeida, analista de política internacional e autor do livro O colapso da verdade, lançado em Portugal no ano passado.
Em entrevista ao Canal UM BRASIL e à Revista Problemas Brasileiros — ambas realizações da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) —, Almeida analisa, ainda, os rumos da nova ordem internacional e as pressões sobre o multilateralismo.
A íntegra da entrevista, em vídeo, conduzida por Lucas Mota, está disponível no Canal UM BRASIL. E confira abaixo os principais pontos da conversa.
Descrença nas instituições. De acordo com Almeida, o que tem sido visto nas democracias ao redor do mundo é a consolidação do cenário ideal para a ascensão de discursos de caos, de instabilidade e de falência social,mesmo que exagerados. Esse quadro, segundo o especialista, é marcado por um “alto grau de insatisfação e de rejeição ao Congresso, ao Poder Executivo, à mídia, aos tribunais e às forças de segurança”.
Donald Trump e a ‘falência social’. “O caso norte-americano é muito claro. Há uma ideia de que os Estados Unidos falharam completamente nos últimos anos — e, depois, nos grandes números, vemos que os Estados Unidos continuam a ser a grande potência mundial”, explica. “A China vai reduzindo a diferença, mas não porque os Estados Unidos estão em queda livre. A China está a subir mais rapidamente, mas também com bastantes problemas. A pandemia mostrou isso.”
O autoritarismo entra em cena. Segundo o analista, essa é uma situação propensa à ascensão do que ele chama de “homens fortes”. “São essencialmente líderes que rejeitam o sistema democrático — e que, muitas vezes, se aproveitam desse sistema, não se assumem como ditadores e vão ao jogo das eleições. A partir de certo ponto, ganham um certo controle e domínio, adotando a ideia de que‘Se eu perdi, não valeu’”, conclui.
ONU enfraquecida. O mundo está vivendo o fim de uma ordem internacional evidente, com regras claras e respeito ao multilateralismo, explica Almeida. “O que temos hoje? A ONU em seríssima crise de prestígio, incapaz de resolver as grandes questões do mundo, por um problema também da arquitetura própria, ou seja, o Conselho de Segurança fez sentido pós-Segunda Guerra Mundial. Não faz qualquer sentido agora”, explica.
Novos ‘players’. Almeida lembra que, para além de uma ONU menos poderosa, o mundo vive, também, a ascensão de dois grandes poderes: Estados Unidos e China — bem como de poderes intermediários em crescimento, com grande potencial de ascensão. “Estamos a falar dos grandes países do Sudeste Asiático, do Brasil e da África do Sul”, comenta.
Os Estados Unidos e a crise interna. Soma-se a tudo isso os efeitos da polarização política nos Estados Unidos, que se acirrou muito nas últimas duas décadas. “Por um lado, a polarização se agravou, a diferença entre democratas e republicanos aumentou e tem sido cada vez mais difícil criar consenso no país”, explica. Almeida acredita que essa dificuldade doméstica de alcançar consensos também tem impactos sobre a ordem global.
O retorno da instabilidade. No Velho Continente, a conjuntura é o fim da sensação de paz inabalável que se instaurou durante o pós-Segunda Guerra, de acordo com a análise de Almeida. “Qual era essa ‘paz perpétua’? A relação transatlântica com os Estados Unidos, a construção europeia e a acomodação da Rússia pós-queda da União Soviética”, explica.
Crise na Ucrânia. O especialista ainda destaca que a gota d’água foi o fim da acomodação da Rússia, que se transformou em uma confrontação. “Isso levou ao regresso da guerra na Europa, com a invasão russa da Ucrânia em 2022. E depois, naturalmente, à questão do Médio Oriente, um conflito mais fundo, com diferenças religiosas e históricas milenares”, completa.