A compra parcelada como estratégia de consumo. Essa é a base do livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia (Fósforo Editora, 2026), lançado recentemente por Kauê Lopes dos Santos, geógrafo e pesquisador na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na obra, o autor expõe sua pesquisa realizada nos bairros paulistanos e periféricos de Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela, habitados por uma população majoritariamente das classes D e E. O estudo buscou entender as consequências do acesso ao crédito formal numa realidade complexa de modernização do consumo em meio a uma precariedade econômica estrutural.
O livro mostra que o parcelamento é primordialmente uma estratégia para gerir a escassez, gerando uma inserção precária no capital financeiro, que acaba por aprisionar essa população no que o autor chama de “ciclo de endividamento crônico”. Por isso, o pesquisador prefere classificar essa dinâmica como uma capilarização do crédito, mais do que como uma inclusão financeira, ainda que a financeirização desse grupo, impulsionada pela digitalização, também ajude a contribuir para o acesso ao crédito e ao parcelamento.
Nesta entrevista à Revista Problemas Brasileiros, Santos detalha o avanço do parcelamento, que deixou de servir apenas para a aquisição de bens duráveis, e passou a financiar itens do cotidiano, como supermercado e até pedidos por aplicativo. “O problema é que o parcelamento virou um modus operandi tão forte que já não funciona única e exclusivamente para os bens mais caros, expandindo-se para a compra de alimentos e vestuário. É uma lógica que vai comprometendo o orçamento familiar de forma silenciosa e crônica”, destaca.
O pesquisador analisa a estrutura multifatorial do endividamento, o aspecto comportamental — que considera o perfil consumista e conectado do brasileiro — e as questões macroeconômicas, como o patamar elevado dos juros. Partindo dessa concepção, a resposta automática, que aponta uma relação direta das dívidas das famílias com a falta de educação financeira, é rechaçada por ele. “Dizer que a solução é apenas a educação financeira parece uma receita simplista. A população de baixa renda não está endividada por descontrole dos gastos, mas porque recebe baixos salários e enfrenta taxas de juros altíssimas, que estão entre as maiores do mundo”, pontua.
Eu queria estudar os contrastes nas paisagens da periferia urbana de São Paulo. O que me chamava a atenção era uma particularidade brasileira: em bairros periféricos típicos do Sul Global — caracterizados pela carência de infraestrutura básica como saneamento, saúde e transporte —, há a presença de equipamentos de última geração nas moradias, as quais, em sua maioria, são autoconstruídas. É a casa sem reboco, mas com uma televisão de plasma, antena parabólica e celular. Fiz mais de 200 entrevistas em bairros como Jardim Ângela, Brasilândia e Jardim Helena. A pesquisa acabou caminhando para a estruturação do consumo na periferia, fundamentada em três pilares: obsolescência programada, publicidade e crédito, sendo este último o meu foco principal. Embora o alvo seja a periferia, a gente consegue transpor isso para as outras classes sociais.
Sim. São trajetórias distintas, profissões distintas, com pessoas inseridas no mercado de trabalho de forma relativamente distinta, mas todas passam pelo baixo orçamento, têm um rendimento baixo, algumas da classe C, mas predominantemente das D e E. Essas pessoas encontram no parcelamento a única forma — ou a mais banal — de comprar mercadorias mais caras.
No Brasil, consolidou-se como estratégia de acesso ao consumo de bens mais caros, que não cabem na faixa de orçamento dos trabalhadores com baixo poder aquisitivo. Só que essa lógica ganhou força para além dessa finalidade. O problema é que o parcelamento virou um modus operandi tão forte que já não é usado única e exclusivamente para os bens mais caros. Hoje, expandiu-se para a compra de alimentos e vestuário, coisas que, em tese, deveriam caber no orçamento mensal. O crédito viabiliza a compra que a pessoa não faria por outro meio e ela entra num ciclo contínuo de pagamento de 20, 30, 40 meses. Quando um ciclo acaba, vem outra necessidade ou produto, o que é um dos efeitos mais deletérios dessa lógica, porque vai comprometendo o orçamento familiar de forma silenciosa e crônica.
O livro sinaliza muito explicitamente essa dinâmica da “capilarização” do crédito. E eu não falo inclusão financeira, eu falo “capilarização” financeira, porque avalio que inclusão tem uma conotação muito positiva e não penso que isso seja uma situação única e exclusivamente positiva — há problemas. Ao mesmo tempo que o sistema financeiro consegue viabilizar o acesso a mercadorias que anteriormente a família não teria, ou teria que poupar durante muito tempo para comprar, coloca esse sujeito numa lógica de compras parceladas por meses seguidos.
Sim, é uma lógica que vai comprometendo o orçamento continuamente. A gente tem a impressão de que ele é episódico, porque o vincula à aquisição de um produto de crédito ou a um produto ou uma mercadoria. Mas, na verdade, é uma lógica, então, você vai substituindo frequentemente uma compra por outra.
É uma questão multifatorial. Dizer que a solução é apenas educação financeira parece uma receita simplista. Quando você conversa com a população de baixa renda, vê que ela não está endividada por descontrole de gastos, mas porque recebe baixos salários e enfrenta taxas de juros altíssimas, que estão entre as maiores do mundo. É o quanto essa rotina do parcelamento vem de uma renda que não permite o consumo. Além disso, a educação financeira vendida por aí foca apenas na microgestão do crédito. Precisamos de uma alfabetização sobre a estrutura do sistema financeiro para que saibamos quais são as empresas e taxas que praticam.
Os varejistas tiveram uma grande sacada territorial que os bancos demoraram para ter, ao entenderem o perfil do consumidor de baixa renda no cotidiano. Digo até que redes como a Casas Bahia talvez conheçam melhor os hábitos da população brasileira do que muitos intelectuais. Essas empresas captaram algo fundamental: o mais pobre paga suas contas, há um senso moral e religioso de dignidade ligado a ter o nome limpo. Vi muito isso nas entrevistas: pagar a conta de luz regularizada ou a parcela da TV traz um sentimento de dignidade e posse legítima em meio a um cotidiano de precariedades.
Parcelar uma refeição mostra o nível de desorganização financeira a que fomos levados, indicando que o orçamento já não consegue suprir aquisições básicas. Identifico esse parcelamento de refeições muito mais numa faixa da classe média — impulsionado também por costumes pós-pandemia — do que na de baixa renda. A classe média adota o que chamamos de consumo aspiracional ou de assimilação.
São iniciativas com caráter de curto prazo, que não questionam os mecanismos que levam o indivíduo à insolvência e têm foco apenas em tirar a pessoa da inadimplência momentânea para realocá-la no mercado de consumo. Isso tem um efeito positivo imediato e faz a economia girar, mas não resolve o problema estrutural. Para atacar o endividamento em médio e longo prazos, seria necessário um conjunto integrado de políticas: valorização do salário mínimo e da renda, redução real das taxas de juros e educação financeira crítica. No entanto, essas medidas exigem mexer com grandes atores do sistema financeiro e com forças políticas consolidadas. Vejo que, independentemente de qual seja o próximo governo, temos um grande desafio nos próximos anos de lidar com essa situação. São debates muito estruturais. De toda forma, são alguns debates que a gente vai ter que encarar enquanto sociedade.